{"id":93,"date":"2020-06-21T14:27:13","date_gmt":"2020-06-21T17:27:13","guid":{"rendered":"http:\/\/paineira.usp.br\/cje\/babel\/?p=93"},"modified":"2020-10-09T17:41:47","modified_gmt":"2020-10-09T20:41:47","slug":"gtp-70-anos-de-teatro-na-poli","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/babel.eca.usp.br\/?p=93","title":{"rendered":"GTP: 70 anos de teatro na Poli"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"has-medium-font-size wp-block-paragraph\"><em>Fundado na Escola Polit\u00e9cnica da USP, o GTP \u00e9 o grupo de teatro universit\u00e1rio mais antigo do Brasil em atividade<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Coelho Neto, um mineiro vindo de Campinas&nbsp;<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">At\u00e9 meados dos anos 1940, as universidades brasileiras costumavam ser lugares essencialmente t\u00e9cnicos. Seus ambientes ofereciam pouco mais do que a gradua\u00e7\u00e3o: atl\u00e9ticas esportivas, clubes art\u00edsticos, empresas j\u00fanior, tudo isso veio depois, at\u00e9 muito depois. A \u00fanica entidade estudantil da Escola Polit\u00e9cnica da USP at\u00e9 ent\u00e3o era o Gr\u00eamio Polit\u00e9cnico.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Em 1945, o mundo viu a Segunda Guerra Mundial chegar ao fim, e o Brasil viu Get\u00falio Vargas renunciar \u00e0 presid\u00eancia temendo um golpe militar. Enquanto isso, na USP, foi criada uma editoria de Arte para o jornal <em>O Polit\u00e9cnico<\/em>, que fora fundado apenas no ano anterior. O pensamento tecnicista come\u00e7ava a se desmanchar; o modelo de universidades norte-americanas, no qual as atividades extracurriculares e a vida social ganhavam tanta import\u00e2ncia quanto o aprendizado em salas de aula, era disseminado nas universidades brasileiras.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A editoria de Arte alavancou um programa de r\u00e1dio feito pelos alunos. Chamava-se \u201cPoli-Variedades\u201d e era apresentado em r\u00e1dios locais, estreando ainda em 1945. Foi nesse ambiente que um ingressante de 18 anos de idade, chamado Jo\u00e3o Ernesto Coelho Neto, cursou seu primeiro ano de Engenharia Civil na Poli. Poucos anos depois, Coelho Neto mudaria a rela\u00e7\u00e3o da Poli com a arte para sempre.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Talvez o jovem mineiro, nascido em 1926 em Monte Alegre, mas criado em Campinas (SP), n\u00e3o fizesse ideia do que estaria por vir. Ele era o mais velho de tr\u00eas irm\u00e3os e havia passado a inf\u00e2ncia numa fazenda de caf\u00e9, comprada por seu av\u00f4 quando ele tinha tr\u00eas anos. Era uma fazenda tradicional, onde se matavam porcos e galinhas para comer. Sua m\u00e3e, que sempre passava Leite de Rosas, costumava fazer arroz, feij\u00e3o, couve, batata frita e bife.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Na \u00e9poca, Campinas era considerada a \u201cprincesinha\u201d do Oeste Paulista, devido ao seu r\u00e1pido crescimento econ\u00f4mico. No entanto, a principal engrenagem que movia esse crescimento falhou naquele mesmo ano de 1929. O caf\u00e9, produto principal de importa\u00e7\u00e3o n\u00e3o s\u00f3 da cidade como do estado \u2014 e n\u00e3o s\u00f3 do estado como do pa\u00eds \u2014 correspondia na \u00e9poca a maior parte das exporta\u00e7\u00f5es brasileiras, sendo os Estados Unidos disparado seu principal comprador. Com a Grande Depress\u00e3o, \u00e9 f\u00e1cil entender o impacto negativo sofrido pela economia cafeeira \u2013 que levou, nos anos que se seguiram, \u00e0 cria\u00e7\u00e3o do Conselho Nacional do Caf\u00e9 e \u00e0s famosas pol\u00edticas de estoque e de destrui\u00e7\u00e3o dos excedentes.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Ent\u00e3o seu pai, o Jo\u00e3o Ernesto Coelho J\u00fanior, resolveu aproveitar o diploma adquirido na Universidade do Brasil e abriu uma farm\u00e1cia. Como farmac\u00eautico, acabou exercendo um papel semelhante ao de um m\u00e9dico na comunidade, e come\u00e7ou a se destacar socialmente. Resolvia conflitos entre os moradores, a grande maioria italianos e analfabetos, tirava d\u00favidas sobre assuntos gerais e era o \u00fanico da regi\u00e3o a possuir um r\u00e1dio.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O pequeno Coelho Neto j\u00e1 se destacava pela intelig\u00eancia. Em certa ocasi\u00e3o, C\u00e2ndido Fontoura, criador do Biot\u00f4nico Fontoura, presenteou um de seus irm\u00e3os com uma bola de futebol, e o Coelho Neto, com uma caneta.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">No fim da d\u00e9cada de 1930, devido a um bonde que ligava as partes rural e urbana da cidade, ele e seus irm\u00e3os puderam estudar no Liceu Salesiano Nossa Senhora Auxiliadora, no centro de Campinas. Eles colocavam sapato, tomavam o bonde e iam para a escola, na qual se cantava o hino nacional e se apoiava Benito Mussolini e Get\u00falio Vargas. Os tr\u00eas irm\u00e3os eram chamados, respectivamente, de Coelh\u00e3o, Coelho e Coelhinho.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Um dia, C\u00e2ndido Fontoura perguntou ao seu pai: \u201cO que voc\u00ea gostaria?\u201d. Ele respondeu que gostaria de educar melhor os filhos e, em 1940, a fam\u00edlia j\u00e1 se mudava para a cidade de S\u00e3o Paulo e Coelho J\u00fanior ganhava um cargo no Instituto de Medicamentos Fontoura e Serpa.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Cinco anos depois, Jo\u00e3o Ernesto era aprovado na Escola Polit\u00e9cnica.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Durante seus anos na institui\u00e7\u00e3o, ele n\u00e3o foi um dos alunos mais exemplares. Enquanto seu nome surgia entre os alunos de recupera\u00e7\u00e3o em C\u00e1lculo Integral e Diferencial, ele percebia, pouco a pouco, que sua verdadeira paix\u00e3o era o teatro. Coelho Neto chegou a participar do Teatro Brasileiro de Com\u00e9dia (TBC), mas sem muito sucesso. Sua chance n\u00e3o havia sido dada pelo destino. N\u00e3o, essa chance s\u00f3 viria em 1950, e surgiria das suas pr\u00f3prias m\u00e3os.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-large\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"1024\" height=\"727\" src=\"http:\/\/paineira.usp.br\/cje\/babel\/wp-content\/uploads\/2020\/06\/Bruno-Menezes-Caio-Mattos-e-Pedro-Vittorio-2-1024x727.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-95\" srcset=\"https:\/\/babel.eca.usp.br\/wp-content\/uploads\/2020\/06\/Bruno-Menezes-Caio-Mattos-e-Pedro-Vittorio-2-1024x727.jpg 1024w, https:\/\/babel.eca.usp.br\/wp-content\/uploads\/2020\/06\/Bruno-Menezes-Caio-Mattos-e-Pedro-Vittorio-2-300x213.jpg 300w, https:\/\/babel.eca.usp.br\/wp-content\/uploads\/2020\/06\/Bruno-Menezes-Caio-Mattos-e-Pedro-Vittorio-2-768x545.jpg 768w, https:\/\/babel.eca.usp.br\/wp-content\/uploads\/2020\/06\/Bruno-Menezes-Caio-Mattos-e-Pedro-Vittorio-2-1536x1091.jpg 1536w, https:\/\/babel.eca.usp.br\/wp-content\/uploads\/2020\/06\/Bruno-Menezes-Caio-Mattos-e-Pedro-Vittorio-2.jpg 1600w\" sizes=\"auto, (max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" \/><figcaption>Edif\u00edcio Paula Souza, onde funcionava a Escola Polit\u00e9cnica, em meados dos anos 1940.<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Teatro pela Cadop\u00f4<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Era um ano intenso.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Em julho de 1950, a Sele\u00e7\u00e3o Brasileira havia perdido a primeira Copa do Mundo sediada no pa\u00eds, em pleno Maracan\u00e3, na frente de 200 mil pessoas. Assis Chateaubriand se preparava para estrear a TV Tupi; Get\u00falio Vargas se preparava para as elei\u00e7\u00f5es de outubro, que o elegeriam com 49% dos votos.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Coelho Neto j\u00e1 estava formado. Havia voltado recentemente do Canad\u00e1, onde fez um curso de Marketing. Seu nome aparecia diversas vezes no jornal, numa propaganda de que promovia terrenos a 45 mil cruzeiros em S\u00e3o Paulo. Era descrito como \u201cEngenheiro\u201d. Trabalhava em um escrit\u00f3rio, mas sua inquietude intelectual e art\u00edstica estava a pleno vapor.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Certa vez, foi chamado por um amigo para ver o Congresso Brasileiro de Escritores. Coelho Neto come\u00e7ou a palpitar com frequ\u00eancia sobre o que um dos membros da mesa estava falando, at\u00e9 que o membro perguntou se ele queria falar no lugar dele. Ele aceitou, e acabou dirigindo o debate.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Enquanto isso, o Gr\u00eamio Polit\u00e9cnico alimentava a ideia j\u00e1 antiga, mas bastante s\u00f3lida, de construir a Casa do Polit\u00e9cnico (Cadop\u00f4). A Cadop\u00f4 abrigaria polit\u00e9cnicos a baixo custo, possuindo a vantagem de ser pr\u00f3xima \u00e0 Poli, que ent\u00e3o ficava pr\u00f3xima a onde hoje est\u00e1 a esta\u00e7\u00e3o Tiradentes do Metr\u00f4, no centro de S\u00e3o Paulo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A entidade articulava com \u00f3rg\u00e3os governamentais, professores polit\u00e9cnicos, empresas de engenharia e cidad\u00e3os paulistanos o projeto, buscando viabiliz\u00e1-lo. Em 16 de maio de 1950, uma resolu\u00e7\u00e3o formulada em congrega\u00e7\u00e3o e dirigida ao presidente do Gr\u00eamio, Jorge Prado Leite, dizia:<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u201cA Congrega\u00e7\u00e3o da Escola Polit\u00e9cnica da Universidade de S\u00e3o Paulo, acolhendo o pedido de aux\u00edlio que lhe foi feito pelo Gr\u00eamio Polit\u00e9cnico, associa\u00e7\u00e3o oficial dos alunos desta Escola, para a constru\u00e7\u00e3o da \u2018Casa do Polit\u00e9cnico\u2019 e reconhecendo a real utilidade desse empreendimento e o seu grande alcance social na vida universit\u00e1ria, resolve prestigi\u00e1-lo e dar-lhe todo o apoio para a sua realiza\u00e7\u00e3o.