{"id":143,"date":"2020-06-21T15:06:06","date_gmt":"2020-06-21T18:06:06","guid":{"rendered":"http:\/\/paineira.usp.br\/cje\/babel\/?p=143"},"modified":"2020-09-30T10:43:06","modified_gmt":"2020-09-30T13:43:06","slug":"a-elitizacao-do-acesso-a-comida-saudavel-no-brasil","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/babel.eca.usp.br\/?p=143","title":{"rendered":"A elitiza\u00e7\u00e3o do acesso \u00e0 comida saud\u00e1vel no Brasil"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Cinco ma\u00e7\u00e3s, tr\u00eas p\u00earas, duas ameixas, um cacho de bananas, um mam\u00e3o, cinco laranjas, dois maracuj\u00e1s, quatro cachos de uva, duas caixas de morango, um quilo de tomates, duas cabe\u00e7as de alho, tr\u00eas abobrinhas, uma couve-flor, dois ma\u00e7os de salsinha, uma r\u00facula, duas alfaces, um repolho, um vidro de palmito, um vidro de azeitona e dois p\u00e3es caseiros.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Esse \u00e9 o conte\u00fado das sacolas de uma das compras semanais de Camila. S\u00e3o R$140 gastos em uma quitanda que fica pr\u00f3xima a sua casa, no interior de S\u00e3o Paulo. A fam\u00edlia de Camila, de classe m\u00e9dia alta, \u00e9 composta por seus dois filhos e marido.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Ela tamb\u00e9m frequenta supermercados, onde o foco \u00e9 a compra de produtos como azeite, arroz, feij\u00e3o, latic\u00ednios, frios, carnes, sucos e alguns poucos doces. O terceiro local que Camila visita com frequ\u00eancia \u00e9 uma loja que vende produtos a granel. L\u00e1, gr\u00e3os, temperos e farinhas finalizam as compras da casa.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Em Ilhota, munic\u00edpio de Santa Catarina, as compras de Grazieli s\u00e3o diferentes. O arm\u00e1rio em sua cozinha conta com caixas de leite, pacotes de macarr\u00e3o instant\u00e2neo, molhos de tomate prontos, macarr\u00e3o, arroz, pipocas de microondas, sucos em p\u00f3, bolachas, achocolatado em p\u00f3, caldos de galinha e carne, cappuccino instant\u00e2neo e outros produtos industrializados. Frutas, legumes e verduras? Somente cebola, alho, tomates e lim\u00f5es.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Aos 18 anos, ela saiu recentemente da casa dos pais e mora sozinha em um apartamento. Segundo Grazieli, a falta de \u00e2nimo para cozinhar e a correria do dia-a-dia fazem com produtos industrializados sejam frequentes em sua alimenta\u00e7\u00e3o.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A jovem, de vez em quando, ainda almo\u00e7a na casa de seus pais, local onde consome legumes, verduras e frutas. Quando a refei\u00e7\u00e3o \u00e9 preparada por ela mesma o card\u00e1pio \u00e9 bem mais restrito. \u201c\u00c9 sempre miojo ou frango com salada\u201d, conta.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A escolha de Grazieli de deixar de lado a famosa dupla da alimenta\u00e7\u00e3o brasileira, o arroz e o feij\u00e3o, \u00e9 algo cada vez mais frequente pa\u00eds afora. A aquisi\u00e7\u00e3o de arroz no Brasil caiu 37% entre 2003 e 2018, enquanto a de feij\u00e3o recuou ainda mais: 50%. <strong>(1)<\/strong> Esses dados, divulgados pelo IBGE na Pesquisa de Or\u00e7amentos Familiares, s\u00e3o uma parcela de um cen\u00e1rio mais amplo guiado pela diminui\u00e7\u00e3o do consumo de alimentos <em>in natura<\/em> no pa\u00eds.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Tal tend\u00eancia resulta do aumento do consumo de alimentos ultraprocessados, que passaram a substituir a comida saud\u00e1vel em muitas refei\u00e7\u00f5es. Al\u00e9m do atrativo do sabor, esses alimentos contam com um fator que os aproxima da fam\u00edlia brasileira: seus pre\u00e7os cada vez mais baixos.