{"id":2423,"date":"2026-07-27T10:39:47","date_gmt":"2026-07-27T13:39:47","guid":{"rendered":"https:\/\/babel.webhostusp.sti.usp.br\/?p=2423"},"modified":"2026-11-03T19:54:53","modified_gmt":"2026-11-03T19:54:53","slug":"cinemas-que-a-cidade-nao-sabe-o-nome","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/babel.eca.usp.br\/?p=2423","title":{"rendered":"Cinemas que a cidade n\u00e3o sabe o nome"},"content":{"rendered":"<p><em>Tradicionais salas de rua em S\u00e3o Paulo vendem naming rights para se manterem vivas, mas enfrentam desafios na preserva\u00e7\u00e3o de sua identidade hist\u00f3rica<\/em><\/p>\n<p><strong>Por\u00a0<\/strong>Artur Abramo<\/p>\n<p><strong>Capa por\u00a0<\/strong>Pedro Malta<\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">\u201cEu vou no&#8230; no&#8230; naquele cinema l\u00e1 da Augusta!\u201d.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Originalmente, Majestic. Hoje, Espa\u00e7o Petrobr\u00e1s de Cinema. Inaugurado em 1947 em uma das mais famosas ruas de S\u00e3o Paulo, o local foi dono de mais cinco outros nomes ao longo de quase oito d\u00e9cadas. A casa surgiu como mais uma a compor uma vasta gama de cinemas de rua no per\u00edodo mais movimentado do cinema na capital paulista. No livro Sala de Cinemas em S\u00e3o Paulo, o jornalista Inim\u00e1 Sim\u00f5es revela n\u00e3o apenas esse dado, mas tamb\u00e9m porque a alcunha \u2018majestosa\u2019 do rec\u00e9m-aberto espa\u00e7o n\u00e3o era \u00e0 toa. Afinal, \u00e0 \u00e9poca, o nome impunha-se sobretudo como maneira de incorporar nele a import\u00e2ncia que as salas tinham, quase t\u00e3o relevantes \u00e0 experi\u00eancia do p\u00fablico quanto a programa\u00e7\u00e3o.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Na atualidade, isso parece fazer menos sentido. Os nomes j\u00e1 n\u00e3o servem ao mesmo prop\u00f3sito e sequer tentam, j\u00e1 que, em boa parte, cumprem outra fun\u00e7\u00e3o. Para al\u00e9m disso, o papel dos cinemas de rua no circuito de exibi\u00e7\u00e3o resguarda-se, cada vez mais, ao reduto de filmes espec\u00edficos. Apaixonado por cinema desde crian\u00e7a, o estudante de direito F\u00e9lix Guimar\u00e3es conta que, ao come\u00e7ar a explorar esse mundo com mais autonomia, seu interesse sempre esteve atrelado ao cartaz. \u201cNunca foi pela curiosidade de conhecer mais cinemas, eu s\u00f3 queria fugir do que se passava em cinemas de shopping, do que era muito convencional\u201d, explica.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">A valoriza\u00e7\u00e3o das salas passou a se traduzir mais pela exclusividade no servi\u00e7o que elas poderiam prestar ao p\u00fablico do que \u00e0 pomposidade de sua estrutura como nos anos 1950. Aos paulistanos, este privil\u00e9gio ainda \u00e9 ofertado mais do que \u00e0 maioria dos moradores de qualquer outra cidade brasileira. Ainda que n\u00e3o haja registros oficiais, reconhece-se que o munic\u00edpio sedia um dos maiores n\u00fameros de cinemas de rua em funcionamento no pa\u00eds. Entre outros indicativos, est\u00e1 a \u00faltima pesquisa do <\/span><a href=\"https:\/\/www.gov.br\/ancine\/pt-br\/oca\"><span style=\"font-weight: 400;\">Observat\u00f3rio Brasileiro do Cinema e do Audiovisual (OCA\/ANCINE)<\/span><\/a><span style=\"font-weight: 400;\">, que registrou que a capital paulista concentra uma a cada tr\u00eas salas &#8211; sem especifica\u00e7\u00e3o de modelo &#8211; de cinema no Brasil.