{"id":2365,"date":"2026-07-27T09:52:52","date_gmt":"2026-07-27T12:52:52","guid":{"rendered":"https:\/\/babel.webhostusp.sti.usp.br\/?p=2365"},"modified":"2026-11-03T19:44:18","modified_gmt":"2026-11-03T19:44:18","slug":"afinal-sao-paulo-nao-tem-mesmo-uma-praia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/babel.eca.usp.br\/?p=2365","title":{"rendered":"Afinal, S\u00e3o Paulo n\u00e3o tem mesmo uma praia?"},"content":{"rendered":"<p><em>Entre esportes, eventos e orlas artificiais, busquei encontrar a verdadeira praia paulistana<\/em><\/p>\n<p><strong>Por<\/strong> Jo\u00e3o Chahad<\/p>\n<p><strong>Capa por\u00a0<\/strong>Lara Soares<\/p>\n<p>Uma brisa levemente \u00famida toca o meu rosto. A calmaria se instaura com o som das ondas quebrando ao fundo. A paz e a harmonia preenchem o ambiente iluminado por raios amarelados. E o ch\u00e3o granuloso morno que cobre meus p\u00e9s reabastece minhas energias drenadas pelo dia a dia. Por\u00e9m, deu a minha hora: desligo o ventilador com nebuliza\u00e7\u00e3o, apago as luzes de led laranja, desconecto a minha caixinha JBL com sons do mar e cubro a areia da quadra, que chegou aqui por um caminh\u00e3o de artigos de constru\u00e7\u00e3o na rodovia Anchieta. Coloco a cal\u00e7a jeans, camisa social, meu sapat\u00eanis de marca e abro o meu laptop. Tenho uma meeting agendada e preciso acab\u00e1-la antes que comece o rod\u00edzio do meu carro.<\/p>\n<p>Viver em S\u00e3o Paulo \u00e9 saber \u2013 mas n\u00e3o sempre viver \u2013 que tudo por aqui \u00e9 poss\u00edvel de se experienciar. Afinal, a terra das oportunidades, chamariz dos cinco cantos do pa\u00eds, construiu a sua mitologia em torno disso . Mas a tecnologia e o capital nem sempre conseguem vencer a geografia. O Planalto Paulista, apertado pelas escarpas da serra, est\u00e1 fadado \u00e0 inevit\u00e1vel dist\u00e2ncia de sua principal cidade ao litoral. E a falta de praias parece custar muito para os residentes da Terra da Garoa.<\/p>\n<p>Por isso, a Babel S\u00e3o Paulo buscou explorar as rela\u00e7\u00f5es intr\u00ednsecas entre os paulistas e as praias, e as incessantes tentativas por capturar, mesmo que minimamente, uma experi\u00eancia litor\u00e2nea idealizada.<\/p>\n<h2>E a Imigrantes segue travada<\/h2>\n<p>Era um 1\u00ba de maio, Dia do Trabalhador, que amanheceu em temperaturas amenas, em que resolvi buscar uma praia. Levantei no meu quarto em Santana, Zona Norte de S\u00e3o Paulo, e comecei a procurar alguma forma de colocar o p\u00e9 na areia. Mas, neste dia, cerca de <a href=\"https:\/\/g1.globo.com\/sp\/sao-paulo\/noticia\/2026\/04\/30\/cerca-de-18-milhoes-de-veiculos-devem-circular-pelas-rodovias-de-sp-no-feriado-de-1-de-maio-dia-do-trabalhador-diz-artesp.ghtml\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">18 milh\u00f5es de ve\u00edculos<\/a> eram previstos para descer a serra nas principais rodovias de S\u00e3o Paulo, segundo a Ag\u00eancia Reguladora de Transporte do Estado de S\u00e3o Paulo (Artesp).