&#8221;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Agora s\u00f3 faltava o or\u00e7amento, e a mobiliza\u00e7\u00e3o foi ampla. Bailes beneficentes, doa\u00e7\u00f5es monet\u00e1rias e de materiais, <em>lobby<\/em> junto aos poderes estadual e municipal, enfim, tudo o que pudesse materializar a t\u00e3o sonhada Cadop\u00f4.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u00c9 a\u00ed que o Coelho Neto entra na hist\u00f3ria, com uma sugest\u00e3o simples: conseguir verba atrav\u00e9s de apresenta\u00e7\u00f5es teatrais. Dado o cen\u00e1rio do teatro no eixo Rio-S\u00e3o Paulo, a situa\u00e7\u00e3o parecia plaus\u00edvel.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Sete anos antes, em 1943, uma apresenta\u00e7\u00e3o da pe\u00e7a <em>Vestido de Noiva<\/em>, de Nelson Rodrigues, fizera um sucesso estrondoso, de p\u00fablico e cr\u00edtica, no Rio de Janeiro \u2014 montada pelo grupo amador Os Comediantes, considerado precursor do teatro moderno brasileiro e fundado por Brutus Pedreira, Tom\u00e1s Santa Rosa e Luiza Barreto Leite em 1938. Outro grupo, o Teatro do Estudante do Brasil, criado tamb\u00e9m naquele ano por Paschoal Carlos Magno e famoso pelas pe\u00e7as de grandes autores nacionais e internacionais, havia viajado o pa\u00eds inteiro montando pe\u00e7as em locais como caminh\u00f5es, f\u00e1bricas e escolas, tamb\u00e9m com sucesso. Funcion\u00e1rios p\u00fablicos, oper\u00e1rios, e \u00e9 claro, estudantes, se arriscavam no palco, pois o palco chamava muitos. Os grupos amadores muitas vezes venciam mais editais de cultura do governo do que os profissionais. Eram anos de ouro.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O Gr\u00eamio acatou a ideia daquele polit\u00e9cnico j\u00e1 formado, com 24 anos nas costas, bigode fino e um olhar s\u00e9rio no rosto. Come\u00e7aram ent\u00e3o os preparativos. As pe\u00e7as escolhidas foram <em>O Doente Imagin\u00e1rio<\/em>, do dramaturgo franc\u00eas Moli\u00e8re, e <em>A Hist\u00f3ria do Homem e do Queijo<\/em>, do argentino Aur\u00e9lio Ferretti. Coelho Neto dirigiu ambas, al\u00e9m de atuar, provavelmente em pap\u00e9is chave, exercendo assim o que aprendera anos antes no Teatro Brasileiro de Com\u00e9dia.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Na divulga\u00e7\u00e3o das pe\u00e7as, por vezes constava a inten\u00e7\u00e3o de levantamento de verba \u201cem benef\u00edcio da Casa do Polit\u00e9cnico.\u201d Um dos jornais, a <em>Folha da Manh\u00e3<\/em>, em uma pequena nota de divulga\u00e7\u00e3o j\u00e1 quase apagada pelo tempo, chamava Coelho Neto de \u201cum amador que h\u00e1 muitos anos se dedica a incrementar o gosto pelo teatro entre os estudantes&#8221;.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A estreia das pe\u00e7as se deu no dia 18 de agosto de 1950, no Teatro Caetano de Campos, localizado na R. Bueno de Andrade, 715, na Aclima\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Assim nascia o Grupo Teatral Polit\u00e9cnico.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-large\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"1024\" height=\"806\" src=\"http:\/\/paineira.usp.br\/cje\/babel\/wp-content\/uploads\/2020\/06\/Bruno-Menezes-Caio-Mattos-e-Pedro-Vittorio-3-1024x806.png\" alt=\"\" class=\"wp-image-96\" srcset=\"https:\/\/babel.eca.usp.br\/wp-content\/uploads\/2020\/06\/Bruno-Menezes-Caio-Mattos-e-Pedro-Vittorio-3-1024x806.png 1024w, https:\/\/babel.eca.usp.br\/wp-content\/uploads\/2020\/06\/Bruno-Menezes-Caio-Mattos-e-Pedro-Vittorio-3-300x236.png 300w, https:\/\/babel.eca.usp.br\/wp-content\/uploads\/2020\/06\/Bruno-Menezes-Caio-Mattos-e-Pedro-Vittorio-3-768x604.png 768w, https:\/\/babel.eca.usp.br\/wp-content\/uploads\/2020\/06\/Bruno-Menezes-Caio-Mattos-e-Pedro-Vittorio-3.png 1080w\" sizes=\"auto, (max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" \/><figcaption>Recorte do ve\u00edculo Jornal de Not\u00edcias de 12 de agosto de 1950.<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Coelho Neto e os primeiros anos do GTP<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O ano de 1950 havia passado, inaugurando assim a segunda metade do s\u00e9c. XX. N\u00e3o h\u00e1 registro do qu\u00e3o bem recebidas foram as apresenta\u00e7\u00f5es do GTP no ano anterior, nem mesmo se geraram lucro.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O que se sabe \u00e9 que a mobiliza\u00e7\u00e3o em benef\u00edcio da Cadop\u00f4 seguia s\u00f3lida, e que em outubro de 1951 o grupo estava estreando uma pe\u00e7a novamente sob a dire\u00e7\u00e3o de Coelho Neto. A pe\u00e7a em quest\u00e3o era <em>Nossa Cidade<\/em>, um cl\u00e1ssico moderno do dramaturgo norte-americano Thornton Wilder \u2014 que j\u00e1 havia sido encenada pelo Teatro Oficina em S\u00e3o Paulo em 1950, com sucesso de cr\u00edtica.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Sua estrutura dram\u00e1tica era fragmentada: dezenas de personagens retratavam no palco o cotidiano de uma cidade do interior, num texto po\u00e9tico que esbanjava da figura do narrador e n\u00e3o indicava nenhum cen\u00e1rio.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O narrador foi o pr\u00f3prio Coelho Neto, que dividia elenco com mais 31 atores \u2014 incluindo crian\u00e7as. Osmar Rodrigues Cruz cuidava da <em>mise-en-sc\u00e8ne<\/em>, ou seja, a disposi\u00e7\u00e3o dos atores e objetos em cena, e o elenco contava com nomes como Luiz Mazzarolo Neto, Fortuna Leiner, Mois\u00e9s Leiner e Sonia Greis. Essa \u00faltima, inclusive, se destacou no papel considerado o mais dif\u00edcil da pe\u00e7a, o de Emily, uma adolescente estudiosa. Mais tarde conhecida como Soninha Greiss, ela se profissionalizaria e daria in\u00edcio a uma curiosa tradi\u00e7\u00e3o de Coelho Neto no GTP: a de dirigir atrizes de destaque.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A estreia foi no Grande Audit\u00f3rio do Teatro Cultura Art\u00edstica, \u00e0s 21h do dia 15 de outubro de 1951, um s\u00e1bado. Em uma entrevista ao jornal Di\u00e1rio da Noite, o diretor brinca sobre o grupo:<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u201cS\u00e3o estreantes. Mas est\u00e3o num otimismo t\u00e3o grande que d\u00e1 para a gente se preocupar\u2026\u201d<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Um artigo do cr\u00edtico Luiz Schwarcz de 13 de novembro daquele ano aponta que o elenco \u201csoube desempenhar-se a contento sem fazer concess\u00f5es ao p\u00fablico\u201d, numa atua\u00e7\u00e3o com apenas alguns \u201craros sen\u00f5es.\u201d Mas como um todo, o sucesso foi \u201csem d\u00favida alguma conseguido.\u201d Sem d\u00favida, de fato, pois tr\u00eas anos depois a pe\u00e7a ainda estaria sendo apresentada.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Em 28 de abril de 1952, iniciou-se uma nova temporada no Teatro Cultura Art\u00edstica, dessa vez com Beatriz Moura substituindo Sonia Greis e o italiano Ruggero Jacobi na produ\u00e7\u00e3o. Em maio do mesmo ano, Coelho Neto se torna presidente da rec\u00e9m inaugurada Federa\u00e7\u00e3o Paulista de Amadores Teatrais, a qual ajudou a fundar. O cr\u00edtico Cl\u00f3vis Garcia, o ator gtpense Mois\u00e9s e o diretor de cena Osmar Rodrigues Cruz tamb\u00e9m ganham cargos.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Em fevereiro de 1953, Cl\u00f3vis elege, na categoria de teatro amador, <em>Nossa Cidade<\/em> como uma das melhores pe\u00e7as de 1952; Coelho Neto, um dos melhores atores e diretores; e Beatriz Moura, uma das melhores atrizes.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Em outubro, para a comemora\u00e7\u00e3o do 50\u00ba anivers\u00e1rio do Gr\u00eamio Polit\u00e9cnico, o GTP monta novamente <em>O Doente Imagin\u00e1rio<\/em>. No papel principal, o do velho hipocondr\u00edaco Argan, Coelho Neto novamente se destaca. O cr\u00edtico Oscar Nimzovitch, em reportagem para o Correio Paulistano de 3 de janeiro de 1954, elege a pe\u00e7a como o melhor espet\u00e1culo do ano entre os grupos amadores; Coelho Neto, o melhor diretor; e Suzanna Maffei Cruz, que fez a empregada Toinette, a melhor atriz. Al\u00e9m disso, o ator Carlos Zara, em in\u00edcio de carreira, fez uma ponta e ajudou na constru\u00e7\u00e3o dos cen\u00e1rios.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Para o 51\u00ba anivers\u00e1rio do Gr\u00eamio, em 1954, o grupo apresenta novamente <em>Nossa Cidade<\/em> no Teatro Jo\u00e3o Caetano, no in\u00edcio de setembro. Tamb\u00e9m se apresenta no I Festival Paulista de Teatro Amador, estreando oficialmente no dia 14 de novembro, \u00e0s 22h, no Teatro Leopoldo Fr\u00f3es. O festival foi promovido pela Secretaria de Educa\u00e7\u00e3o e Cultura do Munic\u00edpio de S\u00e3o Paulo. Elizabeth Quadros, que estava no elenco, ganhou uma bolsa de estudos na EAD, a Escola de Artes Dram\u00e1ticas da USP.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">No mesmo ano, Coelho Neto prestaria uma prova quase inusitada para o cargo de censor teatral. O conte\u00fado inclu\u00eda quest\u00f5es de conhecimento geral, hist\u00f3ria da arte e t\u00e9cnicas teatrais. O resultado sairia em fevereiro de 1955, e ele se classificaria em 2\u00ba lugar.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O grupo, sempre sob a dire\u00e7\u00e3o de Coelho Neto, participaria do II Festival Paulista de Teatro Amador neste ano, no dia 19 de setembro, \u00e0s 21h no Teatro S\u00e3o Paulo. As pe\u00e7as apresentadas foram <em>O Or\u00e1culo<\/em>, de Artur Azevedo, e <em>Quem Casa Quer Casa<\/em>, de Martins Pena, ambos dramaturgos brasileiros do s\u00e9c. XIX. Desta vez, apesar da atua\u00e7\u00e3o destacada de Coelho Neto, Boris Cipkos e Elizabeth Quadros, a apresenta\u00e7\u00e3o sofreu cr\u00edticas. Cl\u00f3vis Garcia, em artigo de 22 de outubro, considerou a realiza\u00e7\u00e3o da pe\u00e7a deficiente, com ritmo arrastado, atores inseguros e humor convencional.