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Apesar disso, o marco hist\u00f3rico de cerca de 160 estabelecimentos de rua ativos entre as d\u00e9cadas de 1950 e 1970 est\u00e1 longe de corresponder \u00e0 realidade atual. A quantidade de salas nesse formato diminuiu drasticamente do \u00faltimo s\u00e9culo para c\u00e1 e, desde a d\u00e9cada de 1990, o modelo sofre com a crescente transfer\u00eancia do p\u00fablico para cinemas em centros comerciais e shoppings centers. A capta\u00e7\u00e3o de recursos, por sua vez, tamb\u00e9m tornou-se um desafio defronte \u00e0 competitividade das grandes redes.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Se a luxuosidade dos espa\u00e7os n\u00e3o \u00e9 mais uma preocupa\u00e7\u00e3o central, equipamentos de imagem e som seguem sendo. E, n\u00e3o apenas isso, mas se tornaram mais caros ao mesmo tempo que a atividade passou a ser menos lucrativa. Carlos Augusto Calil, professor da Escola de Comunica\u00e7\u00f5es e Artes da Universidade de S\u00e3o Paulo (ECA-USP), cineasta e ex-secret\u00e1rio municipal de Cultura de S\u00e3o Paulo, garante que \u201co cinema de rua n\u00e3o sobrevive sem patroc\u00ednio\u201d.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">O pesquisador descr\u00ea na possibilidade de subsist\u00eancia desses locais no mercado audiovisual moderno sem apoio comercial. \u201cO cinema s\u00f3 funciona em rede, voc\u00ea s\u00f3 ganha em escala. Uma sala de cinema passando um filme, contando a bilheteria, n\u00e3o paga nem a manuten\u00e7\u00e3o do cinema. Uma andorinha s\u00f3 n\u00e3o faz ver\u00e3o.\u201d, aponta. A quest\u00e3o, para ele, n\u00e3o est\u00e1 na ideia de parceria de modo gen\u00e9rico, mas nos moldes que isso tem sido feito.<\/span><\/p>\n<h2>Nome \u00e0 venda<\/h2>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Muitos dos cinemas de S\u00e3o Paulo, hoje, n\u00e3o t\u00eam apenas parceiros comerciais, mas estampam tamb\u00e9m os patrocinadores em seu nome. Esse tipo de acordo \u00e9 chamado <\/span><i><span style=\"font-weight: 400;\">naming rights<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400;\">, conceito que, como a tradu\u00e7\u00e3o livre o faz, descreve a venda de direitos de nomea\u00e7\u00e3o de certa propriedade. H\u00e1 discuss\u00e3o historiogr\u00e1fica a respeito da origem exata da pr\u00e1tica nos Estados Unidos, mas os dois principais casos envolvem a renomea\u00e7\u00e3o de est\u00e1dios.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Em 1953, o Sportsman\u2019s Park, em St. Louis, passou a chamar-se <\/span><a href=\"https:\/\/www.forbes.com\/sites\/timnewcomb\/2020\/07\/17\/the-changing-landscape-of-stadium-naming-rights-deals\/\"><span style=\"font-weight: 400;\">Busch Stadium<\/span><\/a><span style=\"font-weight: 400;\"> ap\u00f3s a compra do St. Louis Cardinals, time de beisebol, por Gussie Busch, dono da cervejaria norte-americana Anheuser-Busch. O outro epis\u00f3dio, por sua vez, remonta ao primeiro contrato espec\u00edfico em que um acordo pela nomea\u00e7\u00e3o foi registrado de antem\u00e3o. Em 1972, os Buffalo Bills, equipe de futebol americano, venderam os direitos de seu novo est\u00e1dio para a empresa aliment\u00edcia Rich Products antes da inaugura\u00e7\u00e3o do que viria a ser o <\/span><a href=\"https:\/\/www.wkbw.com\/news\/a-look-back-at-home-turf-from-rich-stadium-to-the-ralph\"><span style=\"font-weight: 400;\">Rich Stadium<\/span><\/a><span style=\"font-weight: 400;\">.