<\/p>\n<p>O que parece um n\u00famero assombroso para pessoas de fora do estado, se transforma em rotina para os paulistanos em qualquer feriado prolongado. Este movimento quase pendular costuma ser intensificado pela quantidade enorme de casas de veraneio alocadas no litoral paulista. De acordo com o <a href=\"https:\/\/g1.globo.com\/sp\/vale-do-paraiba-regiao\/noticia\/2023\/06\/30\/metade-das-moradias-em-ubatuba-sao-casas-de-veraneio-aponta-censo-veja-outras-cidades.ghtml\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">censo de 2022 do IBGE<\/a>, em S\u00e3o Sebasti\u00e3o, cerca de 38% dos domic\u00edlios s\u00e3o destinados para o veraneio. Em Ubatuba, no litoral norte, esse n\u00famero chega a 49%, o maior da regi\u00e3o.<\/p>\n<p>Em um \u00f4nibus que saiu do Jabaquara com destino a Santos, l\u00e1 estava minha companheira. Ela foi precavida e saiu cedo o bastante para n\u00e3o pegar a Rodovia Imigrantes lotada, algo que outros viajantes n\u00e3o tiveram a mesma sorte. Ao chegar na cidade, ela relatou situa\u00e7\u00f5es t\u00edpicas do litoral paulista: praias lotadas, confus\u00f5es, infraestrutura sobrecarregada e, para o azar, uma forte chuva ainda no come\u00e7o da tarde.<\/p>\n<p>Mesmo dependendo muito da vinda dos turistas da regi\u00e3o metropolitana de S\u00e3o Paulo, n\u00e3o s\u00e3o todas as cidades do litoral que suportam esse volume de visitantes. Nas festas de fim de ano em 2025, a Secretaria Municipal de Turismo de Ubatuba esperava a chegada de 4 milh\u00f5es de pessoas, n\u00famero este que \u00e9 43 vezes maior que a popula\u00e7\u00e3o local, cerca de 93 mil. A superpopula\u00e7\u00e3o condiciona aqueles que querem desfrutar de uma boa maresia nos principais destinos requisitados, mas n\u00e3o prov\u00e9m de benesses como helic\u00f3pteros e jatinhos. No final, nos resta enfrentar quil\u00f4metros de congestionamento, problemas de saneamento e barraquinhas superfaturadas. Ou ficar em S\u00e3o Paulo mesmo.<\/p>\n<p>N\u00e3o me parecia uma boa ideia descer a serra nesse feriado. Mesmo assim, peguei uma mochila e fui para uma praia. N\u00e3o a uma convencional, mas aquela que os paulistas est\u00e3o se acostumando a conhecer. A chamada \u201cOrla TotalPass\u201d, constru\u00edda dentro do Parque Villa Lobos, era um local promissor para a minha busca.<\/p>\n<h2>Este subt\u00edtulo \u00e9 um oferecimento de\u2026<\/h2>\n<p>Cruzei a cidade em um dia de pouco tr\u00e2nsito. Com um chinelo, uma bermuda de tactel e uma camisa clara de malha fina, esperava aproveitar um espa\u00e7o que me prometeram, uma experi\u00eancia imersiva de uma praia em S\u00e3o Paulo. Depois de alguns minutos procurando uma vaga \u2013 o parque estava cheio com os shows para o Dia do Trabalhador \u2013, parti em dire\u00e7\u00e3o \u00e0 Orla TotalPass.<\/p>\n<p>A frustra\u00e7\u00e3o foi imediata: um espa\u00e7o completamente esquisito. Ao chegar, voc\u00ea \u00e9 bombardeado pela publicidade em led do \u201cLounge Sulam\u00e9rica\u201d, do sorvete no lim\u00e3o siciliano <em>hypado<\/em> no TikTok e com tel\u00f5es com propagandas de empreendimentos imobili\u00e1rios na regi\u00e3o. O tom do local j\u00e1 me aparecia como um produto algor\u00edtmico bizarro da modernidade ou algum come\u00e7o de epis\u00f3dio de Black Mirror.<\/p>\n<p>Mais adentro, voc\u00ea repara em um \u00e1trio central com uma areia fofa at\u00e9 demais e alguns guarda-s\u00f3is, cercado por restaurantes \u201c\u00e0 beira-mar\u201d. Na areia, estavam apenas algumas crian\u00e7as se divertindo, montando castelos com as pr\u00f3prias m\u00e3os e umedecendo as suas estruturas com garrafas d\u2019\u00e1gua compradas a 8 reais no local. Elas estavam acompanhadas de pais com cal\u00e7as de sarja e sapatos de couro que, \u00e0 dist\u00e2ncia ou nos decks dos restaurantes, pouco olhavam para seus filhos.