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Era a deixa para a sa\u00edda de Coelho Neto do GTP. Em novembro de 1955, com seu emprego de censor garantido, casa-se com Alcina Paula Fragata, uma jovem de 26 anos nascida em Bauru (SP).<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Pouco se sabe sobre o que aconteceu com o grupo durante os anos seguintes, at\u00e9 1959.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Coelho Neto, por outro lado, se estabelecia como um censor prestativo, sens\u00edvel e inteligente, que exerceria a profiss\u00e3o por dez anos sem censurar nenhuma pe\u00e7a \u2014 liberando, ao inv\u00e9s, mais de 200 delas.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-large\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"970\" height=\"640\" src=\"http:\/\/paineira.usp.br\/cje\/babel\/wp-content\/uploads\/2020\/06\/Bruno-Menezes-Caio-Mattos-e-Pedro-Vittorio-4.png\" alt=\"\" class=\"wp-image-97\" srcset=\"https:\/\/babel.eca.usp.br\/wp-content\/uploads\/2020\/06\/Bruno-Menezes-Caio-Mattos-e-Pedro-Vittorio-4.png 970w, https:\/\/babel.eca.usp.br\/wp-content\/uploads\/2020\/06\/Bruno-Menezes-Caio-Mattos-e-Pedro-Vittorio-4-300x198.png 300w, https:\/\/babel.eca.usp.br\/wp-content\/uploads\/2020\/06\/Bruno-Menezes-Caio-Mattos-e-Pedro-Vittorio-4-768x507.png 768w\" sizes=\"auto, (max-width: 970px) 100vw, 970px\" \/><figcaption>Elenco da pe\u00e7a <em>Nossa Cidade, <\/em>de Thornton Wilde, que estreou no Teatro Cultura Art\u00edstica em 15 de outubro de 1951. O diretor e narrador J .E. Coelho Neto est\u00e1 ao centro, de gravata. Recorte do jornal Di\u00e1rio da Noite (SP) do dia citado.<br><\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>O homem que fazia festivais<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Em 1956, um homem chamado Paschoal Carlos Magno era coroado \u201cEstudante Perp\u00e9tuo do Brasil\u201d pela Uni\u00e3o Nacional dos Estudantes (UNE). Robusto, de testa alta, nariz saliente e queixo levemente fendido, Carlos Magno era antes de tudo um agitador, e depois, um mecenas. Costumava hospedar atores amadores na sua casa no bairro de Santa Teresa, centro do Rio de Janeiro.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u201cOlha, nem sei de onde s\u00e3o, pergunta pra eles\u201d, dizia. A casa tinha tr\u00eas andares e os h\u00f3spedes vinham de todo o pa\u00eds.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Naquele ano Juscelino Kubitschek havia sido empossado presidente do Brasil. Sua amizade com Carlos Magno fez com que ele o transformasse numa esp\u00e9cie de \u201cministro sem pasta\u201d, promovendo o teatro pa\u00eds afora. Carlos Magno, ent\u00e3o com 50 anos e dono de uma carreira de sucesso como dramaturgo e diretor, deu in\u00edcio a uma s\u00e9rie de viagens, de maneira quase ininterrupta, garimpando talentos e lutando por espa\u00e7os onde se pudesse fazer teatro.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Seu trabalho logo d\u00e1 frutos. Em julho de 1958, organiza o I Festival Nacional de Teatros de Estudantes, em Recife (PE), patrocinado por entidades como o Minist\u00e9rio da Educa\u00e7\u00e3o e Cultura, o Prefeitura de Recife, a Associa\u00e7\u00e3o Brasileira de Imprensa e a Sociedade Brasileira de Autores Teatrais, al\u00e9m do pr\u00f3prio Presidente da Rep\u00fablica. Na inaugura\u00e7\u00e3o do evento, Kubitschek diz:<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u201cO teatro de estudantes \u00e9 um movimento de vanguarda, contribuindo para o aperfei\u00e7oamento da nossa juventude e eleva\u00e7\u00e3o da cultura brasileira.&#8221;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O Festival re\u00fane mais de 800 jovens participantes, mas o GTP n\u00e3o estava entre os inscritos.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A funda\u00e7\u00e3o do grupo no in\u00edcio da d\u00e9cada havia sido cheia de energia, mas sua estrela estava se apagando. Entre outubro de 1955 e julho de 1959, n\u00e3o se tem nada registrado sobre a sua atua\u00e7\u00e3o. N\u00e3o esteve nos jornais, nos festivais, nas festividades do Gr\u00eamio Polit\u00e9cnico.<\/p>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-image\"><figure class=\"aligncenter size-large\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"490\" height=\"306\" src=\"http:\/\/paineira.usp.br\/cje\/babel\/wp-content\/uploads\/2020\/06\/Bruno-Menezes-Caio-Mattos-e-Pedro-Vittorio-5.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-98\" srcset=\"https:\/\/babel.eca.usp.br\/wp-content\/uploads\/2020\/06\/Bruno-Menezes-Caio-Mattos-e-Pedro-Vittorio-5.jpg 490w, https:\/\/babel.eca.usp.br\/wp-content\/uploads\/2020\/06\/Bruno-Menezes-Caio-Mattos-e-Pedro-Vittorio-5-300x187.jpg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 490px) 100vw, 490px\" \/><figcaption>Da esquerda para a direita, S\u00e9rgio Cardoso, Paschoal Carlos Magno e Proc\u00f3pio Ferreira no Teatro Duse. Arquivo Br\u00edcio de Abreu \u2013 SNT\/ FUNARTE\/RJ.<\/figcaption><\/figure><\/div>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Por outro lado, a atua\u00e7\u00e3o de Paschoal Carlos Magno seguia firme. Tanto \u00e9 que em julho de 1959, o II Festival Nacional de Teatros de Estudantes ocorre em Santos (SP), contando com 1242 participantes de todo o Brasil.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O festival foi hist\u00f3rico.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A apresenta\u00e7\u00e3o da pe\u00e7a <em>A Incubadeira<\/em>, do paulista Jos\u00e9 Celso Martinez Correia, pelo Centro Acad\u00eamico XI de Agosto do Largo do S\u00e3o Francisco da USP, consolidaria a companhia depois batizada como Teatro Oficina \u2014 existente at\u00e9 hoje.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">L\u00e1 tamb\u00e9m estavam Maria S\u00edlvia Nunes, dirigindo a pe\u00e7a <em>\u00c9dipo Rei<\/em>, cl\u00e1ssico grego escrito por S\u00f3focles, pela Universidade do Par\u00e1. Anos depois, em 1961, ela fundou a Escola de Teatro de Bel\u00e9m, junto de Amir Haddad, Carlos Moura e Yolanda Amadei.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Atores e atrizes de consagra\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m estavam l\u00e1. Cacilda Becker, do Teatro Brasileiro de Com\u00e9dia, e Henriette Morineau, da companhia Os Artistas Unidos, fizeram respectivamente <em>Mary Stuart<\/em> e <em>Elizabeth I<\/em> num julgamento fict\u00edcio dramatizado. Paulo Autran, da Companhia T\u00f4nia-Celi-Autran, e Sergio Cardoso, da Companhia Nydia Licia-Sergio Cardoso, fizeram, por sua vez, <em>Otelo<\/em> e <em>Hamlet<\/em>.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A seriedade era tanta que o grupo Teatro Experimental de Com\u00e9dia de Araraquara foi desclassificado por ter ido \u00e0 praia num hor\u00e1rio reservado para trabalho.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u00c9 desse festival que temos a primeira not\u00edcia do Grupo Teatral Polit\u00e9cnico depois de 1955. T\u00edmida, discreta, quase uma nota de rodap\u00e9 \u2014 seu nome consta entre os 23 grupos presentes e \u00e9 isso.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Mas o grupo estava de volta. A pe\u00e7a <em>A Noite de 16 de Janeiro<\/em>, da autora russa-norte-americana Ayn Rand, foi apresentada no dia 14 de setembro de 1959, \u00e0s 21h, no Teatro Jo\u00e3o Caetano, como parte das festividades da comemora\u00e7\u00e3o dos 56 anos do Gr\u00eamio Polit\u00e9cnico. Durante a pe\u00e7a, membros da audi\u00eancia s\u00e3o chamados para fazer personagens do j\u00fari. Deve ter sido no m\u00ednimo curioso.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Um pol\u00edtico nos palcos<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Em 1960, um descendente de italianos nascido no bairro da Mooca, em S\u00e3o Paulo, entra na Escola Polit\u00e9cnica. Aos 17, quase 18 anos de idade, \u00e9 magro e alto, dono de olhos espertos e uma timidez quase incur\u00e1vel. Quase. Seu nome \u00e9 Jos\u00e9 Serra.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Jos\u00e9 se interessava por pol\u00edtica e teatro, n\u00e3o sabendo exatamente para qual pendia mais. Tanto \u00e9 que foi seguindo ambos os caminhos, um complementando o outro. J\u00e1 no primeiro ano, entra para o Grupo Teatral Polit\u00e9cnico, que a essa altura era um dos in\u00fameros grupos amadores agitados pelo \u201cvendaval Carlos Magno&#8221;.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Foi com o GTP que ele viajou para Bras\u00edlia (DF), em julho de 1960, para apresentar as pe\u00e7as <em>Auto da F\u00e9<\/em>, do norte-americano Tennessee Williams, e <em>Artigo 330<\/em>, do franc\u00eas Georges Courteline no III Festival Nacional de Teatros de Estudantes, iniciado no dia 13 daquele m\u00eas.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O Festival seguiria at\u00e9 o dia 28, quando, ap\u00f3s passar tamb\u00e9m por Minas Gerais, os grupos acabariam se apresentando em espet\u00e1culos no Rio de Janeiro, capital. Ao chegar na cidade, foram recebidos calorosamente. Desfilaram na Avenida Rio Branco, que cruza o centro da cidade, ganharam homenagem na C\u00e2mara dos Vereadores e visitaram o governador do estado no Pal\u00e1cio Guanabara.