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">No Brasil, enquanto isso, o modelo chegou ao esporte somente em 2005, quando o Athletico Paranaense negociou os <\/span><i><span style=\"font-weight: 400;\">naming rights<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400;\"> da Arena da Baixada, est\u00e1dio do clube, com a Kyocera, empresa japonesa de tecnologia. Embora tenha levado mais de 30 anos para que isso acontecesse no futebol brasileiro, o setor cultural foi mais \u00e1gil para absorver a ideia. \u201cAqui no Brasil, creio que fomos pioneiros nesse quesito\u201d, afirma Adhemar Oliveira, cineclubista e diretor do Espa\u00e7o Petrobr\u00e1s de Cinema.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">O empres\u00e1rio esteve no palco do primeiro exemplo brasileiro de <\/span><i><span style=\"font-weight: 400;\">naming rights<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400;\"> depois de assumir o Gaumont Majestic em 1993, antigo Majestic, que vendera sua opera\u00e7\u00e3o para a Gaumont do Brasil, subsidi\u00e1ria da exibidora cinematogr\u00e1fica francesa, na d\u00e9cada anterior. A sala estava h\u00e1 mais de um ano sem operar e s\u00f3 foi reativada em outubro daquele ano. Parceiro do Banco Nacional desde a d\u00e9cada anterior, em fun\u00e7\u00e3o do patroc\u00ednio que recebia no Cineclube Esta\u00e7\u00e3o Botafogo, no Rio de Janeiro &#8211; tamb\u00e9m de sua administra\u00e7\u00e3o -, Adhemar costurou junto ao banco o acordo para reativar a hist\u00f3rica sala na Rua Augusta e transform\u00e1-la em Espa\u00e7o Banco Nacional de Cinema. O diretor \u00e9 categ\u00f3rico ao recordar o sucesso imediato do novo espa\u00e7o: \u201cDeu certo, pois inauguramos em 6 de outubro de 1993 e em janeiro de 1994 j\u00e1 percebia o sorriso no rosto dos patrocinadores\u201d.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">O projeto para reerguer a casa contou com uma robusta reforma que triplicou a sala \u00fanica para tr\u00eas novos espa\u00e7os. Al\u00e9m disso, foi constru\u00edda uma cafeteira, uma livraria e uma videolocadora, com projetores novos trazidos da Cinemeccanica de Mil\u00e3o. \u201cN\u00e3o tenho d\u00favida de afirmar que t\u00ednhamos montado o melhor cinema de S\u00e3o Paulo\u201d, assegura Adhemar. Ele ainda atribui o \u00eaxito do que havia constru\u00eddo \u00e0 reconfigura\u00e7\u00e3o do projeto arquitet\u00f4nico, que privilegiava o ponto de encontro e invertia a l\u00f3gica usada pelas salas da \u00e9poca, uma vez que, mesmo sem ingresso, voc\u00ea podia circular na pra\u00e7a do cinema. Sua empolga\u00e7\u00e3o com o andamento do plano era tamanha que foi parar no hospital com uma crise de p\u00e2nico. \u201cQuando ainda estava no Rio, com esse projeto de S\u00e3o Paulo encaminhado e aprovado, cheguei a ter uma antevis\u00e3o do sucesso que poderia ser e tive uma crise por euforia. Fui internado num hospital em Botafogo, descobrindo, na sequ\u00eancia, a acupuntura e a xingar quando percebia a euforia por perto\u201d, relata.