<\/p>\n<p>A m\u00fasica era tocada por um DJ que reunia alguns cl\u00e1ssicos da MPB mixados em MTG \u2013 sigla para Montagem \u2013, formato que agrega tons da m\u00fasica eletr\u00f4nica e do Funk, popular nas redes sociais ou em bares da Vila Madalena. As quadras de areia que ficavam a dist\u00e2ncia s\u00f3 poderiam ser acessadas mediante agendamento pr\u00e9vio e por, no m\u00e1ximo, 30 minutos.<\/p>\n<p>Esse ambiente me lembrou outras tentativas igualmente duvidosas de representar o litoral em S\u00e3o Paulo. Em 2024, a Sabesp lan\u00e7ou a \u201cPrainha Paulista\u201d, que tomou um espa\u00e7o pequeno e apertado nas margens do rio Pinheiros, na Zona Oeste da capital. Para os desavisados, o rio \u00e9 polu\u00eddo e impr\u00f3prio para banho, al\u00e9m de frequentemente soltar um odor lastim\u00e1vel. Nem preciso dizer que a ideia n\u00e3o foi para frente.<\/p>\n<p>Outros projetos tamb\u00e9m surgiram, mas dessa vez com um alto investimento: o Beyond the Club, em Santo Amaro, primeiro clube privado de surf do mundo, e o S\u00e3o Paulo Suf Club, no Brooklin, da marca de luxo JHSF. Voc\u00ea pode, claro, aproveitar uma boa praia fake nesses lugares, com direito a ondas artificiais e infraestrutura completa pelo custo de singelos 600 mil reais para compra do t\u00edtulo. Estes espa\u00e7os acompanham <a href=\"https:\/\/valor.globo.com\/patrocinado\/pressworks\/noticia\/2025\/12\/22\/a-nova-sao-paulo-com-praias-conheca-clubes-que-seguem-tendencia-internacional-1.ghtml\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">tend\u00eancias de grandes cidades<\/a>, como Londres e Nova-Iorque, que, nas \u201cpraias urbanas\u201d, unem a alta tecnologia a um toque de exclus\u00e3o social para criar a imers\u00e3o litor\u00e2nea desejada.<\/p>\n<p>Lugares assim marcam um renome sofrido para os paulistas: o <em>farialimer<\/em>, ou aqueles representantes do mercado financeiro e suas megalomanias, redesenham a praia como um espa\u00e7o de imers\u00e3o tosca e publicit\u00e1ria ou luxo inacess\u00edvel. E a Orla TotalPass, de certa forma, representa essa busca pouco satisfat\u00f3ria. Os seus ladrilhos em preto e branco, com ondas t\u00edmidas para evitar correla\u00e7\u00f5es imediatas com o Rio, demonstram uma vergonha sutil de uma cidade do tamanho de S\u00e3o Paulo n\u00e3o poder ter um litoral para chamar de seu.<\/p>\n<p>Por isso, a experi\u00eancia da praia na Selva de Pedra \u00e9 fragmentada, e entra em outras esferas na vida. Jamais teremos uma praia em sua totalidade, mas podemos coloc\u00e1-la em algumas abrang\u00eancias do nosso cotidiano. A partir da\u00ed, segui na minha procura.<\/p>\n<h2>Entre bolinhas e raquetes<\/h2>\n<p>A cria\u00e7\u00e3o de ambientes como a Orla TotalPass n\u00e3o seria poss\u00edvel sem a populariza\u00e7\u00e3o dos esportes \u201cde praia\u201d, aqueles praticados na areia, que ampliaram a demanda por espa\u00e7os que se assemelham ao litoral. Alguns esportes como v\u00f4lei de areia, Beach Tennis e Futev\u00f4lei encontraram uma base de praticantes t\u00e3o expressiva na cidade que se tornaram centro de pol\u00edticas p\u00fablicas municipais. No come\u00e7o do ano, quadras de areia em parques e pra\u00e7as foram inauguradas em toda capital a partir de investimentos da subprefeitura de Santana-Tucuruvi. A prefeitura tamb\u00e9m fez a inclus\u00e3o dessas estruturas em Centros Esportivos p\u00fablicos, como o da Barra Funda (ZO) e Tiquatira (ZL).