<\/p>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-group\"><div class=\"wp-block-group__inner-container is-layout-flow wp-block-group-is-layout-flow\">\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-gallery aligncenter columns-2 wp-block-gallery-1 is-layout-flex wp-block-gallery-is-layout-flex\"><ul class=\"blocks-gallery-grid\"><li class=\"blocks-gallery-item\"><figure><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"317\" height=\"500\" src=\"http:\/\/paineira.usp.br\/cje\/babel\/wp-content\/uploads\/2020\/06\/Bruno-Menezes-Caio-Mattos-e-Pedro-Vittorio-6.jpg\" alt=\"\" data-id=\"99\" data-link=\"http:\/\/paineira.usp.br\/cje\/babel\/?attachment_id=99\" class=\"wp-image-99\" srcset=\"https:\/\/babel.eca.usp.br\/wp-content\/uploads\/2020\/06\/Bruno-Menezes-Caio-Mattos-e-Pedro-Vittorio-6.jpg 317w, https:\/\/babel.eca.usp.br\/wp-content\/uploads\/2020\/06\/Bruno-Menezes-Caio-Mattos-e-Pedro-Vittorio-6-190x300.jpg 190w\" sizes=\"auto, (max-width: 317px) 100vw, 317px\" \/><\/figure><\/li><li class=\"blocks-gallery-item\"><figure><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"500\" height=\"332\" src=\"http:\/\/paineira.usp.br\/cje\/babel\/wp-content\/uploads\/2020\/06\/Bruno-Menezes-Caio-Mattos-e-Pedro-Vittorio-7-1.jpg\" alt=\"\" data-id=\"101\" data-full-url=\"http:\/\/paineira.usp.br\/cje\/babel\/wp-content\/uploads\/2020\/06\/Bruno-Menezes-Caio-Mattos-e-Pedro-Vittorio-7-1.jpg\" data-link=\"http:\/\/paineira.usp.br\/cje\/babel\/?attachment_id=101\" class=\"wp-image-101\" srcset=\"https:\/\/babel.eca.usp.br\/wp-content\/uploads\/2020\/06\/Bruno-Menezes-Caio-Mattos-e-Pedro-Vittorio-7-1.jpg 500w, https:\/\/babel.eca.usp.br\/wp-content\/uploads\/2020\/06\/Bruno-Menezes-Caio-Mattos-e-Pedro-Vittorio-7-1-300x199.jpg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 500px) 100vw, 500px\" \/><\/figure><\/li><\/ul><figcaption class=\"blocks-gallery-caption\">\u00c0 esq., Jos\u00e9 Serra em 1960; \u00e0 dir., em reuni\u00e3o da UNE, no centro da foto. Data desconhecida. Reprodu\u00e7\u00e3o<br><\/figcaption><\/figure>\n<\/div><\/div>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Teatro e pol\u00edtica, pol\u00edtica e teatro.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Em 14 de abril de 1961, o grupo apresentou um espet\u00e1culo para angariar fundos para uma greve da Escola Polit\u00e9cnica. Sua principal reivindica\u00e7\u00e3o era o cumprimento de um acordo feito no ano anterior, o qual prometia aos estudantes um aumento no n\u00edvel did\u00e1tico da institui\u00e7\u00e3o e maior participa\u00e7\u00e3o discente em seu Conselho T\u00e9cnico Administrativo. A pe\u00e7a se chamava <em>Dr Vital\u00edcio de Tal, Catedr\u00e1tico<\/em>, um texto autoral que criticava a ocupa\u00e7\u00e3o vital\u00edcia do cargo de professor. A apresenta\u00e7\u00e3o aconteceu na Cadop\u00f4, e contou com a presen\u00e7a e apoio de Carlos Zara, j\u00e1 ent\u00e3o um ator famoso, rosto conhecido da TV Record e da TV Tupi, e outros antigos polit\u00e9cnicos.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Em janeiro de 1962, o grupo participa de mais uma edi\u00e7\u00e3o do Festival Nacional de Teatros de Estudantes, a quarta. Apresenta <em>Vento Forte para um Papagaio Subir<\/em>, de Jos\u00e9 Celso Martinez Correia, sob dire\u00e7\u00e3o de Fuad Cury e com Jos\u00e9 Serra no papel principal, o de Jo\u00e3o Ign\u00e1cio, personagem que, impulsionado por uma tempestade, decide mudar os rumos de sua vida. Tamb\u00e9m participa de uma \u201cSabatina de Teatro Infantil\u201d junto ao grupo da Escola de Engenharia Mackenzie, onde os grupos apresentam, respectivamente, <em>Aventura na Ilha Azul<\/em>, do paulista Ricardo Gouveia, e <em>O Julgamento de Ti\u00e3o<\/em>, de Edgard Aranha.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Ao final daquele festival o GTP \u00e9 eleito, junto a outros, como o \u201cGrupo que mais trabalhou pelo teatro no per\u00edodo 1960-61\u201d; al\u00e9m disso, a gtpense Ana Maria de Cerqueira Leite angaria o pr\u00eamio de Melhor Atriz por seu papel em <em>Vento Forte para um Papagaio Subir<\/em>.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">No dia 5 de mar\u00e7o daquele ano, Jos\u00e9 Serra \u00e9 nomeado diretor do grupo. \u00c9 sob sua dire\u00e7\u00e3o que o grupo apresenta, em 30 de julho daquele ano, a pe\u00e7a <em>Picnic no Front<\/em>, do espanhol Fernando Arrabal. O espet\u00e1culo fez parte do II Festival Paulista de Teatro de Estudantes, ocorrido em S\u00e3o Paulo, capital. Segundo mat\u00e9ria da <em>Folha de S. Paulo<\/em> foi um dos tr\u00eas grupos favoritos do p\u00fablico, junto ao Grupo Experimental da Faculdade de Filosofia e ao Grupo Teatral do Mackenzie. Al\u00e9m disso, Jos\u00e9 Serra levou para casa o pr\u00eamio de melhor ator do festival.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Em 1963, Serra sai do GTP e se torna presidente da Uni\u00e3o Nacional de Estudantes. O GTP ainda estava na ativa, sendo um dos mais cotados para inaugurar o Teatro Arcozelo em janeiro de 1964, no V Festival Nacional de Teatros de Estudantes.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">E ent\u00e3o vem o golpe, que na Poli se traduz de imediato com a vit\u00f3ria, nas elei\u00e7\u00f5es para o Gr\u00eamio Polit\u00e9cnico daquele ano, de uma chapa mais alinhada ao governo militar. A totalidade das condi\u00e7\u00f5es que levaram ao subsequente desestruturamento do GTP n\u00e3o s\u00e3o n\u00edtidas, mas fato \u00e9 que o grupo ficaria por algum tempo sem dar as caras no cen\u00e1rio do teatro universit\u00e1rio nacional.<\/p>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-image\"><figure class=\"aligncenter size-large\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"794\" height=\"525\" src=\"http:\/\/paineira.usp.br\/cje\/babel\/wp-content\/uploads\/2020\/06\/Bruno-Menezes-Caio-Mattos-e-Pedro-Vittorio-8.png\" alt=\"\" class=\"wp-image-102\" srcset=\"https:\/\/babel.eca.usp.br\/wp-content\/uploads\/2020\/06\/Bruno-Menezes-Caio-Mattos-e-Pedro-Vittorio-8.png 794w, https:\/\/babel.eca.usp.br\/wp-content\/uploads\/2020\/06\/Bruno-Menezes-Caio-Mattos-e-Pedro-Vittorio-8-300x198.png 300w, https:\/\/babel.eca.usp.br\/wp-content\/uploads\/2020\/06\/Bruno-Menezes-Caio-Mattos-e-Pedro-Vittorio-8-768x508.png 768w\" sizes=\"auto, (max-width: 794px) 100vw, 794px\" \/><figcaption>Recorte do ve\u00edculo Di\u00e1rio da Noite (SP) de 13 de julho de 1960.<\/figcaption><\/figure><\/div>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>O GTP ressurge mais uma vez<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Nos primeiros anos da ditadura militar brasileira, o movimento estudantil, e em especial o teatro universit\u00e1rio, andavam mais ativos do que nunca. O infame AI-5 s\u00f3 entraria em vigor no final de 1968, mas a censura j\u00e1 era algo com que os artistas tinham de lidar desde o come\u00e7o do regime. Apesar disso tudo, em um dos maiores centros intelectuais de resist\u00eancia no pa\u00eds, um grupo teatral, antes conhecido pela intensa atividade pol\u00edtica que exercia atrav\u00e9s de suas pe\u00e7as, permanecia adormecido.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Nessa mesma \u00e9poca, mais especificamente no ano de 1966, ingressava na Poli o estudante Jos\u00e9 Luiz Visconti, que seria pe\u00e7a chave para o reaparecimento do GTP. Como todo bom calouro entusiasmado com a nova vida universit\u00e1ria que lhe vinha pela frente, Visconti procurou participar do maior n\u00famero de atividades extracurriculares quanto poss\u00edvel. Que atire a primeira pedra o universit\u00e1rio que n\u00e3o aprendeu do pior jeito que essa n\u00e3o \u00e9 uma ideia t\u00e3o boa quanto pode parecer.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">De qualquer forma, foi desta maneira que o jovem estudante de engenharia foi parar no TUSP \u2013 na \u00e9poca chamado de Teatro dos Universit\u00e1rios de S\u00e3o Paulo, e que tamb\u00e9m estava em processo de ressurgimento. Na ocasi\u00e3o, Visconti participou daquela que seria a primeira montagem do grupo: a encena\u00e7\u00e3o da pe\u00e7a <em>A Exce\u00e7\u00e3o e a Regra<\/em>, apenas dez anos ap\u00f3s a morte de seu autor, o dramaturgo alem\u00e3o Bertolt Brecht.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">J\u00e1 no seu segundo ano de faculdade, o estudante e um grupo de seus amigos formavam a &#8220;Comiss\u00e3o de Trote&#8221; da Poli naquele 1967. &#8220;Como eu havia participado do TUSP, fiquei encarregado da promo\u00e7\u00e3o de um evento considerado importante na \u00e9poca, o &#8216;Show do Bixo'&#8221;, uma atividade mais l\u00fadica de recep\u00e7\u00e3o aos calouros que naquele ano contou com a cria\u00e7\u00e3o e apresenta\u00e7\u00e3o de esquetes teatrais pelos pr\u00f3prios ingressantes.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Para uma segunda parte do &#8220;Show do Bixo&#8221; voltada para a M\u00fasica Popular Brasileira, o organizador conseguiu se encontrar com Guilherme Ara\u00fajo, empres\u00e1rio de Caetano Veloso e Gilberto Gil, no Bar Redondo. O estabelecimento, famoso por ser ponto de encontro de v\u00e1rios artistas na \u00e9poca da ditadura, se situava praticamente ao lado do Teatro de Arena, do qual Visconti tamb\u00e9m fazia parte.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O encontro rendeu a apresenta\u00e7\u00e3o dos dois artistas baianos e outros m\u00fasicos de MPB no tal &#8220;Show do Bixo&#8221; de mar\u00e7o de 1967, ocorrido no Teatro da Universidade Cat\u00f3lica, o TUCA, e cujo sucesso est\u00e1 finalmente relacionado com o ressurgimento do GTP naquele ano. A primeira parte \u00e9 mais intuitiva: a cria\u00e7\u00e3o de esquetes se tornaria o embri\u00e3o do teatro de cria\u00e7\u00e3o coletiva que reinaria no grupo pelos pr\u00f3ximos anos, mas de que outro jeito aquele evento de recep\u00e7\u00e3o aos calouros poderia ter auxiliado esse retorno?<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Acontece que muitos dos que participaram da &#8220;Comiss\u00e3o de Trote&#8221; naquele ano acabaram formando uma chapa para as elei\u00e7\u00f5es seguintes do Gr\u00eamio Polit\u00e9cnico. Impulsionados pela popularidade do evento do come\u00e7o do ano, venceram o pleito e come\u00e7aram a distribui\u00e7\u00e3o de cargos. Visconti, que fazia parte da chapa apesar de n\u00e3o ter aspira\u00e7\u00f5es pol\u00edticas, acabou mais uma vez com algo relacionado a teatro, e se tornou &#8220;Diretor Geral do GTP&#8221;, cargo ent\u00e3o dado pelo Gr\u00eamio sobre um grupo que, como visto, n\u00e3o existia efetivamente.