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Anos antes, por\u00e9m, a organiza\u00e7\u00e3o financeira havia tentado renomear outro espa\u00e7o em S\u00e3o Paulo a partir de projeto parecido. Carlos Calil relata que Ana L\u00facia Magalh\u00e3es Pinto, filha de Jos\u00e9 Magalh\u00e3es Pinto, dono do Banco Nacional, e diretora de projetos culturais da entidade, concedeu dinheiro \u00e0 Cinemateca Brasileira &#8211; sob dire\u00e7\u00e3o de Calil \u00e0 \u00e9poca -, por meio de lei de incentivo. A verba era destinada \u00e0 abertura da Sala Cinemateca e, em contrapartida ao investimento, ela prop\u00f4s que o espa\u00e7o fosse nomeado Sala Cinemateca Nacional. A proposta foi prontamente negada. \u201cFalei pra ela: n\u00e3o posso fazer isso, vai contra os meus princ\u00edpios. Se eu fizer, a Cinemateca deixa de ser brasileira e passa a ser Cinemateca Nacional. Ela n\u00e3o gostou, mas aceitou. E foi fundamental para abrir uma sala que formou muita gente\u201d, conta o ex-diretor da institui\u00e7\u00e3o.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Apesar do ressurgimento bem-sucedido do antigo Majestic, a opera\u00e7\u00e3o sob o nome Espa\u00e7o Banco Nacional de Cinema durou pouco mais de dois anos. Em dezembro de 1995, o estabelecimento foi renomeado Espa\u00e7o Unibanco de Cinema &#8211; Augusta com a absor\u00e7\u00e3o do banco de Jos\u00e9 Magalh\u00e3es Pinto pela organiza\u00e7\u00e3o da fam\u00edlia Moreira Salles. A descri\u00e7\u00e3o da rua no nome, por sua vez, apareceu a partir de ent\u00e3o, porque a institui\u00e7\u00e3o patrocinava outras unidades na cidade. Nos anos subsequentes, a vitrine que estampava o nome do banco passou a inspirar outros neg\u00f3cios. Em 1999, funda-se a Credicard Hall, casa de shows hoje nomeada Vibra S\u00e3o Paulo, que tamb\u00e9m passou por diferentes t\u00edtulos desde sua cria\u00e7\u00e3o.<\/span><\/p>\n<figure id=\"attachment_3208\" aria-describedby=\"caption-attachment-3208\" style=\"width: 747px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-3208 size-large\" src=\"https:\/\/babel.eca.usp.br\/wp-content\/uploads\/2026\/07\/DSC_1373-1225x768.jpg\" alt=\"\" width=\"747\" height=\"468\" srcset=\"https:\/\/babel.eca.usp.br\/wp-content\/uploads\/2026\/07\/DSC_1373-1225x768.jpg 1225w, https:\/\/babel.eca.usp.br\/wp-content\/uploads\/2026\/07\/DSC_1373-300x188.jpg 300w, https:\/\/babel.eca.usp.br\/wp-content\/uploads\/2026\/07\/DSC_1373-768x481.jpg 768w, https:\/\/babel.eca.usp.br\/wp-content\/uploads\/2026\/07\/DSC_1373-1536x963.jpg 1536w, https:\/\/babel.eca.usp.br\/wp-content\/uploads\/2026\/07\/DSC_1373-2048x1284.jpg 2048w\" sizes=\"auto, (max-width: 747px) 100vw, 747px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-3208\" class=\"wp-caption-text\">Em 21 de janeiro de 2025 foi inaugurado o renomeado Espa\u00e7o Petrobr\u00e1s de Cinema com nova fachada. Imagem: Artur Abramo\/Revista Babel<\/figcaption><\/figure>\n<h2>Quem paga o qu\u00ea?<\/h2>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Todo esse processo teve S\u00e3o Paulo como ber\u00e7o para uma tend\u00eancia que se difundiria pelo pa\u00eds nos mais diversos setores do mercado. Hoje, parece natural aos paulistanos pegar o metr\u00f4 na esta\u00e7\u00e3o Paulista Pernambucanas para descer na Faria Lima Pagbank. Assistir a um jogo na Neo Qu\u00edmica Arena, se voc\u00ea for corinthiano, e acompanhar o Palmeiras jogar no mais novo Nubank Parque, ou at\u00e9 frequentar a Mercado Livre Arena Pacaembu. Alguns desses casos explicitam como, a essa altura, o modelo apropriou-se at\u00e9 mesmo de servi\u00e7os p\u00fablicos.