<\/p>\n<p>Mesmo sem praia, os \u201cbeach sports\u201d parecem conquistar os paulistanos. Henrique Furi\u00f3, um professor de Beach Tennis, explicou como as areias se transformaram em um novo palco para a cidade. Ele diz ter descoberto o esporte em uma festa com os amigos e, logo na primeira tentativa, se interessado pela pr\u00e1tica. O professor, ent\u00e3o, uniu seu fasc\u00ednio com pela modalidade com sua gradua\u00e7\u00e3o em educa\u00e7\u00e3o f\u00edsica e decidiu se dedicar ao esporte.<\/p>\n<p>Encontrei Furi\u00f3 no Posto 011 \u2013 um nome que mistura as guaritas cariocas \u201capaulistado\u201d com nosso DDD \u2013, uma rede de praias com 17 unidades espalhadas pela capital. Em uma manh\u00e3 nublada e gelada, resolvi colocar os p\u00e9s na areia mais uma vez e entrevist\u00e1-lo durante uma aula. Entre bolinhas amareladas pulando de um lado para outro e raquetadas precisas para as alunas \u2013 uma delas, com touca, blusa de tactel e uma meia sapatilha \u2013, o professor me explicou que a principal vantagem dos esportes de areia estava na absor\u00e7\u00e3o de impacto. \u201cEnquanto as quadras tradicionais [de concreto ou madeira] provocam maior desgaste nas articula\u00e7\u00f5es, a areia \u00e9 ideal para pessoas de maior idade encontrarem um espa\u00e7o com menor risco de les\u00f5es\u201d, detalhou.<\/p>\n<p>De segunda a sexta, Furi\u00f3 sai do Ipiranga a Santana para dar aulas pela manh\u00e3. De s\u00e1bado e domingo, vai at\u00e9 a Mooca. Quando viaja para a praia, at\u00e9 busca se desligar um pouco, mas nunca parte sem sua raquete. E, mesmo com \u201cbeach\u201d no nome, Furi\u00f3 diz que prefere \u201cjogar em um ambiente mais controlado\u201d, isto \u00e9, sem vento forte, sem banhistas desgovernados e com o sol paulistano mais moderado.<\/p>\n<p>O professor ainda diz que o Beach Tennis \u00e9 um esporte taticamente mais simples, o que costuma atrair mais iniciantes. A pr\u00e1tica no t\u00eanis facilitou seu processo de aprendizagem: \u201ccom as condi\u00e7\u00f5es certas e a raquete certa, o risco de les\u00e3o \u00e9 baixo e d\u00e1 para se divertir\u201d, completou. No entanto, essas condi\u00e7\u00f5es costumam ser caras. Enquanto hoje podemos dizer que encontramos quadras de areia em \u201cqualquer esquina\u201d, o mesmo n\u00e3o podia ser dito h\u00e1 8 anos, quando o esporte come\u00e7ou a fazer sucesso.<\/p>\n<p>Somado ao valor exorbitante das raquetes, o Beach Tennis em S\u00e3o Paulo nasceu para as elites. Por\u00e9m, hoje em dia, as classes m\u00e9dias parecem estar mais engajadas. Segundo o professor, com a inclus\u00e3o desses esportes em sistemas como WellHub (antigo Gympass) e TotalPass, o perfil do praticante mudou. E os dados comprovam: entre 2018 a 2024, a WellHub contabilizou um aumento de 19.295% de check-ins em esportes de areia na plataforma. Entre 2023 e 2024, o estado de S\u00e3o Paulo registrou um aumento de 343% e alavancou o mercado fitness nacional.