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A partir de 2026, a comida saud\u00e1vel ser\u00e1 mais cara que a n\u00e3o saud\u00e1vel no Brasil. Essa proje\u00e7\u00e3o, resultada de um estudo publicado no in\u00edcio desse ano, mostra que o pa\u00eds est\u00e1 seguindo uma tend\u00eancia global: a da domin\u00e2ncia dos alimentos ultraprocessados no sistema alimentar.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-large\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"1024\" height=\"683\" src=\"http:\/\/paineira.usp.br\/cje\/babel\/wp-content\/uploads\/2020\/06\/Gabriela-Bonin-Marjan-Blan_Unsplash-1024x683.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-144\" srcset=\"https:\/\/babel.eca.usp.br\/wp-content\/uploads\/2020\/06\/Gabriela-Bonin-Marjan-Blan_Unsplash-1024x683.jpg 1024w, https:\/\/babel.eca.usp.br\/wp-content\/uploads\/2020\/06\/Gabriela-Bonin-Marjan-Blan_Unsplash-300x200.jpg 300w, https:\/\/babel.eca.usp.br\/wp-content\/uploads\/2020\/06\/Gabriela-Bonin-Marjan-Blan_Unsplash-768x512.jpg 768w, https:\/\/babel.eca.usp.br\/wp-content\/uploads\/2020\/06\/Gabriela-Bonin-Marjan-Blan_Unsplash-1536x1024.jpg 1536w, https:\/\/babel.eca.usp.br\/wp-content\/uploads\/2020\/06\/Gabriela-Bonin-Marjan-Blan_Unsplash-2048x1365.jpg 2048w\" sizes=\"auto, (max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" \/><figcaption>Foto: Marjan Blan\/Unsplash<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>O Guia Alimentar para a Popula\u00e7\u00e3o Brasileira<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong><\/strong>Os supermercados est\u00e3o cheios de embalagens que classificam os alimentos como \u201csaud\u00e1veis\u201d, \u201czero gl\u00faten\u201d, \u201czero a\u00e7\u00facar\u201d e \u201czero lactose\u201d. Isso parece tornar mais dif\u00edcil a distin\u00e7\u00e3o dos alimentos que devem ou n\u00e3o ser consumidos. No entanto, em 2014, o Minist\u00e9rio da Sa\u00fade atualizou o <em>Guia Alimentar para a Popula\u00e7\u00e3o Brasileira<\/em>, importante documento para nortear as diretrizes de alimenta\u00e7\u00e3o saud\u00e1vel no pa\u00eds.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Os alimentos s\u00e3o divididos em quatro categorias, definidas com muita clareza e de f\u00e1cil compreens\u00e3o. A primeira inclui os alimentos <em>in natura <\/em>\u2014 obtidos diretamente de animais e plantas \u2014<em>&nbsp; <\/em>ou minimamente processados \u2014 que s\u00e3o alimentos <em>in natura <\/em>submetidos a altera\u00e7\u00f5es m\u00ednimas. Frutas, legumes, tub\u00e9rculos, folhas, ovos e leite s\u00e3o exemplos de alimentos <em>in natura<\/em>. Por sua vez, gr\u00e3os empacotados \u2014&nbsp; como arroz, feij\u00e3o e lentilha&nbsp; \u2014&nbsp; farinhas, cortes de carne resfriados ou congelados, sucos naturais sem a\u00e7\u00facar, verduras higienizadas e leite pasteurizado se encaixam na categoria dos minimamente processados.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A segunda categoria \u00e9 a de \u00f3leos, gorduras, a\u00e7\u00facar e sal. Esses produtos s\u00e3o extra\u00eddos de alimentos <em>in natura<\/em> e utilizados para temperar, cozinhar e criar prepara\u00e7\u00f5es culin\u00e1rias. Os exemplos est\u00e3o presentes na culin\u00e1ria do dia a dia: azeites; \u00f3leos de soja, milho, coco ou girassol; banha de porco; a\u00e7\u00facar branco, demerara ou mascavo; e sal grosso ou refinado.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Os processados comp\u00f5em a terceira categoria. S\u00e3o os produtos fabricados com a adi\u00e7\u00e3o de sal, a\u00e7\u00facar ou outra subst\u00e2ncia culin\u00e1ria a alimentos <em>in natura<\/em>. \u00c9 como se esses alimentos fossem uma uni\u00e3o das duas primeiras categorias citadas anteriormente. Queijos, frutas cristalizadas, extratos de tomate, atum enlatado e alimentos em conserva, como palmito, pepino e ervilha, s\u00e3o exemplos de alimentos processados.