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Carlos Calil menciona que, ao longo de seu per\u00edodo como Secret\u00e1rio Municipal de Cultura, trabalhou para impedir que isso acontecesse na esfera p\u00fablica e evitar, quando pudesse, na privada. Ele narra uma hist\u00f3ria de 2008 em que foi convidado para a inaugura\u00e7\u00e3o do Teatro Cosipa, nomeado em refer\u00eancia \u00e0 ent\u00e3o Companhia Sider\u00fargica Paulista, dona do pr\u00e9dio que abrigava o teatro. Ao chegar no evento, Calil reconheceu a import\u00e2ncia do patroc\u00ednio a diretores da institui\u00e7\u00e3o, mas ressaltou n\u00e3o ver sentido naquela nomea\u00e7\u00e3o e sugeriu associ\u00e1-la a algum representante da tradi\u00e7\u00e3o teatral nacional. Um ano mais tarde, ele recebeu uma liga\u00e7\u00e3o de um assessor que dizia: \u201cvoc\u00ea reparou que mudaram o nome?\u201d. O espa\u00e7o, ent\u00e3o, foi renomeado Teatro Cleyde Y\u00e1conis, em homenagem \u00e0 importante atriz brasileira, irm\u00e3 de Cacilda Becker.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Dez anos ap\u00f3s o fim de sua gest\u00e3o na pasta, apesar dos esfor\u00e7os, a legisla\u00e7\u00e3o foi alterada na cidade. Foi sancionada pelo prefeito Ricardo Nunes (MDB), a <\/span><span style=\"font-weight: 400;\">Lei n\u00ba 16.703\/17, que <\/span><span style=\"font-weight: 400;\">permitia a cess\u00e3o de direito \u00e0 denomina\u00e7\u00e3o de equipamentos municipais, desde que mediante compensa\u00e7\u00e3o financeira, inclusive, voltada para conserva\u00e7\u00e3o do bem. A norma <\/span><span style=\"font-weight: 400;\">sofreu a\u00e7\u00e3o direta de inconstitucionalidad<\/span><span style=\"font-weight: 400;\">e, mas voltou a ser considerada constitucional por decis\u00e3o do <\/span><a href=\"https:\/\/www.tjsp.jus.br\/Noticias\/Noticia?codigoNoticia=106124\"><span style=\"font-weight: 400;\">\u00d3rg\u00e3o Especial do Tribunal de Justi\u00e7a de S\u00e3o Paulo<\/span><\/a><span style=\"font-weight: 400;\"> em 2025.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">O pesquisador aponta que outro problema relacionado aos contratos de <\/span><i><span style=\"font-weight: 400;\">naming rights<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400;\"> na \u00e1rea cultural est\u00e1 na origem do dinheiro. Isso porque boa parte dos acordos firmados ocorrem por meio da Lei Rouanet, ou seja, a partir de incentivos fiscais. \u201cAquele dinheiro que \u2018\u00e9 p\u00fablico\u2019 \u00e9 privado, porque \u00e9 somente uma ren\u00fancia do governo, um imposto que deixou de ser recolhido\u201d, esclarece. Para Calil, o mecanismo opera como uma forma que o governo brasileiro encontra de ser substitu\u00eddo em setores nos quais sua atua\u00e7\u00e3o est\u00e1 aqu\u00e9m. Nesta l\u00f3gica, a verba p\u00fablica passa a ser guiada pelo interesse privado e impede uma regulamenta\u00e7\u00e3o mais adequada.