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Mas mesmo assim, foi exatamente com essa combina\u00e7\u00e3o de aux\u00edlio oficial do Gr\u00eamio \u2013 agora na forma de Visconti \u2013 e pessoas interessadas no projeto, originadas do &#8220;Show do Bixo&#8221;, que o GTP acordava de um sono de cerca de tr\u00eas anos.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Com cerca de trinta adeptos, o Grupo Teatral Polit\u00e9cnico passou aquele primeiro semestre de 1967 inteiro se preparando para o que seria o seu grande retorno aos palcos, com a encena\u00e7\u00e3o da pe\u00e7a autoral <em>Jo\u00e3o a Tr\u00eas por Quatro<\/em>. Foi tamb\u00e9m quando se reencontraram com aquela que servia de quartel-general do grupo antes de sua dissolu\u00e7\u00e3o: a saudosa Cadop\u00f4.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A aproxima\u00e7\u00e3o ainda foi cautelosa, aos poucos. Afinal n\u00e3o se viam h\u00e1 alguns anos e a chama j\u00e1 n\u00e3o era mais a mesma. Ensaiavam ora por ali, ora por alguns cantos da Cidade Universit\u00e1ria (ainda n\u00e3o inaugurada oficialmente) ou mesmo da pr\u00f3pria cidade de S\u00e3o Paulo, mas o reatamento completo da rela\u00e7\u00e3o n\u00e3o tardaria muito.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Paralelamente, Visconti tamb\u00e9m trabalhava com a cria\u00e7\u00e3o de um coral para o grupo, o idealizado Coral do GTP, que ainda no per\u00edodo de gesta\u00e7\u00e3o j\u00e1 demonstrava problemas. &#8220;N\u00f3s n\u00e3o t\u00ednhamos vozes femininas na Poli no ano de 1967 \u2013 dos 300 que ingressaram, uns seis ou sete eram mulheres&#8221;, relembra o ent\u00e3o estudante, que precisou pedir ajuda de outras institui\u00e7\u00f5es uspianas para resolver a situa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-image\"><figure class=\"aligncenter size-large\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"1024\" height=\"652\" src=\"http:\/\/paineira.usp.br\/cje\/babel\/wp-content\/uploads\/2020\/06\/Bruno-Menezes-Caio-Mattos-e-Pedro-Vittorio-9-1024x652.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-103\" srcset=\"https:\/\/babel.eca.usp.br\/wp-content\/uploads\/2020\/06\/Bruno-Menezes-Caio-Mattos-e-Pedro-Vittorio-9-1024x652.jpg 1024w, https:\/\/babel.eca.usp.br\/wp-content\/uploads\/2020\/06\/Bruno-Menezes-Caio-Mattos-e-Pedro-Vittorio-9-300x191.jpg 300w, https:\/\/babel.eca.usp.br\/wp-content\/uploads\/2020\/06\/Bruno-Menezes-Caio-Mattos-e-Pedro-Vittorio-9-768x489.jpg 768w, https:\/\/babel.eca.usp.br\/wp-content\/uploads\/2020\/06\/Bruno-Menezes-Caio-Mattos-e-Pedro-Vittorio-9.jpg 1280w\" sizes=\"auto, (max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" \/><figcaption>Convite para participa\u00e7\u00e3o do Coral da USP, na \u00e9poca, Coral do GTP. [Acervo Jos\u00e9 Luiz Visconti]<\/figcaption><\/figure><\/div>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Foi assim que nascia, em junho daquele ano, o Coral Universit\u00e1rio Poli Enfermagem, que apesar do nome, ainda era vinculado ao GTP \u2013 ainda que n\u00e3o por muito tempo. Por sinal, a ideia de se aliar a faculdades mais frequentadas por mulheres para suprir a falta desse contingente parece ter sido o <em>modus operandi<\/em> do grupo em 1967. <em>Jo\u00e3o a Tr\u00eas por Quatro<\/em> (que ali\u00e1s era baseada em um texto de um estudante polit\u00e9cnico da \u00e9poca, Lineu Ayres da Silva), foi encenada em conjunto com o antigo Instituto Sedes Sapientiae, uma faculdade s\u00f3 para mo\u00e7as associada \u00e0 PUC.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">E como dito antes, todo o trabalho de um semestre culminaria naquele dia 26 de agosto, naquelas 20h30, naquele Col\u00e9gio Rio Branco que existe at\u00e9 hoje. O &#8220;Show Poli-Sedes&#8221;, como foi chamado, marcava oficialmente o retorno do GTP aos palcos com uma apresenta\u00e7\u00e3o \u00fanica de <em>Jo\u00e3o a Tr\u00eas por Quatro<\/em> \u2013 e participa\u00e7\u00e3o do Coral. Dentre os convidados se encontrava o paraibano Geraldo Vandr\u00e9, com 31 anos de idade e tr\u00eas de carreira, tocando seu viol\u00e3o para o p\u00fablico ao final da performance.<\/p>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-image\"><figure class=\"aligncenter size-large\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"1024\" height=\"716\" src=\"http:\/\/paineira.usp.br\/cje\/babel\/wp-content\/uploads\/2020\/06\/Bruno-Menezes-Caio-Mattos-e-Pedro-Vittorio-10-1024x716.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-104\" srcset=\"https:\/\/babel.eca.usp.br\/wp-content\/uploads\/2020\/06\/Bruno-Menezes-Caio-Mattos-e-Pedro-Vittorio-10-1024x716.jpg 1024w, https:\/\/babel.eca.usp.br\/wp-content\/uploads\/2020\/06\/Bruno-Menezes-Caio-Mattos-e-Pedro-Vittorio-10-300x210.jpg 300w, https:\/\/babel.eca.usp.br\/wp-content\/uploads\/2020\/06\/Bruno-Menezes-Caio-Mattos-e-Pedro-Vittorio-10-768x537.jpg 768w, https:\/\/babel.eca.usp.br\/wp-content\/uploads\/2020\/06\/Bruno-Menezes-Caio-Mattos-e-Pedro-Vittorio-10-130x90.jpg 130w, https:\/\/babel.eca.usp.br\/wp-content\/uploads\/2020\/06\/Bruno-Menezes-Caio-Mattos-e-Pedro-Vittorio-10.jpg 1280w\" sizes=\"auto, (max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" \/><figcaption>Geraldo Vandr\u00e9 se apresenta para os atores e o p\u00fablico ap\u00f3s a encena\u00e7\u00e3o de <em>Jo\u00e3o a 3:4<\/em>. [Acervo Jos\u00e9 Luiz Visconti]<\/figcaption><\/figure><\/div>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O Grupo Teatral Polit\u00e9cnico voltava mais uma vez \u00e0 ativa, mas o que era o recome\u00e7o tamb\u00e9m era um final de jornada. A chapa eleita no ano seguinte para o Gr\u00eamio Polit\u00e9cnico n\u00e3o tinha interesse em apoiar os projetos art\u00edsticos criados pela gest\u00e3o passada. Para que o Coral sobrevivesse, Visconti ampliou a ideia para a universidade inteira, e consequentemente se desvinculou do grupo de teatro. O Coral da USP, como \u00e9 conhecido at\u00e9 hoje, sobreviveu a essa contratempo. O GTP tamb\u00e9m.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Quando o teatro encontra a ditadura<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Quem estava l\u00e1 para presenciar os anos seguintes do grupo \u00e9 o atual Superintendente de Comunica\u00e7\u00e3o Social da USP, Luiz Roberto Serrano. Formado pela ECA, o jornalista, que j\u00e1 foi editor da Veja e assessor de imprensa do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, primeiro tentou a sorte como estudante de engenharia.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Entrou na Poli em 1967, mas foi s\u00f3 no ano seguinte que seu caminho se cruzou com o do GTP. Marca como o primeiro fato importante do ano de 1968 para o grupo a contrata\u00e7\u00e3o de Cl\u00e1udio Mamberti, que na \u00e9poca ainda n\u00e3o havia deslanchado como ator de cinema e televis\u00e3o, para dirigir a pe\u00e7a <em>As Bruxas de Sal\u00e9m<\/em> \u2013 do dramaturgo norte-americano Arthur Miller e baseada no infame epis\u00f3dio de ca\u00e7a \u00e0s bruxas ocorrido no estado de Massachusetts, Estados Unidos.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">N\u00e3o \u00e9 a pe\u00e7a propriamente dita, por\u00e9m, que ainda persiste alojada nas mem\u00f3rias de Serrano, mas um epis\u00f3dio relacionado. Conta ele que, em um 19 de julho de 1968, foram surpreendidos por Mamberti um pouco antes do hor\u00e1rio do ensaio programado para aquele dia na sala dos fundos do mezanino da Casa do Polit\u00e9cnico. Faziam a leitura da pe\u00e7a de Miller junto \u00e0s mesas de pingue-pongue quando o diretor, entre uma recuperada de f\u00f4lego e outra, come\u00e7ou: &#8220;Pessoal, ontem o CCC [Comando de Ca\u00e7a aos Comunistas] atacou a pe\u00e7a Roda-Viva l\u00e1 no Teatro Ruth Escobar. Vamos pra l\u00e1 fazer a seguran\u00e7a da pe\u00e7a&#8221;.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Foram ent\u00e3o cerca de dez gtpenses \u00e0 rua dos Ingleses n\u00ba 209, onde a pe\u00e7a vinha sendo encenada. Serrano lembra de logo de cara ser confrontado por um t\u00e9cnico de luz que portava um rev\u00f3lver e fazia amea\u00e7as a quem quer que tivesse a aud\u00e1cia de tentar mais um ataque. O pr\u00f3prio estudante, ali\u00e1s, levava consigo um casac\u00e3o e uma barra de ferro, para se proteger do frio e do que mais aquelas tr\u00eas noites de inverno lhes pudessem trazer.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Qualquer movimento percebido na regi\u00e3o das portas do teatro j\u00e1 era capaz de prender a respira\u00e7\u00e3o de todos os envolvidos no espet\u00e1culo. Apesar disso, nada de extraordin\u00e1rio aconteceu, &#8220;al\u00e9m de a gente decorar a pe\u00e7a inteira de tanto ouvir&#8221;, conclui Serrano.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Outro momento important\u00edssimo para o GTP naquele ano de 1968 come\u00e7ou com a contrata\u00e7\u00e3o da diretora Duddu Barreto Leite, agora para comandar uma pe\u00e7a autoral do grupo. <em>A Ca\u00e7a<\/em>, como foi chamada, contava a hist\u00f3ria de um jovem que acaba sendo envolvido com um caso de explos\u00e3o de bomba mesmo sem ter tido qualquer envolvimento com o epis\u00f3dio.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Atualmente, Serrano v\u00ea um pouco de ingenuidade no texto da pe\u00e7a, mas n\u00e3o foi dessa maneira que os agentes de censura do governo militar enxergaram a obra naquele final de anos 60. A apresenta\u00e7\u00e3o no Teatro Jo\u00e3o Caetano, \u00e0s 21h de uma segunda-feira 11 de novembro, seria a primeira e \u00faltima encena\u00e7\u00e3o de <em>A Ca\u00e7a<\/em>.