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A quarta e \u00faltima classifica\u00e7\u00e3o engloba produtos cuja fabrica\u00e7\u00e3o envolve etapas e t\u00e9cnicas de processamento e a adi\u00e7\u00e3o de muitos ingredientes, de uso quase sempre estritamente industrial. Esses s\u00e3o os chamados ultraprocessados, cujos r\u00f3tulos quase sempre contam com ingredientes desconhecidos pela maior parte da popula\u00e7\u00e3o. Refrigerantes, bolachas recheadas, macarr\u00e3o instant\u00e2neo, salgadinhos e embutidos, como salame, presunto e peito de peru, exemplificam a classe de alimentos.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-color has-very-dark-gray-color wp-block-paragraph\">A recomenda\u00e7\u00e3o do Minist\u00e9rio da Sa\u00fade neste documento \u00e9 simples: fazer dos alimentos <em>in natura <\/em>ou minimamente processados a base da alimenta\u00e7\u00e3o, consumindo processados com modera\u00e7\u00e3o e evitando os ultraprocessados. Foi usando essa classifica\u00e7\u00e3o do Guia que seis pesquisadores publicaram na Public Health Nutrition a proje\u00e7\u00e3o de que 2026 ser\u00e1 o ano em que comidas saud\u00e1veis passar\u00e3o a ser mais caras que n\u00e3o saud\u00e1veis. <strong>(2)<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>O padr\u00e3o brasileiro de mudan\u00e7a de pre\u00e7o<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O estudo projeta esse \u201cponto de virada\u201d para 2026 a partir de tend\u00eancias observadas desde 1995. Os pesquisadores utilizaram a Pesquisa de Or\u00e7amentos Familiares (POF) e o Sistema Nacional de \u00cdndices de Pre\u00e7os ao Consumidor para definir os alimentos mais consumidos no Brasil e comparar a varia\u00e7\u00e3o nos pre\u00e7os deles neste per\u00edodo de tempo.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">De 1995 a 2017, os alimentos <em>in natura<\/em>, minimamente processados, e processados, tiveram um aumento cont\u00ednuo de pre\u00e7o. Em contrapartida, o valor dos ultraprocessados foi caindo a partir dos anos 2000 \u2014 sendo os refrigerantes, a \u00fanica exce\u00e7\u00e3o. Esse tipo de bebida a\u00e7ucarada, no entanto, apesar de ter encarecido, continua sendo um dos produtos ultraprocessados mais baratos do mercado.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Um dos ultraprocessados analisado foi a salsicha. Assim como cortes de carne, o produto \u00e9 uma prote\u00edna animal, por\u00e9m se diferencia do primeiro por ser um embutido que conta com aditivos qu\u00edmicos comprovadamente mal\u00e9ficos para nossa sa\u00fade. No per\u00edodo entre 2011 e 2017, o quilo da carne (R$ 13,10) j\u00e1 era mais caro que o quilo da salsicha (R$11,33).<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">As diferen\u00e7as de pre\u00e7os podem ser decisivas para as escolhas alimentares de parte da popula\u00e7\u00e3o. Camila, citada no in\u00edcio da reportagem, gasta em torno de R$ 450 semanais com compras de comida. Dividindo o valor pela quantidade de pessoas que comp\u00f5em sua fam\u00edlia, a m\u00e9dia de gastos semanais por pessoa fica em aproximadamente R$ 115. \u201cFelizmente, n\u00e3o preciso ficar comparando os pre\u00e7os para escolher o que levar\u201d, comenta, reconhecendo que sua situa\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 a da maioria dos brasileiros.