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Na cultura, o modelo tornou-se ainda mais comum, em muitos casos, como estrat\u00e9gia final de sobreviv\u00eancia frente a dificuldades financeiras. Em entrevista \u00e0 Veja em 2024, o diretor do Cine Belas Artes, Andr\u00e9 Sturm afirmou que, sem um novo patrocinador, o espa\u00e7o precisaria fechar. A respeito dos acordos de <\/span><i><span style=\"font-weight: 400;\">naming rights<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400;\">, ele apontou: \u201cAs pessoas admiram empresas que assumem espa\u00e7os culturais ou esportivos. Na maioria dos casos, as rela\u00e7\u00f5es se tornam duradouras\u201d. O fato n\u00e3o se confirmou dessa vez e a parceria com o grupo financeiro Reag Investimentos durou menos de dois anos.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">A regi\u00e3o da cidade que agrega os bairros da Consola\u00e7\u00e3o, Bela Vista e Cerqueira C\u00e9sar abriga, al\u00e9m do Espa\u00e7o Petrobr\u00e1s de Cinema e do Cine Belas Artes, hoje sem patroc\u00ednio, v\u00e1rios dos cinemas que alteraram seu nome algumas vezes desde a virada do s\u00e9culo.<\/span><\/p>\n<figure id=\"attachment_3211\" aria-describedby=\"caption-attachment-3211\" style=\"width: 747px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-3211 size-large\" src=\"https:\/\/babel.eca.usp.br\/wp-content\/uploads\/2026\/07\/Colorful-Modern-Infographic-Timeline-Presentation-1366x768.png\" alt=\"\" width=\"747\" height=\"420\" srcset=\"https:\/\/babel.eca.usp.br\/wp-content\/uploads\/2026\/07\/Colorful-Modern-Infographic-Timeline-Presentation-1366x768.png 1366w, https:\/\/babel.eca.usp.br\/wp-content\/uploads\/2026\/07\/Colorful-Modern-Infographic-Timeline-Presentation-300x169.png 300w, https:\/\/babel.eca.usp.br\/wp-content\/uploads\/2026\/07\/Colorful-Modern-Infographic-Timeline-Presentation-768x432.png 768w, https:\/\/babel.eca.usp.br\/wp-content\/uploads\/2026\/07\/Colorful-Modern-Infographic-Timeline-Presentation-1536x864.png 1536w, https:\/\/babel.eca.usp.br\/wp-content\/uploads\/2026\/07\/Colorful-Modern-Infographic-Timeline-Presentation.png 1920w\" sizes=\"auto, (max-width: 747px) 100vw, 747px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-3211\" class=\"wp-caption-text\">Nomes de cinema de rua na regi\u00e3o da Av. Paulista. Imagem: Artur Abramo\/Revista Babel<\/figcaption><\/figure>\n<h2>Espectadores<\/h2>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">A mudan\u00e7a na identidade desses locais a partir da troca de patroc\u00ednio n\u00e3o passa ilesa pelos olhos de quem os frequenta. As trocas recorrentes geram diferentes percep\u00e7\u00f5es a respeito da preserva\u00e7\u00e3o da identidade hist\u00f3rica desses espa\u00e7os para o p\u00fablico, moradores ou trabalhadores da regi\u00e3o. C\u00edcera e Rosa trabalham na lanchonete Sabor Mate, localizada em frente ao Espa\u00e7o Petrobr\u00e1s, e comentam que \u201co pessoal continua chamando de Ita\u00fa\u201d. Leonardo, funcion\u00e1rio do boteco Charm Augusta, reitera ao dizer que ainda n\u00e3o ouviu ningu\u00e9m chamar de Petrobr\u00e1s ao pedir informa\u00e7\u00f5es sobre o local. Para Adhemar Oliveira, isso n\u00e3o \u00e9 problema: \u201c\u00c9 uma demonstra\u00e7\u00e3o de que o <\/span><i><span style=\"font-weight: 400;\">naming right<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400;\"> \u00e9 valioso e, ao mesmo tempo, tem seu limite.\u201d Ele considera normal que, ao propor um novo nome, o cliente demore a se adaptar e mantenha-se afetivamente conectado ao t\u00edtulo anterior. Por isso, entende que \u00e9 preciso fazer campanhas para \u201creeducar o frequentador \u00e0 nova nomenclatura, at\u00e9 incluindo promo\u00e7\u00f5es para isso\u201d.