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Este epis\u00f3dio e a emiss\u00e3o do AI-5 no m\u00eas seguinte n\u00e3o parecem ter intimidado tanto assim o grupo, que inclusive utilizaram o incidente na apresenta\u00e7\u00e3o para os calouros do ano que vinha. Serrano conta o caso, lembrando que inclusive havia bastante plateia: &#8220;Fizemos um &#8216;Show do Bixo&#8217; em um espa\u00e7o que tem na Brigadeiro Luiz Ant\u00f4nio. No meio da pe\u00e7a aparecia um cara dizendo que era do DOPS e que estava todo mundo preso, mas era tudo parte da apresenta\u00e7\u00e3o.&#8221;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Neste ano de 1969, encenaram tamb\u00e9m, na pr\u00f3pria Casa do Polit\u00e9cnico, <em>O Caso Oppenheimer<\/em>, do alem\u00e3o Heinar Kipphardt. A pe\u00e7a era uma dramatiza\u00e7\u00e3o do epis\u00f3dio de poss\u00edvel persegui\u00e7\u00e3o comunista que o cientista pai da bomba at\u00f4mica, J. Robert Oppenheimer, sofreu anos depois de seu envolvimento no Projeto Manhattan, e j\u00e1 contava com Serrano na posi\u00e7\u00e3o de diretor geral do GTP.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">N\u00e3o confundir, no entanto, diretor geral com diretor art\u00edstico ou diretor teatral. Enquanto o primeiro era uma figura de lideran\u00e7a mais global, o segundo era mais focado nas quest\u00f5es, bem, art\u00edsticas do grupo. Ambos eram alunos, ao contr\u00e1rio do diretor teatral, caso de Mamberti e Duddu, que foram contratados para dirigir uma pe\u00e7a espec\u00edfica.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Al\u00e9m das atividades teatrais, naquele ano o GTP tamb\u00e9m acabou se envolvendo nas elei\u00e7\u00f5es do Gr\u00eamio Polit\u00e9cnico atrav\u00e9s de uma chapa mais inclinada para a esquerda do espectro pol\u00edtico. A GAL 70 \u2013 Gr\u00eamio para os Alunos \u2013 representava uma parcela minorit\u00e1ria dos polit\u00e9cnicos da \u00e9poca, mas acabou levando a melhor em cima da chapa liberal de direita que j\u00e1 era figura carimbada na associa\u00e7\u00e3o desde o come\u00e7o da d\u00e9cada.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Com a vit\u00f3ria da nova chapa, o Gr\u00eamio e o GTP passaram a ter uma liga\u00e7\u00e3o ideol\u00f3gica e pol\u00edtica que n\u00e3o se via nos anos anteriores. Ainda que independentes, essa rela\u00e7\u00e3o mais pr\u00f3xima possibilitou que o grupo de teatro passasse a utilizar de sua arte com uma finalidade mais intervencionista e militante. Nascia assim a fase de teatro &#8220;de guerrilha&#8221; do GTP.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Roberto de Souza, o &#8220;Fr\u00f3es&#8221;, ingressava no grupo bem nesse per\u00edodo, em 1970. Conta o engenheiro civil que a rotina dos atores do grupo agora se baseava em cria\u00e7\u00f5es coletivas. &#8220;O grupo se juntava e elegia um certo tema, em geral um que pegasse a situa\u00e7\u00e3o que a universidade vivia, ou que o pa\u00eds vivia&#8221;, explica Fr\u00f3es.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><em>Por que n\u00e3o? <\/em>\u00e9 um exemplo de uma pe\u00e7a criada naquele ano e que sintetiza essa nova filosofia do grupo. A princ\u00edpio sobre a hist\u00f3ria da M\u00fasica Popular Brasileira, a obra passa por grandes fases, como a Bossa Nova e a Tropic\u00e1lia, mas n\u00e3o deixa de tecer um paralelo com os momentos pol\u00edticos pelos quais o pa\u00eds passava e que impulsionaram cada movimento.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A pe\u00e7a foi o primeiro trabalho do grupo que Roberto Peixoto, conhecido como &#8220;Gigio&#8221;, presenciou. Calouro da Poli em 1972, Gigio assistiu a <em>Por que n\u00e3o?<\/em> em uma apresenta\u00e7\u00e3o para os bixos pouco antes de entrar para o GTP, e se lembra da pe\u00e7a at\u00e9 hoje, mencionando um dado momento que o marcou: quando os atores reproduziram a capa do disco <em>Tropicalia ou Panis et Circencis<\/em> em um painel.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Epis\u00f3dio semelhante tamb\u00e9m viria a acontecer com Ary Perez no ano seguinte. &#8220;Na recep\u00e7\u00e3o dos calouros eu assisti uma pe\u00e7a do GTP e eu fiquei impressionado. Se chamava <em>Letargia<\/em>, no sentido da situa\u00e7\u00e3o que a gente estava vivendo na \u00e9poca&#8221;, conta o ent\u00e3o estudante de engenharia civil que entraria no grupo e s\u00f3 sairia em 1976.<\/p>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-image\"><figure class=\"aligncenter size-large\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"720\" height=\"720\" src=\"http:\/\/paineira.usp.br\/cje\/babel\/wp-content\/uploads\/2020\/06\/Bruno-Menezes-Caio-Mattos-e-Pedro-Vittorio-11.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-105\" srcset=\"https:\/\/babel.eca.usp.br\/wp-content\/uploads\/2020\/06\/Bruno-Menezes-Caio-Mattos-e-Pedro-Vittorio-11.jpg 720w, https:\/\/babel.eca.usp.br\/wp-content\/uploads\/2020\/06\/Bruno-Menezes-Caio-Mattos-e-Pedro-Vittorio-11-300x300.jpg 300w, https:\/\/babel.eca.usp.br\/wp-content\/uploads\/2020\/06\/Bruno-Menezes-Caio-Mattos-e-Pedro-Vittorio-11-150x150.jpg 150w\" sizes=\"auto, (max-width: 720px) 100vw, 720px\" \/><figcaption>Fr\u00f3es durante uma apresenta\u00e7\u00e3o de Letargia no Campus da Unicamp em 1973. [Acervo Roberto de Souza]<\/figcaption><\/figure><\/div>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Nestes primeiros anos da d\u00e9cada de 70, o que havia de mais tradicional no fazer teatral acabou sendo deixado de lado para favorecer a mensagem e a impress\u00e3o que aquele grupo de jovens estudantes queria deixar marcados nos outros colegas universit\u00e1rios. N\u00e3o havia mais a figura do diretor acima dos atores, n\u00e3o havia mais palco: onde houvesse pessoas para ouvirem suas esquetes originais era onde se apresentavam, \u00e0s vezes com menos do que uma corda para delimitar o espa\u00e7o usado.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Mas n\u00e3o foi apenas com suas obras teatrais que o GTP agitou a vida pol\u00edtica na universidade naqueles anos. Em 26 de maio de 1973 acontecia na pr\u00f3pria Poli o famoso show do Gilberto Gil, com a rec\u00e9m composta m\u00fasica <em>C\u00e1lice<\/em>. O evento foi um marco para o movimento estudantil, sendo assunto frequente dos uspianos na \u00e9poca, como retratado no livro <em>Cale-se<\/em>, de Caio T\u00falio Costa.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">E o GTP? Bem, parte da eterniza\u00e7\u00e3o do show na mente daqueles alunos se deve ao fato de o \u00e1udio ter sido gravado e transformado em fitas, que ca\u00edram nas m\u00e3os dos estudantes. A grava\u00e7\u00e3o, feita com um equipamento de alto custo e alta qualidade, o gravador de rolo <em>Akai<\/em>, foi realizada por Ary e Guido Stolfi, gtpense que cuidava das partes mais t\u00e9cnicas das pe\u00e7as naquele come\u00e7o de anos 70.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>E se elev\u00e1ssemos o n\u00edvel art\u00edstico do grupo?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O ano de 1974 abriga talvez a pe\u00e7a mais marcante para o grupo na d\u00e9cada, tanto pela sua execu\u00e7\u00e3o quanto pelo que significou para o GTP logo ap\u00f3s. O contexto social do grupo no momento era de tens\u00e3o, com o surgimento de membros que desejavam elevar o n\u00edvel art\u00edstico dos trabalhos em oposi\u00e7\u00e3o aos que eram pela perman\u00eancia das atividades pol\u00edticas mais diretas.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Maiores conflitos foram evitados com a escolha de uma pe\u00e7a que unia o melhor dos dois mundos. Se tratava da obra <em>Galileu Galilei<\/em>, do j\u00e1 mencionado Brecht, que trata sobre o famoso astr\u00f4nomo dos s\u00e9culos XVI e XVII. A interpreta\u00e7\u00e3o pelos alunos da Poli foi bastante reconhecida no meio do teatro universit\u00e1rio e rendeu praticamente uma p\u00e1gina inteira no livro <em>Cale-se<\/em>.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">De fato, a encena\u00e7\u00e3o destoava daquilo que havia sido o padr\u00e3o para o grupo nos \u00faltimos quatro anos. Era um texto pronto, ainda que a cria\u00e7\u00e3o coletiva n\u00e3o tenha sido completamente abandonada. Fr\u00f3es ainda n\u00e3o havia come\u00e7ado seu projeto de teatro na periferia \u2013 que se iniciou em 1975 \u2013 ent\u00e3o chegou a acompanhar as atividades do grupo em 1974 com alguma dist\u00e2ncia, e afirma que outras quest\u00f5es relacionadas \u00e0 adapta\u00e7\u00e3o da pe\u00e7a ainda passaram pelos dedos dos gtpenses da \u00e9poca.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Como outras diferen\u00e7as com rela\u00e7\u00e3o ao que vinha sendo feito, pode-se destacar o processo de montagem, que observou um maior grau de complexidade. A falta de dinheiro para financiar a pe\u00e7a n\u00e3o foi obst\u00e1culo para os gtpenses, que conseguiram figurino com um cunhado de Ary que desenhava alta-costura, por exemplo, e m\u00fasica ao vivo para a encena\u00e7\u00e3o com um volunt\u00e1rio do grupo de m\u00fasica da faculdade. At\u00e9 o local designado para a primeira apresenta\u00e7\u00e3o tem uma hist\u00f3ria incomum: o anfiteatro da Mec\u00e2nica, existente ainda hoje, estava em constru\u00e7\u00e3o na \u00e9poca, e o ambiente de obras acabou sendo incorporado \u00e0 cenografia da pe\u00e7a.<\/p>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-image\"><figure class=\"aligncenter size-large\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"768\" height=\"1024\" src=\"http:\/\/paineira.usp.br\/cje\/babel\/wp-content\/uploads\/2020\/06\/Bruno-Menezes-Caio-Mattos-e-Pedro-Vittorio-12.