{"id":249,"date":"2020-12-21T20:49:46","date_gmt":"2020-12-21T23:49:46","guid":{"rendered":"http:\/\/www.usp.br\/cje\/babel\/?p=249"},"modified":"2020-12-21T20:49:50","modified_gmt":"2020-12-21T23:49:50","slug":"brasil-o-pais-que-mais-matou-gravidas-em-meio-a-pandemia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/babel.eca.usp.br\/?p=249","title":{"rendered":"Brasil, o pa\u00eds que mais matou gr\u00e1vidas em meio \u00e0 pandemia"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A manh\u00e3 daquela sexta-feira, 17 de julho de 2020, nasceu impregnada de esperan\u00e7a para a vendedora de cosm\u00e9ticos Helena Fran\u00e7a: durante a madrugada anterior, sua filha Ana Paula Fran\u00e7a, de 37 anos, finalmente tinha sido internada para tratar uma suspeita de Covid-19, no Hospital Manoel Novaes, em Itabuna (BA), a 400 km de Salvador. Gr\u00e1vida de 36 semanas, a esteticista havia passado a semana procurando atendimento em v\u00e1rias unidades de sa\u00fade do munic\u00edpio, no sul do estado, com queixas de v\u00f4mitos e falta de ar.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u201cFalavam para ela voltar para casa e tomar dipirona\u201d, relembra Helena. Naquele s\u00e1bado, no entanto, a equipe de sa\u00fade do hospital decidiu transferir Ana Paula para uma UTI, no munic\u00edpio de Feira de Santana. \u00c0 \u00e9poca, foi informado que 60% do pulm\u00e3o da gr\u00e1vida j\u00e1 estava comprometido \u2013 um teste r\u00e1pido, que apresenta maior imprecis\u00e3o nos resultados em compara\u00e7\u00e3o aos convencionais de laborat\u00f3rio, contudo, deu negativo para o novo coronav\u00edrus. No trajeto, dentro da ambul\u00e2ncia, o tempo de espera pela intuba\u00e7\u00e3o se esgotou: \u00e0 altura do Hospital de Gandu, cerca de 220 km distante do destino, ela faleceu.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Para a fam\u00edlia, a equipe m\u00e9dica alegou ter tentado fazer o parto de Arthur no hospital, mas o beb\u00ea j\u00e1 n\u00e3o tinha batimentos card\u00edacos. O resultado positivo para a doen\u00e7a veio ap\u00f3s a morte da mulher, via RT-PCR. \u201cFoi um peda\u00e7o de mim que eu perdi, juntamente com o meu neto que j\u00e1 estava para nascer\u201d, lamenta a m\u00e3e da gestante. \u00c0quela altura, ela n\u00e3o sabia que sua filha se juntava \u00e0s 184 mulheres gr\u00e1vidas ou nos 42 dias ap\u00f3s o parto que j\u00e1 tinham sido v\u00edtimas da doen\u00e7a no pa\u00eds \u2013 n\u00famero que, \u00e0 \u00e9poca, representava 77% das mortes maternas registradas mundo afora.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A morte de Ana Paula somava-se \u00e0 de Rafaela da Silva de Jesus, de 28 anos, gr\u00e1vida falecida em 1\u00ba de abril em Itapetinga (BA) numa Unidade de Pronto Atendimento (UPA) enquanto aguardava ambul\u00e2ncia para ser transferida para uma UTI em Campina Grande (PB); \u00e0 de Aline Cristina de Oliveira, gestante de 35 anos que morreu ap\u00f3s passar por um parto de emerg\u00eancia na cidade do Rio de Janeiro, em 11 de maio; \u00e0 de Patydan Cardoso, de 34 anos, que perdeu o beb\u00ea ap\u00f3s um parto induzido por conta da Covid-19 e n\u00e3o resistiu \u00e0s sequelas da doen\u00e7a, partindo no dia 23 de junho, em Rio Branco (AC); e \u00e0s de outras centenas de mulheres gr\u00e1vidas e pu\u00e9rperas que j\u00e1 beiram as trezentas no Brasil, segundo dados preliminares liberados \u00e0 <strong>Babel<\/strong> por Carla Betina Andreucci Polido, uma das pesquisadoras respons\u00e1veis pela compila\u00e7\u00e3o desse n\u00famero no pa\u00eds.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">M\u00e9dica obstetra e investigadora da mortalidade materna h\u00e1 anos, quando os primeiros casos do novo coronav\u00edrus foram notificados no Brasil, ela j\u00e1 temia que esse \u00edndice se agravaria em territ\u00f3rio nacional. A professora do curso de Medicina da UFSCar tinha acompanhado de perto o crescimento dos \u00f3bitos entre gr\u00e1vidas e pu\u00e9rperas em fun\u00e7\u00e3o da epidemia de influenza H1N1, em 2009, respons\u00e1vel por 57 mortes maternas no pa\u00eds. Mas esse n\u00e3o era o \u00fanico motivo que justificava sua preocupa\u00e7\u00e3o. \u201cPor causa das condi\u00e7\u00f5es da sa\u00fade p\u00fablica brasileira, particularmente da assist\u00eancia \u00e0 sa\u00fade da gestante, imaginamos que a chegada da pandemia causaria um estrago enorme\u201d, relembra ela, que tamb\u00e9m \u00e9 p\u00f3s-doutora em epidemiologia.