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Os irm\u00e3os g\u00eameos Leonardo e Eduardo, por sua vez, buscam tornar mais acess\u00edvel a discuss\u00e3o sobre alimenta\u00e7\u00e3o e o consumo em si. Os dois t\u00eam 24 anos e moram na cidade de Campinas, no Estado de S\u00e3o Paulo. Eduardo \u00e9 vegano h\u00e1 cinco anos e Leonardo, h\u00e1 tr\u00eas.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A dieta dos g\u00eameos se resume a produtos de origem vegetal, assim como qualquer vegetariano estrito. No entanto, se diferenciam por reduzirem o consumo de alimentos industrializados somente ao necess\u00e1rio. \u201cUma vez ao m\u00eas, compramos industrializados como \u00f3leo, sal, arroz, feij\u00e3o e a\u00e7\u00facar\u201d, conta Leonardo. \u201cNossa alimenta\u00e7\u00e3o \u00e9 majoritariamente baseada em frutas, legumes e vegetais\u201d.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A escolha se justifica no ativismo defendido pelos irm\u00e3os na internet. Por meio de uma conta no Instagram (@veganoperif\u00e9rico), eles compartilham suas refei\u00e7\u00f5es e receitas veganas com ingredientes simples. \u201cO elitismo no veganismo est\u00e1 muito relacionado ao consumo de produtos. O que precisamos consumir \u00e9 informa\u00e7\u00e3o. A informa\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m \u00e9 elitizada, mas \u00e9 mais acess\u00edvel. Ela n\u00e3o requer grana, requer consci\u00eancia\u201d, explicam.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-large\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"817\" height=\"601\" src=\"http:\/\/paineira.usp.br\/cje\/babel\/wp-content\/uploads\/2020\/06\/Gabriela-Bonin-2.png\" alt=\"\" class=\"wp-image-146\" srcset=\"https:\/\/babel.eca.usp.br\/wp-content\/uploads\/2020\/06\/Gabriela-Bonin-2.png 817w, https:\/\/babel.eca.usp.br\/wp-content\/uploads\/2020\/06\/Gabriela-Bonin-2-300x221.png 300w, https:\/\/babel.eca.usp.br\/wp-content\/uploads\/2020\/06\/Gabriela-Bonin-2-768x565.png 768w\" sizes=\"auto, (max-width: 817px) 100vw, 817px\" \/><figcaption>Exemplo de postagem da conta de Instagram de Leonardo e Eduardo (@veganoperiferico)<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A op\u00e7\u00e3o por alimentos <em>in natura <\/em>ou minimamente processados, no entanto, n\u00e3o impede que os irm\u00e3os consumam bolos ou sorvetes, por exemplo. Dentre as receitas, bolos sem produtos de origem animal, leite de amendoim com cacau e sorvete de banana substituem os tantos produtos com aditivos que est\u00e3o nas prateleiras dos supermercados.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O resultado disso? Al\u00e9m dos benef\u00edcios para sa\u00fade, Leonardo e Eduardo gastam em m\u00e9dia R$ 60 por pessoa por semana. Esse dinheiro \u00e9 majoritariamente gasto nas visitas semanais \u00e0 horta urbana do bairro, onde compram org\u00e2nicos que v\u00eam da agricultura familiar.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Os g\u00eameos afirmam sentir a varia\u00e7\u00e3o de pre\u00e7o em alguns dos alimentos que consomem, mas conseguem contornar isso atrav\u00e9s de escolhas sazonais. \u201cComo consumimos muitas frutas, legumes e vegetais, tentamos considerar a \u00e9poca dos alimentos\u201d, relata Leonardo. \u201cTangerina e abacate, por exemplo, s\u00e3o alimentos que s\u00f3 compramos em determinadas \u00e9pocas, j\u00e1 manga e banana, a gente come o ano todo.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Por que ultraprocessados t\u00eam seus pre\u00e7os cada vez menores?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">N\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel definir uma \u00fanica causa para essas varia\u00e7\u00f5es de pre\u00e7o observadas, j\u00e1 que v\u00e1rios fatores podem ser citados como potencialmente respons\u00e1veis. A motiva\u00e7\u00e3o mais f\u00e1cil de ser identificada \u00e9 o avan\u00e7o tecnol\u00f3gico das ind\u00fastrias, que torna o processo de produ\u00e7\u00e3o de alimentos algo muito mais r\u00e1pido e barato.