<\/p>\n<p>O professor v\u00ea essa ades\u00e3o com bons olhos. \u201cPara o pessoal que vive no mundo executivo, que trabalha em escrit\u00f3rio, ter um momento aqui [na quadra de areia] durante o dia \u00e9 muito bom. Te ajuda a desligar do mundo e se reconectar com um espa\u00e7o de tranquilidade\u201d, completou.<\/p>\n<h2>Na ilha das couves<\/h2>\n<p>Em seguida, parti para outro local. Em um dia igualmente frio e nebuloso, fui para o espa\u00e7o de eventos e esportes chamado \u201cPraia Paulista\u201d. O nome me interessou na hora, afinal era exatamente o que eu estava procurando. Fui me encontrar com Eliane e Elisama (Elis) Ponseu, irm\u00e3s propriet\u00e1rias do espa\u00e7o, na Zona Norte da capital. Dessa vez, preferimos uma mesa para a nossa conversa. S\u00e3o 3 quadras de areia gradeadas, com um corredor fundo com cadeiras e mesas, espa\u00e7o kids, sala de karaok\u00ea e churrasqueira.<\/p>\n<p>As irm\u00e3s aproveitaram um antigo dep\u00f3sito de bebidas e buscaram o seu diferencial. Um lugar espa\u00e7oso, mas fechado, recheado de ambientes diversos, ideal para a Terra da Garoa. Ali\u00e1s, tudo ali dentro foi planejado para os paulistanos. A areia que as impregna no cabelo pode ser tirada com um vesti\u00e1rio com secador, chapinha e produtos especiais, perfeito para uma ida antes do trabalho. Em um \u00fanico dia, o ambiente aguenta at\u00e9 5 festas simult\u00e2neas. Chuva e vento tamb\u00e9m n\u00e3o costumam ser um problema. \u201cA ideia foi essa: trazer um clima de praia para S\u00e3o Paulo\u201d afirmou Elis.<\/p>\n<p>No ambiente, o lugar assume essa inten\u00e7\u00e3o. Em uma das paredes, um letreiro em LED fica na frente de alguns ladrilhos no formato do estado de S\u00e3o Paulo, comum nas ruas da cidade \u2013 muito diferente da c\u00f3pia envergonhada de Copacabana na Orla TotalPass. Um afresco gigantesco enfeita o lugar com uma arte da Praia de Picinguaba, em Ubatuba, com vista para a Ilha das Couves. \u201cQuando est\u00e1vamos pensando em imagens para o lugar, escolhemos essa por ser um lugar reconhec\u00edvel e memor\u00e1vel\u201d, afirmaram.<\/p>\n<p>A diversidade de eventos salta aos olhos de quem n\u00e3o o frequenta constantemente. J\u00e1 houve anivers\u00e1rio \u2013 desde rec\u00e9m-nascidos a octogen\u00e1rios \u2013, celebra\u00e7\u00f5es de debutantes e at\u00e9 festas de escola de samba. \u201cNo casamento, os convidados vieram da igreja para c\u00e1, teve outra cerim\u00f4nia na areia at\u00e9\u201d, complementou Elis. Festas com tema espanhol, \u00e1rabe, africano \u2013 ao que Eliane explicou que \u201cfizeram um jogo parecido com pique-bandeira\u201d. Ch\u00e1 revela\u00e7\u00e3o, confraterniza\u00e7\u00e3o da igreja e at\u00e9 eventos corporativos de empresas da regi\u00e3o.<\/p>\n<p>O espa\u00e7o, mesmo n\u00e3o sendo convencional, parece atrair as pessoas a passarem momentos especiais por ali. \u201cEnt\u00e3o voc\u00ea saiu, voc\u00ea t\u00e1 o dia inteiro no trabalho, saiu cansado, estressado. Na hora que chegou aqui, colocou o p\u00e9 na areia, acabou: voc\u00ea j\u00e1 recuperou o dia assim. \u00c9 um neg\u00f3cio quase espiritual\u201d, completou Eliane. Resolvi testar e entrei um pouco na quadra. A areia estava bem gelada, mas puxei uma cadeira para ficar uns cinco minutos. Olhando para aquele afresco enorme, fixamente para a Ilha, um misto de calmaria e melancolia me atingiu: por mais id\u00eantico que possa parecer, no final, ainda \u00e9 s\u00f3 uma arte na parede.