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Por ano, o Brasil registra cerca de 60 mortes de mulheres gr\u00e1vidas ou pu\u00e9rperas a cada 100 mil nascimentos de beb\u00eas vivos, uma taxa considerada alta. A t\u00edtulo de compara\u00e7\u00e3o, Portugal e Argentina t\u00eam 8 e 39 mortes por 100 mil, respectivamente. O \u00edndice brasileiro est\u00e1 bem acima da meta firmada com a Organiza\u00e7\u00e3o das Na\u00e7\u00f5es Unidas (ONU), que \u00e9 de 30 \u00f3bitos para cada 100 mil at\u00e9 2030, conforme os Objetivos do Desenvolvimento Sustent\u00e1vel.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-image\"><figure class=\"aligncenter\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/lh3.googleusercontent.com\/pZKJCJJsp64flYRbB7ZYw6G7WIhogEpxdpaa3c_7rsJxuFT5UD6PXCq0oHwcO2xlj7W-eF4XWYHwWQ_trFIeb0IlArHv61hh9mvlYwLPiGGIuppKudZz3wWyPLheZeIcmb8oUOL3\" alt=\"\"\/><figcaption>Imagem: Getty Images<\/figcaption><\/figure><\/div>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Temendo que o Minist\u00e9rio da Sa\u00fade n\u00e3o organizasse esses dados em tempo h\u00e1bil \u2013 o \u00faltimo levantamento nacional sobre os \u00f3bitos maternos remete ao ano de 2018 \u2013, a m\u00e9dica e um time multidisciplinar formado por enfermeiras, obstetras e uma psic\u00f3loga, espalhadas por diferentes regi\u00f5es do Brasil, decidiram se aliar \u00e0 imprensa. Ligadas a universidades e institui\u00e7\u00f5es p\u00fablicas como Fiocruz, USP, Unicamp e Unesp, as especialistas criaram alertas no Google para receber todas as mat\u00e9rias publicadas sobre gestantes v\u00edtimas da Covid-19 no pa\u00eds, revirando portais de not\u00edcias de A \u00e0 Z. Pouco tempo depois, quando as mortes pela doen\u00e7a passaram a ser registradas pelo governo na plataforma Sivep-Gripe (Sistema de Informa\u00e7\u00e3o da Vigil\u00e2ncia Epidemiol\u00f3gica da Gripe) \u2013 onde s\u00e3o registradas todas as interna\u00e7\u00f5es por S\u00edndrome Respirat\u00f3ria Aguda Grave (SRAG), ou seja, os pacientes mais graves \u2013 elas come\u00e7aram a cruzar os n\u00fameros, compilando os que fossem referentes \u00e0s mulheres gr\u00e1vidas e pu\u00e9rperas. At\u00e9 outubro deste ano, j\u00e1 tinham publicado ao menos 7 estudos com os resultados.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Em um deles, veiculado em julho pela revista m\u00e9dica International Journal of Gynecology and Obstetrics, que analisa 124 \u00f3bitos, o grupo revelou que 22,6% das gestantes que morreram no Brasil n\u00e3o tiveram acesso a um leito de UTI e 36% n\u00e3o chegaram a ser intubadas. Entre as hip\u00f3teses que ajudam a explicar esse quadro, as especialistas citam a m\u00e1 qualidade do pr\u00e9-natal no pa\u00eds, recursos insuficientes para o manejo de situa\u00e7\u00f5es de emerg\u00eancia e dificuldades no acesso aos servi\u00e7os de sa\u00fade durante a pandemia.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">N\u00e3o \u00e0 toa, poucos dias ap\u00f3s a publica\u00e7\u00e3o do documento, o Minist\u00e9rio da Sa\u00fade informou que as mulheres gr\u00e1vidas seriam submetidas a protocolos espec\u00edficos de atendimento, incluindo uma testagem em massa no final da gesta\u00e7\u00e3o. O an\u00fancio \u2013 considerado tardio por Carla \u2013, no entanto, n\u00e3o foi acompanhado por uma pol\u00edtica institucional que promovesse essas medidas em larga escala. Esfor\u00e7os individuais \u2013 geralmente das equipes de hospitais ligados \u00e0s faculdades de medicina \u2013, contudo, t\u00eam sido vinculados a bons resultados.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u201cS\u00f3 que isso n\u00e3o est\u00e1 chegando para a maioria das nossas gestantes\u201d, alerta a obstetra. \u201cDesenvolver um protocolo, mas n\u00e3o distribuir recursos para que ele seja implantado ou fazer esfor\u00e7os para que realmente haja uma ades\u00e3o por parte dos gestores, faz parecer que o governo s\u00f3 cumpriu o check-list de desenhar um protocolo\u201d.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u00c0 \u00e9poca, pelo n\u00famero de mortes maternas, o Brasil j\u00e1 se apresentava como o pa\u00eds mais perigoso para gestantes em meio \u00e0 pandemia, seguido por M\u00e9xico e Estados Unidos. \u201cExiste alguma diferen\u00e7a biol\u00f3gica entre as mulheres brasileiras, mexicanas e norte-americanas comparadas ao resto do mundo?\u201d, indaga Carla, de forma ret\u00f3rica. De imediato, responde: \u201cN\u00e3o. O que temos s\u00e3o falhas de diagn\u00f3stico e nos recursos terap\u00eauticos que est\u00e3o sendo oferecidos \u00e0s gr\u00e1vidas nesses pa\u00edses\u201d.