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Outro fator \u00e9 a pol\u00edtica agr\u00edcola brasileira, que \u00e9 organizada para a produ\u00e7\u00e3o de commodities, como soja, milho e a\u00e7\u00facar, que, por sua vez, s\u00e3o base para v\u00e1rios alimentos ultraprocessados. Logo, a ind\u00fastria de ultraprocessados se beneficia da abund\u00e2ncia de mat\u00e9ria prima de baixo custo.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Um terceiro motivo \u00e9 o incentivo governamental a esse ramo aliment\u00edcio. Isen\u00e7\u00f5es tribut\u00e1rias generosas s\u00e3o frequentes na rela\u00e7\u00e3o entre o Estado e a ind\u00fastria de ultraprocessados por todo o pa\u00eds. No in\u00edcio do m\u00eas de junho, em meio \u00e0 pandemia do novo coronav\u00edrus, a<em> Coca-Cola<\/em> e a <em>Ambev<\/em> contam com a devolu\u00e7\u00e3o de cr\u00e9ditos de Imposto sobre Produto Industrializado (IPI) dos refrigerantes produzidos na Zona Franca de Manaus. <strong>(3) <\/strong>Isso pode significar um preju\u00edzo de at\u00e9 R$500 milh\u00f5es \u00e0 Uni\u00e3o e um cont\u00ednuo preju\u00edzo incalcul\u00e1vel para a sa\u00fade do brasileiro.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u201cSe considerarmos o montante de dinheiro que est\u00e1 deixando de ser arrecadado sem a cobran\u00e7a desses impostos, isso poderia ser convertido em quest\u00f5es de promo\u00e7\u00e3o de sa\u00fade e preven\u00e7\u00e3o de doen\u00e7as, principalmente em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 pr\u00f3pria obesidade e excesso de peso que o consumo desses refrigerantes causa\u201d, afirma Emanuella Gomes Maia, uma das autoras do estudo e professora da Universidade Estadual de Santa Cruz (UESC). .<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>O Brasil no cen\u00e1rio global<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A rela\u00e7\u00e3o da ado\u00e7\u00e3o de uma dieta saud\u00e1vel com os pre\u00e7os dos alimentos \u00e9 estudada em diversos pa\u00edses. A tend\u00eancia de dietas baseadas em ultraprocessados serem mais baratas que as saud\u00e1veis \u00e9 observada em ambos: os pa\u00edses desenvolvidos e os em desenvolvimento.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Nos Estados Unidos, por exemplo, calorias advindas de gr\u00e3os, gorduras e a\u00e7\u00facares s\u00e3o mais baratas que as de frutas e vegetais. <strong>(4) <\/strong> Assim, se torna poss\u00edvel relacionar a ingest\u00e3o de alimentos de baixo valor nutricional ao baixo poder aquisitivo das fam\u00edlias.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Apesar disso, no Brasil, uma dieta saud\u00e1vel ainda \u00e9 mais barata que a baseada em ultraprocessados gra\u00e7as ao baixo custo dos variados gr\u00e3os que consumimos. \u201cHoje em dia, a gente ainda consegue ter uma alimenta\u00e7\u00e3o barata comendo bem. Por mais que eu coma frutas, hortali\u00e7as e carnes, que s\u00e3o caras, eu consumo feij\u00e3o e arroz que \u00e9 algo barato. Ent\u00e3o, no equil\u00edbrio, eu consigo manter uma alimenta\u00e7\u00e3o saud\u00e1vel que \u00e9 acess\u00edvel\u201d, explica Emanuella.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>E a sa\u00fade?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong><\/strong>O Brasil ainda segura as pontas quando o assunto \u00e9 comida saud\u00e1vel. Todavia, se as mudan\u00e7as de consumo de alimentos se mantiverem, a passagem pelo ano de 2026 abrir\u00e1 portas para maiores dificuldades na sa\u00fade do brasileiro. Isso porque uma alimenta\u00e7\u00e3o saud\u00e1vel \u00e9 fator central no combate \u00e0s doen\u00e7as cr\u00f4nicas.