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Ana, professora, frequenta cinemas de rua a sua vida toda e garante que as trocas de nome ou identidade visual n\u00e3o impactam sua experi\u00eancia, mas confessa chamar o Espa\u00e7o Petrobr\u00e1s de Cine Augusta. Assim como ela, George, que trabalha em um shopping pela regi\u00e3o, diz n\u00e3o conseguir se referir aos locais pelo nome das empresas. \u201cA publicidade vai pegando esses espa\u00e7os hist\u00f3ricos e eles v\u00e3o perdendo sua identidade\u201d, opina. Tiago, por seu lado, diz lhe agradar a recente renomea\u00e7\u00e3o do cinema na Augusta por \u201csaber que \u00e9 uma empresa p\u00fablica\u201d, mas Carlos Calil questiona a ideia. \u201cO problema \u00e9 duplo, porque \u00e9 uma empresa do governo que est\u00e1 usando incentivo fiscal para fazer <\/span><i><span style=\"font-weight: 400;\">naming rights<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400;\">. N\u00e3o h\u00e1 justificativa nenhuma.\u201d, evidencia.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Para al\u00e9m da rela\u00e7\u00e3o pessoal com o espa\u00e7o, h\u00e1 quest\u00f5es de ordem pr\u00e1tica. Beatriz Maria cita que sua principal dificuldade se dava ao pesquisar a programa\u00e7\u00e3o na internet, j\u00e1 que estava acostumada a buscar por Espa\u00e7o Ita\u00fa ou Unibanco, mas n\u00e3o encontrava mais resultados atualizados. F\u00e9lix Guimar\u00e3es, por sua vez, relata um choque geracional: \u201cAcontece de eu falar para minha m\u00e3e que eu fui no Cine Marquise e ela n\u00e3o entender. Ent\u00e3o, eu descrevo a localiza\u00e7\u00e3o e ela fala: \u2018Ah, \u00e9 o cinema n\u00e3o sei o qu\u00ea\u2019&#8221;.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Al\u00e9m de toda identifica\u00e7\u00e3o pelo nome, as salas ainda s\u00e3o a \u00faltima salvaguarda ao v\u00ednculo de pertencimento estabelecido entre espectador e cinema de rua. Como diretor do Espa\u00e7o Petrobr\u00e1s, Adhemar Oliveira revela que o p\u00fablico tem apego por coisas espec\u00edficas como a foto de Oscarito e Grande Otelo no sagu\u00e3o do local, al\u00e9m do grande banco de madeira. Esse \u00faltimo item, inclusive, foi motivo de \u201camea\u00e7a\u201d ao empres\u00e1rio que ouviu a seguinte frase: \u201cN\u00e3o ouse mexer no banco, pois foi ali que conheci o meu marido\u201d. E \u00e9 justamente por isso que ele entende que, embora considere necess\u00e1rias as transforma\u00e7\u00f5es, elas devem acontecer com delicadeza, \u201co cinema lida com a vida das pessoas e seus amores.\u201d<\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"Tradicionais salas de rua em S\u00e3o Paulo vendem naming rights para se manterem vivas, mas enfrentam desafios na preserva\u00e7\u00e3o de sua identidade hist\u00f3rica &#8211; Por Artur Abramo\n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/babel.eca.usp.br\/?p=2423\"> <\/a>","protected":false},"author":231,"featured_media":3207,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[732,283],"tags":[798,806,800,195,805,294,799,809,767,808,807,131],"class_list":["post-2423","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-babel-2026-ed-julho","category-subcapa","tag-artur-abramo","tag-belas-artes","tag-cinemas-de-rua","tag-cultura","tag-espaco-petrobras","tag-historia","tag-naming-rights","tag-patrocinio","tag-pedro-malta","tag-preservacao","tag-rua-augusta","tag-sao-paulo"],"yoast_head":"<!