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u201cPela l\u00f3gica, se um idoso diab\u00e9tico e uma gr\u00e1vida pegam Covid-19, ela ter\u00e1 mais chances de sobreviver, porque, apesar de ter maior sensibilidade para infec\u00e7\u00f5es, seu potencial para responder a doen\u00e7a \u00e9 maior do que o do idoso\u201d, explica ela. \u201cS\u00f3 que isso n\u00e3o est\u00e1 acontecendo: nossos idosos est\u00e3o morrendo, mas nossas gr\u00e1vidas tamb\u00e9m. \u00c9 a\u00ed que a gente v\u00ea o n\u00edvel de qualidade de assist\u00eancia que o pa\u00eds est\u00e1 prestando para esse p\u00fablico\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>A transfer\u00eancia<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Tr\u00eas dias antes da morte de Ana Paula, numa quinta-feira, 16 de julho, uma de suas quatro irm\u00e3s ficou t\u00e3o inquieta com o estado de sa\u00fade da gestante que mal conseguiu fechar os olhos \u00e0 noite. Atualmente desempregada, Naiara tinha ido passar uns dias com a m\u00e3e, que mora no t\u00e9rreo da casa onde viviam Paula junto ao marido e duas filhas pequenas \u2013 Ana Beatriz, de 12 anos; e Ana Let\u00edcia, de 9. \u00c0 \u00e9poca, a fam\u00edlia vivia um luto recente: em mar\u00e7o, tinham perdido Luiz, esposo de Helena e \u201cvov\u00f4 da fam\u00edlia\u201d, falecido aos 75 anos em decorr\u00eancia de um infarto. Do quarto de Ana Paula, onde subiu para checar a situa\u00e7\u00e3o da irm\u00e3, Naiara notou que os dedos das m\u00e3os e dos p\u00e9s da gr\u00e1vida estavam roxos. Sozinha, porque h\u00e1 pouco se separara do marido ap\u00f3s problemas conjugais, a mulher foi encontrada com a respira\u00e7\u00e3o curta e veloz. \u201cN\u00e3o d\u00e1 pra ficar assim, precisa ir no m\u00e9dico de novo\u201d, exclamou Naiara. \u00c0 irm\u00e3, de olhos entreabertos, Paula s\u00f3 conseguiu balbuciar: \u201cN\u00e3o, j\u00e1 estou deitada\u201d.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Na \u00faltima semana, a gestante tinha passado por quatro hospitais da rede p\u00fablica de Itabuna: Hospital Calixto Midlej Filho, Hospital Manoel Novaes, Maternidade Ester Gomes, Santa Casa da Miseric\u00f3rdia de Itabuna e UPA &#8211; Monte Cristo. \u201cNingu\u00e9m percebeu que ela j\u00e1 estava com Covid-19\u201d, reclama Helena. Os sintomas despontaram na esteticista por volta do dia 7 de julho, dois dias ap\u00f3s ter ido com uma amiga a Ilh\u00e9us (BA) para fazer um ensaio fotogr\u00e1fico de gr\u00e1vida. \u201cEla come\u00e7ou a tossir, sentir dores na garganta e vomitar v\u00e1rias vezes ao dia\u201d, lembra Helena.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Por conta do per\u00edodo de incuba\u00e7\u00e3o do novo coronav\u00edrus, estimado em cinco dias, a fam\u00edlia acredita que a contamina\u00e7\u00e3o n\u00e3o teve rela\u00e7\u00e3o direta com a ida \u00e0 praia. Micropigmentadora, Paula tamb\u00e9m j\u00e1 tinha retomado as atividades em sua cl\u00ednica, onde fazia design de sobrancelha. \u201cEla usava m\u00e1scara, passava \u00e1lcool em gel em todos os objetos e pedia para que as clientes gripadas n\u00e3o viessem\u201d, conta Naiara, que ajudava na limpeza do local, inaugurado pela irm\u00e3 em 2018. Passados quatro meses desde o falecimento da gestante, eles ainda t\u00eam d\u00favidas sobre quem trouxe a doen\u00e7a para dentro de casa, j\u00e1 que Helena e o ex-marido de Paula, Jos\u00e9 Fabiano, tamb\u00e9m apresentaram sintomas da Covid-19 no mesmo per\u00edodo, como tosse e febre.&nbsp;&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/lh6.googleusercontent.com\/zyB_Hyf3sNSr1XT7IeutSEGdXzXPriJXMuAqrI-IjLTvq0oHia-NS0kxAMBzgowhoxOmbV13mGoEteDCFECs75LapK2xeu4ypVNqLpGh4vIDJQhYQbJq6q3Lg1VqAswJgxXqXcqv\" alt=\"\"\/><figcaption>Foto: Arquivo pessoal<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Na madrugada do dia 17, de volta ao Hospital Manoel Novaes, a gestante tinha dificuldades at\u00e9 para beber \u00e1gua. Trajando m\u00e1scara de prote\u00e7\u00e3o e uma touca descart\u00e1vel nos cabelos, no leito improvisado onde Ana Paula foi internada, Naiara acompanhou de perto a evolu\u00e7\u00e3o do quadro da irm\u00e3 \u2013 que n\u00e3o tinha nenhuma comorbidade. Assustada com o som que o monitor de sinais vitais emitia quando Paula se levantava, decidiu improvisar um \u201cbanheiro\u201d pr\u00f3ximo \u00e0 cama, usando uma bacia para auxili\u00e1-la em suas necessidades. Com a voz entrecortada, como acontece a quem coloca em palavras algum acontecimento que deixou marcas, ela lembra: \u201cSe ela levantasse, a oxigena\u00e7\u00e3o descia para 54, 50 [abaixo do normal]. E eu ia s\u00f3 orando \u2018meu Deus, meu Deus\u2019 a noite toda\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">N\u00e3o foi pouco o al\u00edvio que a irm\u00e3 experimentou quando, no final do dia, uma enfermeira comunicou que Paula seria transferida para uma UTI, em Feira de Santana, onde ela seria entubada. \u201cDe madrugada, disseram que tinham conseguido uma UTI a\u00e9rea para fazer o transporte dela\u201d, lembra Naiara. Na manh\u00e3 seguinte, por\u00e9m, as expectativas foram frustradas: uma ambul\u00e2ncia avan\u00e7ada, mas terrestre, aguardava no local. \u201cDisseram que a oxigena\u00e7\u00e3o dela estava normal, que n\u00e3o precisava ir de avi\u00e3o, mas que um m\u00e9dico acompanharia o trajeto\u201d. Apreensiva, Naiara trocou um olhar demorado com a irm\u00e3, que j\u00e1 esperava sentada em uma cadeira de rodas. \u201cEu estou indo pra l\u00e1, minha irm\u00e3, vai com Deus\u201d, prometeu, com a voz embargada. A gestante n\u00e3o conseguiu dizer nada.