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A Ag\u00eancia das Na\u00e7\u00f5es Unidas para a Alimenta\u00e7\u00e3o e a Agricultura (FAO) publicou no ano passado um documento <strong>(5) <\/strong>que re\u00fane evid\u00eancias cient\u00edficas que associam o consumo de ultraprocessados com o desenvolvimento de algumas doen\u00e7as. Obesidade, problemas cardiovasculares, c\u00e2ncer, depress\u00e3o e dist\u00farbios gastrointestinais podem se desenvolver ou se intensificar a partir de uma dieta baseada em ultraprocessados.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>A resist\u00eancia da alimenta\u00e7\u00e3o saud\u00e1vel<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong><\/strong>Para se alimentar bem no Brasil, n\u00e3o basta s\u00f3 querer. A alimenta\u00e7\u00e3o saud\u00e1vel, isto \u00e9, baseada em produtos <em>in natura<\/em> ou minimamente processados deixou de ser uma quest\u00e3o de escolha com o agigantamento da ind\u00fastria aliment\u00edcia. Exigir que fam\u00edlias de baixa renda escolham comprar carnes frescas no lugar de hamb\u00fargueres congelados, quando o mesmo valor pode comprar maior quantidade dos \u00faltimos, n\u00e3o \u00e9 solu\u00e7\u00e3o para o problema.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Mais do que isso, permitir que esse cen\u00e1rio continue \u00e9 escancarar mais ainda a desigualdade social brasileira. Quanto mais cara for uma dieta saud\u00e1vel, menos presente ela se torna na vida da popula\u00e7\u00e3o de baixa renda. Essa parcela dos brasileiros, ent\u00e3o, passa a ser mais propensa a desenvolver doen\u00e7as cr\u00f4nicas e, consequentemente, se torna mais dependente de um sistema de sa\u00fade eficaz.&nbsp;Algumas solu\u00e7\u00f5es est\u00e3o sempre em pauta entre os que estudam a \u00e1rea da alimenta\u00e7\u00e3o. Uma delas \u00e9 a taxa\u00e7\u00e3o de bebidas a\u00e7ucaradas,<strong> (6) <\/strong>uma vez que a ingest\u00e3o excessiva de a\u00e7\u00facar est\u00e1 relacionada a um maior risco das doen\u00e7as citadas anteriormente.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Refrigerantes e sucos industrializados s\u00e3o parte da rotina alimentar de crian\u00e7as, adolescentes e jovens adultos e representam parte alarmante do consumo di\u00e1rio de a\u00e7\u00facar desses.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A proposta \u00e9 que os impostos sobre essas bebidas diminuam seu consumo e incentivem a ingest\u00e3o de bebidas mais saud\u00e1veis. O M\u00e9xico \u00e9 um dos pa\u00edses que teve sucesso na ado\u00e7\u00e3o da medida: depois de um ano com um imposto de 10% sobre bebidas a\u00e7ucaradas, a redu\u00e7\u00e3o de compra foi de 17% entre o ter\u00e7o mais pobre da popula\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Fora isso, o Brasil tamb\u00e9m discute mudan\u00e7as na rotulagem dos alimentos. O Instituto Brasileiro de Defesa do Consumidor (Idec), em 2016, divulgou uma pesquisa na qual 39,6% das pessoas disseram entender parcialmente ou muito pouco os r\u00f3tulos nas embalagens de comida. Desde ent\u00e3o, diferentes modelos de rotulagem s\u00e3o discutidos, com o objetivo de sinalizar de maneira mais clara o conte\u00fados e aditivos presentes nos alimentos.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Mudan\u00e7as de rotulagem e taxa\u00e7\u00e3o de produtos ultraprocessados, por exemplo, n\u00e3o s\u00e3o interesses da gigante ind\u00fastria aliment\u00edcia. Essas medidas tamb\u00e9m n\u00e3o s\u00e3o solu\u00e7\u00e3o se n\u00e3o vierem acompanhadas de mudan\u00e7as estruturais que possibilitem que a popula\u00e7\u00e3o de baixa renda tenha acesso \u00e0 comida de verdade. O incentivo \u00e0 agricultura familiar, na produ\u00e7\u00e3o e venda de produtos, \u00e9 essencial para que isso aconte\u00e7a. Estimular o consumo de alimentos produzidos localmente tamb\u00e9m facilita a diminui\u00e7\u00e3o de pre\u00e7o deles, al\u00e9m de ser uma valoriza\u00e7\u00e3o da cultura e do com\u00e9rcio local.