-- This site is optimized with the Yoast SEO plugin v28.7 - https:\/\/yoast.com\/product\/yoast-seo-wordpress\/ -->\n<title>Cinemas que a cidade n\u00e3o sabe o nome - Revista Babel<\/title>\n<meta name=\"description\" content=\"Tradicionais salas de rua em S\u00e3o Paulo vendem naming rights para se manterem vivas, mas enfrentam desafios na preserva\u00e7\u00e3o de sua identidade hist\u00f3rica - Por Artur Abramo\" \/>\n<meta name=\"robots\" content=\"index, follow, max-snippet:-1, max-image-preview:large, max-video-preview:-1\" \/>\n<link rel=\"canonical\" href=\"https:\/\/babel.eca.usp.br\/?p=2423\" \/>\n<meta property=\"og:locale\" content=\"pt_BR\" \/>\n<meta property=\"og:type\" content=\"article\" \/>\n<meta property=\"og:title\" content=\"Cinemas que a cidade n\u00e3o sabe o nome - Revista Babel\" \/>\n<meta property=\"og:description\" content=\"Tradicionais salas de rua em S\u00e3o Paulo vendem naming rights para se manterem vivas, mas enfrentam desafios na preserva\u00e7\u00e3o de sua identidade hist\u00f3rica - Por Artur Abramo\" \/>\n<meta property=\"og:url\" content=\"https:\/\/babel.eca.usp.br\/?p=2423\" \/>\n<meta property=\"og:site_name\" content=\"Revista Babel\" \/>\n<meta property=\"article:published_time\" content=\"2026-07-27T13:39:47+00:00\" \/>\n<meta property=\"article:modified_time\" content=\"2026-11-03T19:54:53+00:00\" \/>\n<meta property=\"og:image\" content=\"https:\/\/babel.eca.usp.br\/wp-content\/uploads\/2026\/07\/Artur-Abramo_Capa.jpg\" \/>\n\t<meta property=\"og:image:width\" content=\"750\" \/>\n\t<meta property=\"og:image:height\" content=\"440\" \/>\n\t<meta property=\"og:image:type\" content=\"image\/jpeg\" \/>\n<meta name=\"author\" content=\"Revista Babel\" \/>\n<meta name=\"twitter:card\" content=\"summary_large_image\" \/>\n<meta name=\"twitter:label1\" content=\"Escrito por\" \/>\n\t<meta name=\"twitter:data1\" content=\"Revista Babel\" \/>\n\t<meta name=\"twitter:label2\" content=\"Est. tempo de leitura\" \/>\n\t<meta name=\"twitter:data2\" content=\"15 minutos\" \/>\n<script type=\"application\/ld+json\" class=\"yoast-schema-graph\">{\"@context\":\"https:\\\/\\\/schema.org\",\"@graph\":[{\"@type\":\"Article\",\"@id\":\"https:\\\/\\\/babel.eca.usp.br\\\/?p=2423#article\",\"isPartOf\":{\"@id\":\"https:\\\/\\\/babel.eca.usp.br\\\/?p=2423\"},\"author\":{\"name\":\"Revista Babel\",\"@id\":\"https:\\\/\\\/babel.eca.usp.br\\\/#\\\/schema\\\/person\\\/22495aea32552e1be8f9a1e60577500a\"},\"headline\":\"Cinemas que a cidade n\u00e3o sabe o nome\",\"datePublished\":\"2026-07-27T13:39:47+00:00\",\"dateModified\":\"2026-11-03T19:54:53+00:00\",\"mainEntityOfPage\":{\"@id\":\"https:\\\/\\\/babel.eca.usp.br\\\/?p=2423\"},\"wordCount\":2699,\"image\":{\"@id\":\"https:\\\/\\\/babel.eca.usp.br\\\/?p=2423#primaryimage\"},\"thumbnailUrl\":\"https:\\\/\\\/babel.eca.usp.br\\\/wp-content\\\/uploads\\\/2026\\\/07\\\/Artur-Abramo_Capa.jpg\",\"keywords\":[\"Artur Abramo\",\"belas artes\",\"cinemas de rua\",\"cultura\",\"espa\u00e7o petrobr\u00e1s\",\"hist\u00f3ria\",\"naming rights\",\"patroc\u00ednio\",\"Pedro Malta\",\"preserva\u00e7\u00e3o\",\"rua augusta\",\"s\u00e3o paulo\"],\"articleSection\":[\"Babel 2026 - Ed. 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