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>\u2018Faltou cuidado para que ela continuasse vivendo&#8217;<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A not\u00edcia do falecimento de Ana Paula correu r\u00e1pido por Itabuna. Menos de uma hora depois da trag\u00e9dia, Lila Barreto, amiga da esteticista, recebeu algumas liga\u00e7\u00f5es de colegas do munic\u00edpio, onde viveu at\u00e9 2006, quando mudou-se com o marido para Vit\u00f3ria da Conquista (BA). \u201cFoi inacredit\u00e1vel, a gente ficou achando que poderia ter sido outra pessoa\u201d, lembra. O fato tamb\u00e9m pegou de surpresa Helo\u00edsa Fran\u00e7a, irm\u00e3 da gestante. Moradora do Esp\u00edrito Santo (ES) h\u00e1 cerca de 10 anos, ela acreditava que, em breve, Paula se recuperaria. \u201cFoi um choque, at\u00e9 porque a gente tinha perdido nosso pai em maio. Foi um luto atr\u00e1s do outro\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Ao ouvir uma de suas netas dizendo que a gestante \u201cn\u00e3o estava bem\u201d, Helena soube de imediato que a filha tinha morrido. Quis sair correndo para ver se a encontrava no hospital. Quando a neta explicou que Ana Paula e o beb\u00ea Arthur tinham falecido no trajeto para Feira de Santana, \u00e0 altura do Hospital de Gandu, a mulher de 64 anos desabou. \u201cMeu mundo caiu, fiquei sem ch\u00e3o\u201d, se recorda. Para ela, o destino da filha podia ter sido outro: \u201cfoi neglig\u00eancia m\u00e9dica, faltou cuidado para que ela continuasse vivendo\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A alega\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m ecoa em uma cena testemunhada por Naiara e Andrea Fran\u00e7a, outra irm\u00e3 de Ana Paula, que acompanharam de perto a entrada da gestante na ambul\u00e2ncia. &#8220;Colocaram m\u00e1scara e a enfermeira perguntou para o profissional que ia na ambul\u00e2ncia: &#8216;Como \u00e9 que est\u00e1 o oxig\u00eanio? Est\u00e1 tudo bem?&#8217; e ele respondeu: &#8216;Rapaz, eu acho que d\u00e1&#8217;. Ela questionou: &#8216;Voc\u00ea acha que d\u00e1 ou d\u00e1, porque se n\u00e3o tiver certeza a gente para aqui agora&#8217;. Ele balan\u00e7ou simplesmente o cilindro. Por que o oxig\u00eanio que dava para chegar em Feira de Santana, ela n\u00e3o conseguiu chegar em Gandu?&#8221;, questionou \u00e0 \u00e9poca Andrea, em entrevista \u00e0 TV Santa Cruz.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Casado por cerca de vinte anos com Ana Paula, o representante de vendas Jos\u00e9 Fabiano, que tentou com familiares acompanhar de carro o trajeto feito pela ambul\u00e2ncia, disse que seus parentes j\u00e1 recorreram ao <strong>Minist\u00e9rio P\u00fablico da Bahia<\/strong> para tentar esclarecer as d\u00favidas sobre o caso, mas que ainda n\u00e3o obtiveram respostas.&nbsp;&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u00c0 <strong>Babel<\/strong>, a Santa Casa da Miseric\u00f3rdia de Itabuna, respons\u00e1vel pelo Hospital Manoel Novaes, informou que, como o hospital n\u00e3o foi habilitado para oferecer servi\u00e7os para gr\u00e1vidas com Covid-19, acolheu a paciente em um \u201cleito de estabiliza\u00e7\u00e3o destinado para isolamento pedi\u00e1trico\u201d e \u201csolicitou vaga em unidade COVID que aceitasse gestantes, atrav\u00e9s da Central Estadual de Regula\u00e7\u00e3o\u201d. A institui\u00e7\u00e3o afirmou ainda que demandou uma UTI a\u00e9rea para a transfer\u00eancia de Ana Paula, mas que, no que diz respeito ao transporte, quem toma a decis\u00e3o final \u00e9 \u201co m\u00e9dico regulador do Estado da Bahia\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Como as ambul\u00e2ncias s\u00e3o enviadas pela Central Estadual de Sa\u00fade, permanecem sob a responsabilidade do Governo do Estado da Bahia, e n\u00e3o do Hospital Manoel Novaes, acrescentou em nota a Santa Casa. \u201cElas chegam prontas para fazer o transporte, ent\u00e3o n\u00e3o \u00e9 de nossa compet\u00eancia checar equipamentos, mas sabemos que a paciente saiu da unidade em uso de O2 [oxig\u00eanio]\u201d.