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-106\" srcset=\"https:\/\/babel.eca.usp.br\/wp-content\/uploads\/2020\/06\/Bruno-Menezes-Caio-Mattos-e-Pedro-Vittorio-12.jpg 768w, https:\/\/babel.eca.usp.br\/wp-content\/uploads\/2020\/06\/Bruno-Menezes-Caio-Mattos-e-Pedro-Vittorio-12-225x300.jpg 225w\" sizes=\"auto, (max-width: 768px) 100vw, 768px\" \/><figcaption>Primeira p\u00e1gina do programa da pe\u00e7a Galileu Galilei. [Acervo Roberto Peixoto]<\/figcaption><\/figure><\/div>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Sete anos ap\u00f3s o &#8220;Show Poli-Sedes&#8221;, quem voltava a figurar em um espet\u00e1culo do GTP era o m\u00fasico Geraldo Vandr\u00e9, mas desta vez apenas como espectador de <em>Galileu Galilei<\/em>. Esta \u00e9poca, inclusive, compreende um per\u00edodo enigm\u00e1tico na vida de Vandr\u00e9, cuja mudan\u00e7a de comportamento ap\u00f3s o ex\u00edlio em 1968 inspirou os mais diversos rumores na popula\u00e7\u00e3o brasileira. A pe\u00e7a emocionou e arrancou algumas l\u00e1grimas do m\u00fasico, lembra Ary, mas \u00e9 Gigio quem tem a mem\u00f3ria mais curiosa sobre o caso: &#8220;Ele queria que a gente fosse apresentar a pe\u00e7a na frente do Quartel General do Ex\u00e9rcito, l\u00e1 no Ibirapuera. A gente ficou sem saber exatamente o que ele queria dizer com isso&#8221;, conta entre risos.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Com o sucesso de <em>Galileu Galilei<\/em>, a discuss\u00e3o sobre os rumos art\u00edsticos que o grupo deveria tomar voltou com mais for\u00e7a. Os mesmos dois lados se chocaram e, desta vez, uma esp\u00e9cie de cis\u00e3o aconteceu, originando um grupo dissidente naquele ano de 1975. Rodolfo Casc\u00e3o \u2013 antes apelido e hoje legalmente parte de seu nome \u2013 era integrante do GTP desde 1972 e relembra que o ocorrido se restringiu apenas a alguns membros, ele incluso, que decidiram se reunir e praticar um teatro mais experimental.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&#8220;N\u00f3s fomos pra essa linguagem metaf\u00f3rica do teatro do absurdo e nos batizamos de GTP do B, brincando com uma &#8216;cis\u00e3o'&#8221;, explica Casc\u00e3o. Essa vertente do teatro a que se refere surgiu depois da Segunda Guerra Mundial, e se fazia de abordagens inusitadas de situa\u00e7\u00f5es cotidianas para atacar a quest\u00e3o do existencialismo humano.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O ponto alto do grupo experimental provavelmente veio com <em>A Sala dos Espelhos<\/em>, uma esp\u00e9cie de colet\u00e2nea com cenas de pe\u00e7as emblem\u00e1ticas do teatro do absurdo. A encena\u00e7\u00e3o chegou a ser divulgada atrav\u00e9s de uma nota pela <em>Folha de S. Paulo<\/em> em 8 de novembro de 1975, e possu\u00eda um texto que englobava <em>As Criadas<\/em>, do franc\u00eas Jean Genet, <em>Esperando Godot<\/em>, do irland\u00eas Samuel Beckett, <em>Picnic no Front<\/em>, do espanhol Fernando Arrabal, e <em>Os Rinocerontes<\/em>, do romeno Eug\u00e8ne Ionesco.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Poucos meses depois chegou o ano de 1976 e com ele veio a sa\u00edda de Casc\u00e3o da Poli, que concluiu a faculdade e foi morar no Mato Grosso, sem nunca mais ter contato com o GTP por causa disso. Mesmo assim, o ex-membro \u00e9 fundador do grupo art\u00edstico Parangol\u00e9 Arte, e enxerga um pouco do GTP neste e em outros projetos seus que utilizam a arte e o teatro como instrumentos de mobiliza\u00e7\u00e3o social.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Sem mais rastros de integrantes ou notas em grandes jornais e textos da pr\u00f3pria universidade, a situa\u00e7\u00e3o do GTP do B a partir de 1976 \u00e9 enigm\u00e1tica. A aus\u00eancia de men\u00e7\u00f5es nos relatos de membros do GTP &#8220;principal&#8221; nos anos que se seguem parece indicar um desaparecimento do grupo, com um \u00fanico recorte de jornal apontando poss\u00edveis resqu\u00edcios de teatro experimental na Poli em 1980.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Da conquista da vela \u00e0 queda da arca<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Dentre os cerca de 85 mil habitantes do distrito paulistano da Vila Nova Cachoeirinha na d\u00e9cada de 1970, estava Rubens Lazarini\u2026 \u201cNa verdade, sou o Cachoeira. Rubens, s\u00f3 na burocracia. Se me chamar de Rubens, vou achar que falo com um credor\u201d, ressalta Lazarini at\u00e9 hoje. Cachoeira, munido de sua juba e barba naturais da Zona Norte, era um pav\u00e3o para os tigres das turmas da Escola Polit\u00e9cnica de 1975 e antes, que o receberam no trote dos calouros de 1976.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Cachoeira, ap\u00f3s sobreviver a \u201cimbecilidade\u201d do trote, avistou, ainda no dia de sua matr\u00edcula, a oportunidade de participar da produ\u00e7\u00e3o de uma esquete de teatro para a recep\u00e7\u00e3o de sua pr\u00f3pria turma polit\u00e9cnica. \u201cO GTP ainda estava se recriando ap\u00f3s o racha de 1975\u201d, contextualiza Cachoeira. Ele, que nunca subira em um palco e que n\u00e3o abandonar\u00e1 os holofotes desde ent\u00e3o, ser\u00e1 o protagonista da primeira pe\u00e7a do GTP desde <em>Galileu Galilei<\/em>.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Enquanto Cachoeira d\u00e1 seus primeiros respiros na atmosfera da pequena burguesia, que n\u00e3o se resume aos 9,9 quil\u00f4metros ou 22 minutos de condu\u00e7\u00e3o de \u00f4nibus entre a Vila Nova Cachoeirinha e a Cadop\u00f4, o dramaturgo peruano Lino Rojas completa um ano de resid\u00eancia na cidade de S\u00e3o Paulo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Vindo do Instituto Superior de Arte Dram\u00e1tica de Lima, a exatos 4.388 quil\u00f4metros ou 63 horas de viagem pela estrada, Lino \u00e9 contratado e remunerado para monitorar o GTP entre 1976 e 1977. Ap\u00f3s treinar o grupo em fundamentos da ocupa\u00e7\u00e3o de espa\u00e7o e da a\u00e7\u00e3o e rea\u00e7\u00e3o, Lino comanda os ensaios para <em>O Rei da Vela<\/em>, do paulistano Oswald de Andrade, a ser apresentado entre 1977 e 1978.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Os ensaios para <em>O Rei da Vela <\/em>se concentraram no mezanino da Cadop\u00f4, acima do sal\u00e3o e refeit\u00f3rio, onde eram sediados no primeiro andar as Chacrinhas, que eram festas de m\u00fasica disco, e os bailes de forr\u00f3 nos finais de semana. O mezanino, visualiza Carlos Freitas, que foi morador da Cadop\u00f4 entre 1975 e 1977, era \u201cnebuloso\u201d visto que \u201cn\u00e3o havia nada l\u00e1 para os moradores fazerem.\u201d O \u00fanico caminho ao mezanino era uma escada interna pelo sal\u00e3o do primeiro andar. Vidro permite a entrada de luz no mezanino, nenhuma janela.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O mezanino era composto por um espa\u00e7o aberto, grande o suficiente para se encenar uma pe\u00e7a, e por pelo menos uma \u201csala de reuni\u00e3o\u201d de 3&#215;4 ou 4&#215;5 metros, onde o GTP podia guardar adere\u00e7os e figurinos, a Sala do GTP. A exist\u00eancia de outras salas de reuni\u00e3o no mezanino \u00e9 poss\u00edvel, busca Freitas em sua mem\u00f3ria. Al\u00e9m, em um dos cantos do mezanino, havia alguns dep\u00f3sitos de 1&#215;2 ou 2&#215;2 metros, cabines de banheiro sem vaso, onde se acumulavam baratas devido \u00e0s marmitas de moradores da Cadop\u00f4 ali deixadas, ali esquecidas.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Dividindo a cena do mezanino com outras entidades, como a Campanha Paula Souza de Alfabetiza\u00e7\u00e3o de Adultos, a<strong> <\/strong>Sala do GTP comportava, descreve M\u00e1rio Salerno, que atuou em <em>O Rei da Vela<\/em>, \u201ccadeira, mesa e uma esp\u00e9cie de salinha\u201d, onde o grupo guardava figurinos e adere\u00e7os. Cachoeira chegou a se abrigar na Sala da GTP em um per\u00edodo entre 1976 e 1977 como um dos n\u00e3o contabilizados moradores infiltrados da Cadop\u00f4, que acolhia no papel apenas estudantes da Poli vindos do interior.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A 51,7 quil\u00f4metros a oeste da Cadop\u00f4 ou 50 minutos de carro pela Rodovia Castelo Branco, na cidade de Ara\u00e7ariguama (SP), o s\u00edtio da fam\u00edlia de J\u00falio Rodrigues, outro integrante do grupo, tamb\u00e9m serviu de espa\u00e7o para ensaios. Dentro de seus 10 alqueires, ou 24,2 hectares, o elenco de <em>O Rei da Vela<\/em> concentravam por dias em seus personagens para al\u00e9m das p\u00e1ginas do roteiro de Oswald de Andrade. Plateia sem parterre, agregados presentes nas viagens ao s\u00edtio enriqueciam os personagens, escritos pelo poeta modernista em 1933, no universo da contracultura.<\/p>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-image\"><figure class=\"aligncenter size-large\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"580\" height=\"392\" src=\"http:\/\/paineira.usp.br\/cje\/babel\/wp-content\/uploads\/2020\/06\/Bruno-Menezes-Caio-Mattos-e-Pedro-Vittorio-13.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-107\" srcset=\"https:\/\/babel.eca.usp.br\/wp-content\/uploads\/2020\/06\/Bruno-Menezes-Caio-Mattos-e-Pedro-Vittorio-13.jpg 580w, https:\/\/babel.eca.usp.br\/wp-content\/uploads\/2020\/06\/Bruno-Menezes-Caio-Mattos-e-Pedro-Vittorio-13-300x203.jpg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 580px) 100vw, 580px\" \/><figcaption>Membros do GTP no s\u00edtio da fam\u00edlia de J\u00falio Rodrigues, em Ara\u00e7ariguama. Cachoeira aparece no centro da foto, de sunga. Outros membros do GTP presentes na foto. Da esquerda \u00e0 direita: o primeiro \u00e9 Luiz Fernando \u201cCuri\u00f3\u201d Di Pierro, a terceira \u00e9 Renata Melo e o quinto \u00e9 Celso Carvalho. [Acervo J\u00falio Rodrigues]&nbsp;<\/figcaption><\/figure><\/div>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><em>O Rei da Vela<\/em> estreou no mezanino da Cadop\u00f4 em 1977. Freitas, que, \u00e0 \u00e9poca da apresenta\u00e7\u00e3o, morava quatro andares acima do palco, se recorda da repercuss\u00e3o da pe\u00e7a, que, embora n\u00e3o fosse \u00e0s reuni\u00f5es pol\u00edticas da A\u00e7\u00e3o Popular e outros movimentos e partidos de esquerda recorrentes na Cadop\u00f4, poderia chamar a aten\u00e7\u00e3o dos tr\u00eas moradores suspeitos por ele de espionar para o DOPS. Cerca de outras duas a seis apresenta\u00e7\u00f5es do espet\u00e1culo teriam ocorrido at\u00e9 meados de 1978, em especial no Centro Acad\u00eamico Oswaldo Cruz, da Faculdade de Medicina da Universidade de S\u00e3o Paulo, e na Escola Polit\u00e9cnica.