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u00c9 essencial desmistificar a alimenta\u00e7\u00e3o como uma quest\u00e3o individual e compreender o papel do Estado nas mudan\u00e7as do acesso \u00e0 comida saud\u00e1vel. Independentemente de quais medidas forem tomadas, elas precisam ter como objetivo desacelerar o aumento do consumo de ultraprocessados. Retomar e refor\u00e7ar a import\u00e2ncia do arroz e feij\u00e3o presentes diariamente no prato brasileiro pode ser um primeiro passo importante.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>(1)<\/strong> IBGE, Ag\u00eancia de Not\u00edcias. \u201cPOF 2017-2018: alimentos frescos e prepara\u00e7\u00f5es culin\u00e1rias predominam no padr\u00e3o alimentar nacional\u201d. Dispon\u00edvel em <a href=\"https:\/\/agenciadenoticias.ibge.gov.br\/agencia-sala-de-imprensa\/2013-agencia-de-noticias\/releases\/27298-pof-2017-2018-alimentos-frescos-e-preparacoes-culinarias-predominam-no-padrao-alimentar-nacional\">https:\/\/agenciadenoticias.ibge.gov.br\/agencia-sala-de-imprensa\/2013-agencia-de-noticias\/releases\/27298-pof-2017-2018-alimentos-frescos-e-preparacoes-culinarias-predominam-no-padrao-alimentar-nacional<\/a> (Acesso em maio de 2020)<br><br><strong>(2)<\/strong>&nbsp;Maia, E., Dos Passos, C., Levy, R., Bortoletto Martins, A., Mais, L., &amp; Claro, R. (2020). What to expect from the price of healthy and unhealthy foods over time? The case from Brazil.&nbsp;<em>Public Health Nutrition,<\/em>&nbsp;<em>23<\/em>(4), 579-588. doi:10.1017\/S1368980019003586. Dispon\u00edvel em <a href=\"https:\/\/www.cambridge.org\/core\/journals\/public-health-nutrition\/article\/what-to-expect-from-the-price-of-healthy-and-unhealthy-foods-over-time-the-case-from-brazil\/98FE380C358CCD2B25E99FFC7A4A8B9F\">https:\/\/www.cambridge.org\/core\/journals\/public-health-nutrition\/article\/what-to-expect-from-the-price-of-healthy-and-unhealthy-foods-over-time-the-case-from-brazil\/98FE380C358CCD2B25E99FFC7A4A8B9F<\/a><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>(3)<\/strong> O Joio e o Trigo. \u201cEm meio \u00e0 pandemia, governo d\u00e1 cr\u00e9dito milion\u00e1rio a Coca-Cola e Ambev\u201d. Dispon\u00edvel em: <a href=\"https:\/\/outraspalavras.net\/ojoioeotrigo\/2020\/05\/em-meio-a-pandemia-governo-da-credito-milionario-a-coca-cola-e-ambev\/\">https:\/\/outraspalavras.net\/ojoioeotrigo\/2020\/05\/em-meio-a-pandemia-governo-da-credito-milionario-a-coca-cola-e-ambev\/<\/a>. (Acesso em junho de 2020)<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>(4)<\/strong> Drewnowski A. The cost of US foods as related to their nutritive value. Am J Clin Nutr. 2010;92(5):1181\u20101188. doi:10.3945\/ajcn.2010.29300. Dispon\u00edvel em: <a href=\"https:\/\/pubmed.ncbi.nlm.nih.gov\/20720258\/\">https:\/\/pubmed.ncbi.nlm.nih.gov\/20720258\/<\/a><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>(5)<\/strong> Food and Agriculture Organization of the United Nations. \u201dUltra-processed foods, diet quality, and health using the NOVA classification system\u201d. Dispon\u00edvel em: <a href=\"http:\/\/www.fao.org\/3\/ca5644en\/ca5644en.pdf\">http:\/\/www.fao.org\/3\/ca5644en\/ca5644en.pdf<\/a><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>(6)<\/strong> Alian\u00e7a pela Alimenta\u00e7\u00e3o Adequada e Saud\u00e1vel. \u201cPor que taxar as bebidas a\u00e7ucaradas?