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O \u00f3rg\u00e3o enfatizou que o local n\u00e3o foi preparado para receber gestantes com a doen\u00e7a mas que, devido \u00e0 pandemia, \u201ctem atendido essas pacientes da melhor forma poss\u00edvel\u201d.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">No in\u00edcio de 2019, no entanto, a pedido da Prefeitura de Itabuna, o Hospital Manoel Novaes desligou uma s\u00e9rie de m\u00e9dicos obstetras de seu corpo de funcion\u00e1rios. Quem fez a den\u00fancia foi o Conselho Regional de Medicina do Estado da Bahia (Cremeb), em carta-comunicado publicada em mar\u00e7o de 2020. \u201cA popula\u00e7\u00e3o da regi\u00e3o Sul do estado da Bahia corre o risco iminente de n\u00e3o ter atendimento \u00e0s gestantes em trabalho de parto e aos rec\u00e9m-nascidos de alto risco\u201d, come\u00e7a o documento. Descrita pelo \u00f3rg\u00e3o como \u201caparentemente unilateral\u201d por parte da prefeitura, a leva de demiss\u00f5es ocorreu ap\u00f3s o an\u00fancio oficial de que atendimentos a partos de risco passariam a acontecer tamb\u00e9m na Maternidade Ester Gomes, localizada a 4 km do local, de forma a dividir a demanda entre as duas redes. De acordo com o Cremeb, no entanto, a maternidade \u201ctem falhado em cumprir seu contrato\u201d, o que vem sobrecarregando a equipe remanescente do Manoel Novaes e, al\u00e9m de superlota\u00e7\u00e3o, j\u00e1 levou a \u201cdiversas situa\u00e7\u00f5es de constrangimento e desrespeito\u201d com pacientes no espa\u00e7o.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-image\"><figure class=\"aligncenter is-resized\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/lh4.googleusercontent.com\/G-bmTWtsI7hnC_Jx2qlZgIZCwJRkQwSyLdxLqWjyoNrXzAxZKC-pbIyZ21B9DTgZRVdW77UsKmflpAnQAb9FYOJJ0VCcLDkpT3gDi5LrVUXMZy0rtrRC_GxBWVt0oAWNie-x1a5T\" alt=\"\" width=\"668\" height=\"463\"\/><figcaption>Trecho de comunicado-carta emitido pelo Cremeb em mar\u00e7o de 2020\/Fonte: Site Cremeb<\/figcaption><\/figure><\/div>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Quando Naiara perguntou ao hospital se Ana Paula podia passar por uma ces\u00e1rea antes de ser transferida para a UTI, recebeu a resposta de que \u201cn\u00e3o havia leito\u201d dispon\u00edvel para o procedimento. \u00c0 <strong>Babel<\/strong>, a Santa Casa afirmou que o parto n\u00e3o foi antecipado porque \u201ca paciente n\u00e3o tinha queixas obst\u00e9tricas e n\u00e3o estava em trabalho de parto\u201d. Segundo a irm\u00e3, no entanto, a esteticista reclamava de dores no \u201cp\u00e9 da barriga\u201d desde a madrugada anterior.\u00a0\u00a0<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">M\u00e3e de duas meninas, ela gestava seu primeiro filho homem. A expectativa da fam\u00edlia, majoritariamente formada por mulheres, era alta. A mais velha de suas filhas j\u00e1 treinava para ajudar a dar banho no irm\u00e3o. \u00c0s vezes, encostava a cabe\u00e7a rente \u00e0 barriga dela para conversar com o beb\u00ea. Com a ajuda dos parentes, a gr\u00e1vida tinha preparado tudo para a chegada de Arthur: quarto, enxoval, dinheiro para a ces\u00e1rea. \u201cFaltava s\u00f3 passar as roupinhas\u201d, diz Helena, com a voz baixa. \u201cMas eu dizia para ela: n\u00e3o se preocupe, filha, que eu mesma vou passar quando voc\u00ea voltar do hospital\u201d.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Uma quest\u00e3o estrutural<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Promessa do Minist\u00e9rio da Sa\u00fade, a testagem em massa das gestantes n\u00e3o alcan\u00e7ou Ana Paula. \u201cObrigatoriamente, qualquer sintoma de Covid-19 em uma mulher gr\u00e1vida j\u00e1 deveria indicar a realiza\u00e7\u00e3o do RT-PCR\u201d, enfatiza Carla. Para a m\u00e9dica obstetra, o governo falhou ao n\u00e3o investir em um rastreamento mais efetivo da doen\u00e7a nessa popula\u00e7\u00e3o. Mesmo em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s pacientes diagnosticadas, n\u00e3o foram poucos os casos em que algumas equipes n\u00e3o sabiam o que fazer ou para onde encaminhar o resultado dos exames. A pesquisadora d\u00e1 nome ao problema \u2013 ou \u201cfalha estrutural\u201d, em suas palavras: desarticula\u00e7\u00e3o nacional da rede de sa\u00fade.