<\/p>\n<h2>Mem\u00f3rias e cachoeiras<\/h2>\n<p>Morar no litoral \u00e9 mais do que ter acesso f\u00e1cil a uma praia. \u00c9, tamb\u00e9m, ser atravessado por ideias e filosofias diferentes e, frequentemente, antag\u00f4nicas \u00e0s vividas na cidade grande. Querendo saber sobre essa diferen\u00e7a, encontrei Beatriz Ribeiro, que nasceu na Barra do Una, em S\u00e3o Sebasti\u00e3o, uma regi\u00e3o de encontro do Rio Una com o mar. Longe do centro, seu bairro concentra v\u00e1rios trabalhadores dom\u00e9sticos e caseiros para casas de veraneio da cidade, assim como sua m\u00e3e.<\/p>\n<p>Beatriz passou a inf\u00e2ncia e a adolesc\u00eancia inteira nesse lugar. Ela me contou hist\u00f3rias de um luau com os amigos e passeios em trilhas da regi\u00e3o. Sobre os eventos culturais cotidianos e as \u201caulas\u201d de surf com os cai\u00e7aras. Sobre a calma que tinha em estudar para o vestibular com o p\u00e9 nas areias da Praia do Una. Em 2021, conseguiu uma bolsa de estudos para estudar pedagogia e se mudou para S\u00e3o Paulo. O choque foi imediato.<\/p>\n<p>\u201cEu j\u00e1 sou uma pessoa ansiosa, e aqui eu percebo que tenho que ativar um hiperfoco em tudo\u201d, disse Beatriz, um pouco angustiada. \u201cQuando cheguei, ficava pensando: \u2018que neg\u00f3cio esse de esquerda livre? Calma gente\u201d, dessa vez, com um pouco mais de energia. \u201cQuando estou l\u00e1 [na praia], ainda posso ir na orla e ficar um pouco na natureza. Aqui, o m\u00e1ximo que a gente tem s\u00e3o os parques, mas vivo com medo de ser assaltada\u201d, e por fim, com receio. Beatriz cita a praia como rem\u00e9dio; S\u00e3o Paulo, como paciente. N\u00e3o que a cidade seja a doen\u00e7a em si, mas que dela saltem sintomas de todo lugar. \u201cInfelizmente, temos que sair do nosso lugar, porque S\u00e3o Paulo ainda \u00e9 um lugar de muitas oportunidades\u201d, completa.<\/p>\n<p>N\u00e3o nego ter sentido um pouco de inveja quando ela me relatou uma de suas mem\u00f3rias de inf\u00e2ncia. Sua m\u00e3e trabalhava em uma casa com uma mo\u00e7a, uma florista, com quem Beatriz costumava conviver. Elas frequentemente iam para uma farm\u00e1cia, compravam um saquinho de mel e iam para uma cachoeira da regi\u00e3o, contar hist\u00f3rias e pegar umas conchinhas. Paz, calma e serenidade. Que falta faz uma praia para S\u00e3o Paulo\u2026<\/p>\n<p>Existe algo nessa minha busca que j\u00e1 estava anunciado no come\u00e7o. N\u00e3o h\u00e1 dinheiro que nos traga a praia para S\u00e3o Paulo. Podemos ir para ela. Inclusive, constantemente o fazemos e congestionamos nossas praias vizinhas. Mas traz\u00ea-la, n\u00e3o. Busquemos o que nos torna verdadeiramente paulistanos: fora da praia, fora do litoral. O Planalto Paulista precisa ser menos invejoso e deixar \u00e0 Escarpa do Mar aquilo que lhe foi dado pela natureza.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"Entre esportes, eventos e orlas artificiais, busquei encontrar a verdadeira praia paulistana &#8211; Por Jo\u00e3o Chahad\n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/babel.eca.usp.br\/?p=2365\"> <\/a>","protected":false},"author":231,"featured_media":3187,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[732,282],"tags":[128,759,748,758,757,131,725],"class_list":["post-2365","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-babel-2026-ed-julho","category-posts-principais","tag-beach-tennis","tag-joao-chahad","tag-lara-soares","tag-litoral","tag-praia","tag-sao-paulo","tag-sociedade-comportamento"],"yoast_head":"<!