\u201d Dispon\u00edvel em: <a href=\"http:\/\/actbr.org.br\/uploads\/arquivo\/1162_FactSheet_ImpostoBebidas.pdf\">http:\/\/actbr.org.br\/uploads\/arquivo\/1162_FactSheet_ImpostoBebidas.pdf<\/a><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><em><strong>Por Gabriela Bonin<\/strong><br>gabibonin@usp.br<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"Cinco ma\u00e7\u00e3s, tr\u00eas p\u00earas, duas ameixas, um cacho de bananas, um mam\u00e3o, cinco laranjas, dois maracuj\u00e1s, quatro cachos de uva, duas caixas de \n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/babel.eca.usp.br\/?p=143\"> <\/a>","protected":false},"author":35,"featured_media":144,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[5],"tags":[],"class_list":["post-143","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-revista-babel-junho-2020"],"yoast_head":"<!-- This site is optimized with the Yoast SEO plugin v28.7 - https:\/\/yoast.com\/product\/yoast-seo-wordpress\/ -->\n<title>A elitiza\u00e7\u00e3o do acesso \u00e0 comida saud\u00e1vel no Brasil - Revista Babel<\/title>\n<meta name=\"robots\" content=\"index, follow, max-snippet:-1, max-image-preview:large, max-video-preview:-1\" \/>\n<link rel=\"canonical\" href=\"https:\/\/babel.eca.usp.br\/?p=143\" \/>\n<meta property=\"og:locale\" content=\"pt_BR\" \/>\n<meta property=\"og:type\" content=\"article\" \/>\n<meta property=\"og:title\" content=\"A elitiza\u00e7\u00e3o do acesso \u00e0 comida saud\u00e1vel no Brasil - Revista Babel\" \/>\n<meta property=\"og:description\" content=\"Cinco ma\u00e7\u00e3s, tr\u00eas p\u00earas, duas ameixas, um cacho de bananas, um mam\u00e3o, cinco laranjas, dois maracuj\u00e1s, quatro cachos de uva, duas caixas de\" \/>\n<meta property=\"og:url\" content=\"https:\/\/babel.eca.usp.br\/?p=143\" \/>\n<meta property=\"og:site_name\" content=\"Revista Babel\" \/>\n<meta property=\"article:published_time\" content=\"2020-06-21T18:06:06+00:00\" \/>\n<meta property=\"article:modified_time\" content=\"2020-09-30T13:43:06+00:00\" \/>\n<meta property=\"og:image\" content=\"https:\/\/babel.eca.usp.br\/wp-content\/uploads\/2020\/06\/Gabriela-Bonin-Marjan-Blan_Unsplash-scaled.jpg\" \/>\n\t<meta property=\"og:image:width\" content=\"2560\" \/>\n\t<meta property=\"og:image:height\" content=\"1707\" \/>\n\t<meta property=\"og:image:type\" content=\"image\/jpeg\" \/>\n<meta name=\"author\" content=\"Gabriela Bonin\" \/>\n<meta name=\"twitter:card\" content=\"summary_large_image\" \/>\n<meta name=\"twitter:label1\" content=\"Escrito por\" \/>\n\t<meta name=\"twitter:data1\" content=\"Gabriela Bonin\" \/>\n\t<meta name=\"twitter:label2\" content=\"Est. tempo de leitura\" \/>\n\t<meta name=\"twitter:data2\" content=\"15 minutos\" \/>\n<script type=\"application\/ld+json\" class=\"yoast-schema-graph\">{\"@context\":\"https:\\\/\\\/schema.org\",\"@graph\":[{\"@type\":\"Article\",\"@id\":\"https:\\\/\\\/babel.eca.usp.br\\\/?p=143#article\",\"isPartOf\":{\"@id\":\"https:\\\/\\\/babel.eca.usp.br\\\/?p=143\"},\"author\":{\"name\":\"Gabriela Bonin\",\"@id\":\"https:\\\/\\\/babel.eca.usp.br\\\/#\\\/schema\\\/person\\\/3ca6985938c7dfe7d7ebacb517d7aff8\"},\"headline\":\"A elitiza\u00e7\u00e3o do acesso \u00e0 comida saud\u00e1vel no Brasil\",\"datePublished\":\"2020-06-21T18:06:06+00:00\",\"dateModified\":\"2020-09-30T13:43:06+00:00\",\"mainEntityOfPage\":{\"@id\":\"https:\\\/\\\/babel.eca.usp.br\\\/?p=143\"},\"wordCount\":2998,\"image\":{\"@id\":\"https:\\\/\\\/babel.eca.usp.br\\\/?p=143#primaryimage\"},\"thumbnailUrl\":\"https:\\\/\\\/babel.eca.usp.br\\\/wp-content\\\/uploads\\\/2020\\\/06\\\/Gabriela-Bonin-Marjan-Blan_Unsplash-scaled.jpg\",\"articleSection\":[\"Babel 2020 - Ed. 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