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u201cMuitas vezes, um paciente que j\u00e1 \u00e9 acompanhado por uma quest\u00e3o cr\u00f4nica acaba sendo internado por alguma complica\u00e7\u00e3o, e o hospital que faz a interna\u00e7\u00e3o simplesmente n\u00e3o tem acesso ao prontu\u00e1rio dele, assim como a unidade que vai receb\u00ea-lo depois n\u00e3o sabe o que aconteceu no hospital\u201d, argumenta. \u201cExiste uma lacuna enorme entre os diferentes n\u00edveis de aten\u00e7\u00e3o \u00e0 sa\u00fade em todos os munic\u00edpios do pa\u00eds\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Em meio \u00e0 pandemia, a pesquisadora da UFSCar acredita que um di\u00e1logo eficaz entre as ginecologistas obstetras de Unidades B\u00e1sicas de Sa\u00fade (UBS) e as equipes multidisciplinares das Unidades de Sa\u00fade da Fam\u00edlia (USF) \u2013 que est\u00e3o \u00e0 frente das visitas domiciliares de popula\u00e7\u00f5es mais vulner\u00e1veis \u2013 poderia ser uma estrat\u00e9gia no combate \u00e0 doen\u00e7a entre as gestantes. Isso porque as primeiras teriam como auxiliar essas \u00faltimas na tomada de a\u00e7\u00f5es espec\u00edficas para esse cen\u00e1rio \u2013 conhecido como matriciamento, esse modo de trabalho multiprofissional permite diversificar as propostas de interven\u00e7\u00e3o de sa\u00fade, num trabalho de constru\u00e7\u00e3o compartilhada. Um dos estudos realizados pelo grupo do qual a m\u00e9dica faz parte, inclusive, mostrou que morar em um munic\u00edpio com estrat\u00e9gia de sa\u00fade da fam\u00edlia foi um fator protetor para a manuten\u00e7\u00e3o da gesta\u00e7\u00e3o durante a pandemia.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A visita domiciliar tamb\u00e9m pode evitar o deslocamento das mulheres gr\u00e1vidas \u00e0s unidades de sa\u00fade, onde o risco de cont\u00e1gio pelo novo coronav\u00edrus \u00e9 maior, e auxiliar no acompanhamento do pr\u00e9-natal \u2013 for\u00e7adamente interrompido por muitas gr\u00e1vidas durante a pandemia \u2013, essencial para garantir a sa\u00fade da m\u00e3e e do beb\u00ea durante a gravidez. \u201cFaltaram iniciativas que ajudassem as gestantes do sistema de sa\u00fade p\u00fablico a continuarem fazendo o pr\u00e9-natal\u201d, analisa Carla.<\/p>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-image\"><figure class=\"aligncenter\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/lh3.googleusercontent.com\/rjzUnr6LTp5XyQeszMKNQaNm_4qnDvAdaWPoTdXvjADp_z_st2IZvcKdzs8g4x0n71xH1DMdAXP8xqziqswk_nc9siUu6HVbqp3bpZJPmzdZkzyoYzXuIN7SatBrEjuD3m128c5g\" alt=\"\"\/><figcaption>Imagem: Getty Images<\/figcaption><\/figure><\/div>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">As buscas do grupo de profissionais que est\u00e3o mapeando a mortalidade materna por Covid-19 no Brasil tamb\u00e9m revelaram que muitas das v\u00edtimas moravam a mais de 100 km do hospital de notifica\u00e7\u00e3o do \u00f3bito, ressaltando que a necessidade de viagem para uma unidade com UTI se apresentou como um fator de risco para as mulheres que n\u00e3o moravam no centro das cidades \u2013 onde a presen\u00e7a de unidades de sa\u00fade mais bem equipadas \u00e9 maior. Para Carla, os dados revelam outro problema nacional: a centraliza\u00e7\u00e3o das redes hospitalares avan\u00e7adas.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A desigualdade no acesso a esses servi\u00e7os tamb\u00e9m teve reflexo na cor dos \u00f3bitos: mulheres gr\u00e1vidas pretas tiveram quase o dobro de chances de morrer pela doen\u00e7a do que as gr\u00e1vidas brancas (17% contra 8,9%, em 69 casos pesquisados). Os n\u00fameros s\u00e3o refor\u00e7ados pelo panorama geral da mortalidade materna no pa\u00eds: segundo o \u00faltimo levantamento do Minist\u00e9rio da Sa\u00fade, mulheres pretas e pardas respondem por 65% dessas mortes. Em comum, os dois resultados revelam n\u00e3o s\u00f3 as falhas de acesso do sistema de sa\u00fade, mas o racismo estrutural e os problemas socioecon\u00f4micos que historicamente afetam esse grupo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u201cO que est\u00e1 acontecendo com as gr\u00e1vidas e pu\u00e9rperas \u00e9 um exemplo do que est\u00e1 acontecendo com todas as popula\u00e7\u00f5es vulner\u00e1veis do pa\u00eds\u201d, analisa a obstetra.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Luta e luto<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">De volta \u00e0 madrugada do dia 17 de julho, Helena embarga a voz ao lembrar das \u00faltimas palavras que trocou com a filha. Prestes a entrar no carro para acompanh\u00e1-la at\u00e9 o hospital, ouviu de Ana Paula um pedido: \u201cMainha, a senhora fica: cuide das meninas, minhas j\u00f3ias preciosas\u201d. Quatro meses ap\u00f3s o ocorrido, ela, com a ajuda das filhas, decidiu que vai tentar pedir a guarda compartilhada com o pai das netas. Teme que as crian\u00e7as percam o legado deixado pela esteticista, lembrada pelos mais pr\u00f3ximos e at\u00e9 pelos que pouco a conheciam como leal \u00e0 fam\u00edlia, empreendedora e abnegada. T\u00e3o desprendida de si era ela que Helo\u00edsa acredita que, se a irm\u00e3 tivesse buscado atendimento m\u00e9dico nos primeiros dias em que apareceram os sintomas, talvez seu desfecho tivesse sido outro. \u201cMas, mesmo quando ela procurou, n\u00e3o foi bem atendida\u201d, se entristece.