-- This site is optimized with the Yoast SEO plugin v28.7 - https:\/\/yoast.com\/product\/yoast-seo-wordpress\/ -->\n<title>Afinal, S\u00e3o Paulo n\u00e3o tem mesmo uma praia? - Revista Babel<\/title>\n<meta name=\"description\" content=\"Entre esportes, eventos e orlas artificiais, busquei encontrar a verdadeira praia paulistana\" \/>\n<meta name=\"robots\" content=\"index, follow, max-snippet:-1, max-image-preview:large, max-video-preview:-1\" \/>\n<link rel=\"canonical\" href=\"https:\/\/babel.eca.usp.br\/?p=2365\" \/>\n<meta property=\"og:locale\" content=\"pt_BR\" \/>\n<meta property=\"og:type\" content=\"article\" \/>\n<meta property=\"og:title\" content=\"Afinal, S\u00e3o Paulo n\u00e3o tem mesmo uma praia? - Revista Babel\" \/>\n<meta property=\"og:description\" content=\"Entre esportes, eventos e orlas artificiais, busquei encontrar a verdadeira praia paulistana\" \/>\n<meta property=\"og:url\" content=\"https:\/\/babel.eca.usp.br\/?p=2365\" \/>\n<meta property=\"og:site_name\" content=\"Revista Babel\" \/>\n<meta property=\"article:published_time\" content=\"2026-07-27T12:52:52+00:00\" \/>\n<meta property=\"article:modified_time\" content=\"2026-11-03T19:44:18+00:00\" \/>\n<meta property=\"og:image\" content=\"https:\/\/babel.eca.usp.br\/wp-content\/uploads\/2026\/07\/praia-em-sp-Joao-Chahad-1309x768.png\" \/>\n\t<meta property=\"og:image:width\" content=\"1309\" \/>\n\t<meta property=\"og:image:height\" content=\"768\" \/>\n\t<meta property=\"og:image:type\" content=\"image\/png\" \/>\n<meta name=\"author\" content=\"Revista Babel\" \/>\n<meta name=\"twitter:card\" content=\"summary_large_image\" \/>\n<meta name=\"twitter:label1\" content=\"Escrito por\" \/>\n\t<meta name=\"twitter:data1\" content=\"Revista Babel\" \/>\n\t<meta name=\"twitter:label2\" content=\"Est. tempo de leitura\" \/>\n\t<meta name=\"twitter:data2\" content=\"15 minutos\" \/>\n<script type=\"application\/ld+json\" class=\"yoast-schema-graph\">{\"@context\":\"https:\\\/\\\/schema.org\",\"@graph\":[{\"@type\":\"Article\",\"@id\":\"https:\\\/\\\/babel.eca.usp.br\\\/?p=2365#article\",\"isPartOf\":{\"@id\":\"https:\\\/\\\/babel.eca.usp.br\\\/?p=2365\"},\"author\":{\"name\":\"Revista Babel\",\"@id\":\"https:\\\/\\\/babel.eca.usp.br\\\/#\\\/schema\\\/person\\\/22495aea32552e1be8f9a1e60577500a\"},\"headline\":\"Afinal, S\u00e3o Paulo n\u00e3o tem mesmo uma praia?\",\"datePublished\":\"2026-07-27T12:52:52+00:00\",\"dateModified\":\"2026-11-03T19:44:18+00:00\",\"mainEntityOfPage\":{\"@id\":\"https:\\\/\\\/babel.eca.usp.br\\\/?p=2365\"},\"wordCount\":2870,\"image\":{\"@id\":\"https:\\\/\\\/babel.eca.usp.br\\\/?p=2365#primaryimage\"},\"thumbnailUrl\":\"https:\\\/\\\/babel.eca.usp.br\\\/wp-content\\\/uploads\\\/2026\\\/07\\\/praia-em-sp-Joao-Chahad-scaled.png\",\"keywords\":[\"beach tennis\",\"Jo\u00e3o Chahad\",\"Lara Soares\",\"litoral\",\"praia\",\"s\u00e3o paulo\",\"Sociedade &amp; Comportamento\"],\"articleSection\":[\"Babel 2026 - Ed. 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