&nbsp;&nbsp;&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Onze meses mais velha que Ana Paula, Helo\u00edsa viu a irm\u00e3 pela \u00faltima vez em 2016. A esteticista tinha ido para S\u00e3o Mateus (ES) a trabalho. \u201cEla falou \u2018olha, arranja algumas clientes pra mim que eu vou a\u00ed\u2019\u201d, lembra ela, \u00e0 \u00e9poca consultora de produtos de beleza no munic\u00edpio, onde cursava administra\u00e7\u00e3o. Chamadas de \u201cg\u00eameas\u201d quando mais novas, as irm\u00e3s costumavam trocar ideias sobre seus empreendimentos por liga\u00e7\u00e3o. \u201cEla come\u00e7ou a atender clientes em casa, abriu a cl\u00ednica em 2018. Seu sonho era que a marca \u2018Paula Fran\u00e7a\u2019 fosse conhecida\u201d, conta.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Na adolesc\u00eancia, impulsionadas pelo desejo de ajudar os pais e ter algum dinheiro pr\u00f3prio, a dupla vendia bombons em Itabuna. Em janeiro deste ano, a gestante sugeriu \u00e0 Helo\u00edsa que voltasse a morar na cidade onde cresceram, de onde ela tinha se mudado em 13 de mar\u00e7o de 2010. \u201cDisse que a nossa vida \u00e9 passageira, que corremos atr\u00e1s de trabalho e dinheiro, mas que a gente devia se preocupar com o mais importante\u201d. Impossibilitada por conta dos estudos e do emprego do marido, n\u00e3o conseguiu retornar. Ap\u00f3s um longo suspiro, faz mem\u00f3ria da conversa: \u201cIsso me marcou muito, mas a gente n\u00e3o tem que ficar se martirizando pelo que j\u00e1 passou\u201d. Hoje, mora mais pr\u00f3xima \u00e0 fam\u00edlia, em An\u00e1polis, no interior de Goi\u00e1s.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/lh6.googleusercontent.com\/FeK-Vuymw-IgQHYZGabFvISl2vHIg0cOi09goLA6f-sgyf-dBp-xPh1Qu6US6FGPNqeX6s6c1MEh5K-VyFpmXGiKlMgxzys_3na0hJ_kx8sNF8-YueonGgCie8rnEQBa7-OVAtSF\" alt=\"\"\/><figcaption>Da esquerda para a direita: Eldrian (esposo de Helo\u00edsa), Helo\u00edsa, Andr\u00e9a, Naiara, Carlos Alessandro (irm\u00e3o), M\u00e1rcia Val\u00e9ria, Ana Paula. Foto: Arquivo pessoal<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">No rosto, Helena, Naiara e Helo\u00edsa carregam a marca do trabalho de Ana Paula. N\u00e3o s\u00e3o poucas as vezes em que, andando na rua, escutam o elogio sa\u00eddo da boca de desconhecidos: \u2018que lindo design de sobrancelha!\u2019. Para Lila, amiga cabeleireira da esteticista, ela parecia ter nascido com o dom para a micropigmenta\u00e7\u00e3o. \u201cFez alguns cursos, mas era autodidata: assistia um v\u00eddeo e j\u00e1 come\u00e7ava a fazer muito bem as coisas\u201d.\u00a0<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Quarta filha de Helena, Paula come\u00e7ou a andar aos oito meses de idade, como se j\u00e1 tivesse um. Crist\u00e3, ela tamb\u00e9m se destacou por sua atua\u00e7\u00e3o no minist\u00e9rio de dan\u00e7a da igreja evang\u00e9lica que frequentou por v\u00e1rios anos. \u201cEra muito intensa em tudo que se propunha a fazer, uma das pessoas mais dedicadas\u201d, lembra o ap\u00f3stolo Irlan, que, junto \u00e0 esposa pastora, realizou o culto f\u00fanebre da gestante. Mas a alegria da m\u00e3e tinha nome e sobrenome: Ana Let\u00edcia e Ana Beatriz. Se referia \u00e0s filhas como sua vida \u201cfora do peito\u201d. Gostava de organizar festas de anivers\u00e1rio caseiras para as meninas, fazer penteados em seus cachos negros, acompanhar seus estudos. Quando olha para fotos das tr\u00eas, Naiara n\u00e3o disfar\u00e7a as l\u00e1grimas, aud\u00edveis mesmo \u00e0 dist\u00e2ncia, por telefone: \u201cTratava as filhas como bonecas, princesas\u201d.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Nos meses que antecederam sua partida, no entanto, a mulher de pele parda que chamava aten\u00e7\u00e3o pelo sorriso largo e a sobrancelha delineada parecia j\u00e1 n\u00e3o ser a mesma. \u201cQuando chegava em casa do trabalho, se jogava no sof\u00e1 e ficava l\u00e1 por horas. Eu dizia \u2018oh minha filha, pelo amor de Deus, est\u00e1 precisando de alguma coisa?\u201d, relembra Helena. O cansa\u00e7o ia al\u00e9m da barriga que crescia: somado ao luto vivido em rela\u00e7\u00e3o ao pai, a quem carinhosamente chamava de \u201cmeu velhinho\u201d, Ana Paula estava preocupada com o futuro dos filhos.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">H\u00e1 pouco, uma s\u00e9rie de decep\u00e7\u00f5es com o marido tinham levado ao afastamento dos dois. \u00c0 m\u00e3e, questionava: \u201cComo vou criar tr\u00eas filhos sozinha?\u201d. Helena tentava restaurar a esperan\u00e7a da filha: \u201cEu vou ficar com o Arthur enquanto voc\u00ea trabalha, quem sabe Deus envia um homem que vai fazer a diferen\u00e7a na sua vida\u201d. Perdeu o \u00e2nimo para acompanhar o pr\u00e9-natal, questionava se conseguiria sobreviver ao parto. \u201cDizia: tenho mesmo que fazer o acompanhamento?\u201d.&nbsp;&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Religiosa, Helena acredita que a morte de Ana Paula aconteceu com a permiss\u00e3o de Deus. Que a filha foi poupada de maiores sofrimentos. \u00c9 o que tamb\u00e9m d\u00e1 for\u00e7as \u00e0 Naiara e \u00e0 Helo\u00edsa, para quem a gestante \u201cj\u00e1 est\u00e1 na gl\u00f3ria\u201d. Mas, por vezes, a sensa\u00e7\u00e3o de impot\u00eancia diante dos acontecimentos ainda perturba o cora\u00e7\u00e3o da m\u00e3e. \u201c\u00c9 uma coisa que n\u00e3o volta mais, creio que foi neglig\u00eancia dos m\u00e9dicos, s\u00f3 que, ao mesmo tempo, n\u00e3o sei se ela ia aguentar\u201d. Seis vezes m\u00e3e, a vi\u00fava respira fundo e diz, confiante: \u201cDeus sabe de todas as coisas, sabe o que faz\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-right wp-block-paragraph\">*Ilustra\u00e7\u00e3o: Nat\u00e1lie Majolo <\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-right wp-block-paragraph\"><em><strong>Por Camila Mazzotto<\/strong> \/ camila.mazzotto@usp.br<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"A manh\u00e3 daquela sexta-feira, 17 de julho de 2020, nasceu impregnada de esperan\u00e7a para a vendedora de cosm\u00e9ticos Helena Fran\u00e7a: durante a madrugada \n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/babel.eca.usp.br\/?p=249\"> <\/a>","protected":false},"author":53,"featured_media":250,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[6],"tags":[],"class_list":["post-249","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-revista-babel-dezembro-2020"],"yoast_head":"<!-- This site is optimized with the Yoast SEO plugin v28.7 - https:\/\/yoast.com\/product\/yoast-seo-wordpress\/ -->\n<title>Brasil, o pa\u00eds que mais matou gr\u00e1vidas em meio \u00e0 pandemia - Revista Babel<\/title>\n<meta name=\"robots\" content=\"index, follow, max-snippet:-1, max-image-preview:large, max-video-preview:-1\" \/>\n<link rel=\"canonical\" href=\"https:\/\/babel.eca.usp.br\/?p=249\" \/>\n<meta property=\"og:locale\" content=\"pt_BR\" \/>\n<meta property=\"og:type\" content=\"article\" \/>\n<meta property=\"og:title\" content=\"Brasil, o pa\u00eds que mais matou gr\u00e1vidas em meio \u00e0 pandemia - Revista Babel\" \/>\n<meta property=\"og:description\" content=\"A manh\u00e3 daquela sexta-feira, 17 de julho de 2020, nasceu impregnada de esperan\u00e7a para a vendedora de cosm\u00e9ticos Helena Fran\u00e7a: durante a madrugada\" \/>\n<meta property=\"og:url\" content=\"https:\/\/babel.eca.usp.br\/?p=249\" \/>\n<meta property=\"og:site_name\" content=\"Revista Babel\" \/>\n<meta property=\"article:published_time\" content=\"2020-12-21T23:49:46+00:00\" \/>\n<meta property=\"article:modified_time\" content=\"2020-12-21T23:49:50+00:00\" \/>\n<meta property=\"og:image\" content=\"https:\/\/babel.eca.usp.br\/wp-content\/uploads\/2020\/12\/IMG-20201129-WA0009.jpg\" \/>\n\t<meta property=\"og:image:width\" content=\"1600\" \/>\n\t<meta property=\"og:image:height\" content=\"890\" \/>\n\t<meta property=\"og:image:type\" content=\"image\/jpeg\" \/>\n<meta name=\"author\" content=\"Camila Mazzotto de Carvalho\" \/>\n<meta name=\"twitter:card\" content=\"summary_large_image\" \/>\n<meta name=\"twitter:label1\" content=\"Escrito por\" \/>\n\t<meta name=\"twitter:data1\" content=\"Camila Mazzotto de Carvalho\" \/>\n\t<meta name=\"twitter:label2\" content=\"Est. tempo de leitura\" \/>\n\t<meta name=\"twitter:data2\" content=\"23 minutos\" \/>\n<script type=\"application\/ld+json\" class=\"yoast-schema-graph\">{\"@context\":\"https:\\\/\\\/schema.org\",\"@graph\":[{\"@type\":\"Article\",\"@id\":\"https:\\\/\\\/babel.eca.usp.br\\\/?p=249#article\",\"isPartOf\":{\"@id\":\"https:\\\/\\\/babel.eca.usp.br\\\/?p=249\"},\"author\":{\"name\":\"Camila Mazzotto de Carvalho\",\"@id\":\"https:\\\/\\\/babel.eca.usp.br\\\/#\\\/schema\\\/person\\\/138ff7f5517440738981a8082aae78d1\"},\"headline\":\"Brasil, o pa\u00eds que mais matou gr\u00e1vidas em meio \u00e0 pandemia\",\"datePublished\":\"2020-12-21T23:49:46+00:00\",\"dateModified\":\"2020-12-21T23:49:50+00:00\",\"mainEntityOfPage\":{\"@id\":\"https:\\\/\\\/babel.eca.usp.br\\\/?p=249\"},\"wordCount\":4570,\"image\":{\"@id\":\"https:\\\/\\\/babel.eca.usp.br\\\/?p=249#primaryimage\"},\"thumbnailUrl\":\"https:\\\/\\\/babel.eca.usp.br\\\/wp-content\\\/uploads\\\/2020\\\/12\\\/IMG-20201129-WA0009.jpg\",\"articleSection\":[\"Babel 2020 - Ed. 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