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O espet\u00e1culo foi apresentado em uma vers\u00e3o reduzida por Lino para comportar o elenco de apenas cerca de 10 a 12 atores. Al\u00e9m de Cachoeira, Salerno e J\u00falio, atuaram tamb\u00e9m na pe\u00e7a os polit\u00e9cnicos Celso Carvalho, Luiz Fernando Di Pierro, conhecido como Curi\u00f3, Celso Carvalho e a estudante da Faculdade de Odontologia da USP e namorada de J\u00falio, Renata Melo.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Al\u00e9m de cortes no roteiro original, o peruano elaborou um sistema de rota\u00e7\u00e3o no qual os integrantes do grupo trocavam de pap\u00e9is at\u00e9 mesmo durante o decorrer da cena, o que permitiu que n\u00e3o apenas Cachoeira, mas Salerno tamb\u00e9m interpretasse Abelardo, o protagonista da hist\u00f3ria. A J\u00falio, que nunca escondeu sua prefer\u00eancia pela escrita de roteiro \u00e0 atua\u00e7\u00e3o, se tornando at\u00e9 mesmo documentarista anos depois, restava \u201cinterpretar abajures\u201d. Em uma apresenta\u00e7\u00e3o, por\u00e9m, J\u00falio, no papel de um gar\u00e7om de festa que n\u00e3o teme a quarta parede, conquistou o p\u00fablico ao lhe servir bebida.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O grupo se dispersou ap\u00f3s as apresenta\u00e7\u00f5es<strong> <\/strong>de <em>O Rei da Vela<\/em>. Embora tivesse conclu\u00eddo seus estudos na Poli ainda em 1977, J\u00falio permaneceu no grupo no decorrer de 1978 junto a Renata. O casal, entre 1978 e 1979, sai do grupo para montar um projeto de teatro independente sem nome, apenas o objetivo de cr\u00edtica \u00e0s milit\u00e2ncias que fossem dogmatistas. Como J\u00falio explica, \u201ctodos n\u00f3s \u00e9ramos de esquerda, mas est\u00e1vamos de saco cheio do dogmatismo.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Ap\u00f3s a sa\u00edda de J\u00falio e Renata, os remanescentes Cachoeira, Salerno e Lino se juntaram a Freitas e a outros grupos de teatro independente e at\u00e9 mesmo m\u00fasicos para apresentar <em>A Padaria<\/em>, de Bertolt Brecht. Os ensaios ocorreram na Cadop\u00f4 ou no Centro Acad\u00eamico XI de Agosto, da Faculdade de Direito do Largo S\u00e3o Francisco.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Os conflitos entre os remanescentes do GTP, que almejavam ao teatro engajado, e alguns dos outros membros da equipe, que exploravam na obra de Brecht uma plataforma para o in\u00edcio de uma carreira na teledramaturgia, levou ao encerramento do projeto antes mesmo de qualquer apresenta\u00e7\u00e3o pudesse se realizar. Cachoeira, Salerno, Lino e Freitas depois fundaram o pr\u00f3prio grupo de teatro independente, o Treta no Teatro, que apresentou <em>Era Uma Vez Um Rei<\/em> em 1979.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Como explica Cachoeira, que largou a Poli em 1982, e trabalha com teatro at\u00e9 hoje, os anos 1970 foram um celeiro para o teatro independente tendo em vista a arte como uma manifesta\u00e7\u00e3o de ideais, a met\u00e1fora da pol\u00edtica, que atendia menos que o com\u00edcio de um movimento, ou a reuni\u00e3o de um partido, aos gostos dos espectadores da repress\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O GTP, por\u00e9m, se escondeu por detr\u00e1s das cortinas, fotof\u00f3bico, pelo restante da d\u00e9cada. Nenhum dos quatro participantes de <em>O Rei da Vela<\/em> que foram entrevistados para a reportagem, Cachoeira, Salerno, J\u00falio e Celso, se recorda de nenhuma apresenta\u00e7\u00e3o de teatro creditada ao GTP em 1978 nem 1979.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Freitas, que, embora n\u00e3o tenha participado do grupo, morava quatro andares acima de sua sede e convivia com Cachoeira, Salerno e Lino no Treta no Teatro, afirma que o GTP se tornara uma \u201cn\u00e3o-refer\u00eancia\u201d ap\u00f3s <em>O Rei da Vela<\/em> pelo seu descompromisso com a politiza\u00e7\u00e3o. \u201cNo final da d\u00e9cada de 1970, todas as artes tinham que buscar transformar o mundo. Quem n\u00e3o fosse t\u00e3o militante n\u00e3o dava certo, e o GTP era apenas uma atividade social\u201d, analisa Freitas.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Em 23 de agosto de 1980, o jornal <em>Folha de S. Paulo<\/em> publica na se\u00e7\u00e3o de cultura<br>&#8220;Acontece&#8221;<em> <\/em>um informe para a apresenta\u00e7\u00e3o de \u201c<em>A Arca de No\u00e9<\/em>, pelo GTP (Grupo de Teatro da Poli), formado por alunos da Escola Polit\u00e9cnica\u201d. A pe\u00e7a, segundo o jornal, foi uma cria\u00e7\u00e3o colaborativa do pr\u00f3prio grupo e seria apresentada no mesmo dia \u00e0s 20h, entrada franca no \u201cSal\u00e3o do Teatro Experimental Universit\u00e1rio da Poli\u201d, na Cidade Universit\u00e1ria ao lado do \u201cCiclo B\u00e1sico\u201d. Outro informe sem nenhuma altera\u00e7\u00e3o foi publicado no jornal sete dias depois.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Perdidos no dil\u00favio, nenhum participante nem espectador das duas apresenta\u00e7\u00f5es de <em>A Arca de No\u00e9<\/em> em agosto de 1980 foi encontrado. Um roteiro de quatro p\u00e1ginas intitulado<em> A Arca de No\u00e9<\/em>, baseado em um homem chamado Mike Berger, circulava, por\u00e9m, pela Poli na d\u00e9cada de 1970. No texto, ainda est\u00e1 escrito como \u201cRevis\u00e3o de gerenciamento\u201d o nome de Guilherme Ary Plonski, que se formara em Engenharia Qu\u00edmica pela institui\u00e7\u00e3o em 1971 e estudava no mestrado da Engenharia de Produ\u00e7\u00e3o at\u00e9 conclu\u00ed-lo, em 1979.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Uma adapta\u00e7\u00e3o da par\u00e1bola da B\u00edblia para a com\u00e9dia, o roteiro \u00e9 uma cr\u00edtica \u00e0 burocracia, e descreve Absal\u00e3o como o \u201ccoordenador do projeto\u201d Arca, enquanto que No\u00e9, transformado em \u201cengenheiro naval\u201d, \u00e9 o \u201ct\u00e9cnico\u201d. Ao final da hist\u00f3ria, Absal\u00e3o envia uma carta ao Senhor: \u201cdificuldades com o projetista atrasaram o projeto! solicito prorroga\u00e7\u00e3o do prazo\u201d. O pedido, por\u00e9m, lhe \u00e9 negado.<\/p>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-image\"><figure class=\"aligncenter size-large\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"510\" height=\"188\" src=\"http:\/\/paineira.usp.br\/cje\/babel\/wp-content\/uploads\/2020\/06\/Bruno-Menezes-Caio-Mattos-e-Pedro-Vittorio-14.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-108\" srcset=\"https:\/\/babel.eca.usp.br\/wp-content\/uploads\/2020\/06\/Bruno-Menezes-Caio-Mattos-e-Pedro-Vittorio-14.jpg 510w, https:\/\/babel.eca.usp.br\/wp-content\/uploads\/2020\/06\/Bruno-Menezes-Caio-Mattos-e-Pedro-Vittorio-14-300x111.jpg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 510px) 100vw, 510px\" \/><figcaption>Recorte do jornal Folha de S. Paulo sobre a apresenta\u00e7\u00e3o de A Arca de No\u00e9 pelo GTP em 23 de agosto de 1980.<\/figcaption><\/figure><\/div>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>O Eclipse ap\u00f3s o dil\u00favio<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">As cortinas do GTP permaneceram fechadas, se elas ainda existissem, ap\u00f3s aquele 30 de agosto por pelo menos oito anos, 11 meses e 28 dias. Nesse per\u00edodo, a 7.681 quil\u00f4metros da Universidade de S\u00e3o Paulo, a Broadway apresentou 412 espet\u00e1culos. A Am\u00e9rica Latina, espectadora silenciada, aplaudiu \u00e0 queda de seis ditaduras, Ronald Reagan assume o papel de presidente dos Estados Unidos e protagoniza a Guerra Fria, as reformas pol\u00edtico-econ\u00f4micas Perestroika e a Glasnost entram em cena na Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica sob a dire\u00e7\u00e3o do secret\u00e1rio-geral do Partido Comunista sovi\u00e9tico, Mikhail Gorbatchev. E, em 1985, o paulistano Jos\u00e9 Alberto Orsi ingressa na Escola Polit\u00e9cnica da USP.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Vindo da Escola Panamericana de Arte e de uma fam\u00edlia de importadores de porcelana, Orsi entrou no curso de Engenharia Civil em um per\u00edodo de pouco registro e ainda menos recorda\u00e7\u00e3o de atividades art\u00edsticas na Poli. Caloura de Orsi, Kemie Guerra, da turma de Engenharia Civil de 1988, se lembra apenas de uma atividade de lazer dentre os alunos do seu curso: a \u201cSess\u00e3o Branca de Neve\u201d, que era uma exibi\u00e7\u00e3o de cinema pornogr\u00e1fico.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Em 1988, o funcionalismo p\u00fablico entra em greve despertada pela gest\u00e3o pol\u00edtica do governador, Orestes Qu\u00e9rcia, para o reajuste autom\u00e1tico dos sal\u00e1rios pela infla\u00e7\u00e3o. A greve, que resultar\u00e1 no decreto de autonomia financeira e administrativa das tr\u00eas universidades estaduais de S\u00e3o Paulo, levou \u00e0 paralisa\u00e7\u00e3o das atividades da Poli por cerca de dois a tr\u00eas meses no segundo semestre daquele ano.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Durante a greve, Orsi passou aquele tempo no Museu Lasar Segall e na Pinacoteca de S\u00e3o Paulo, onde voltou a se aproximar do desenho, arte pelo qual sempre teve maior afinidade. Ele n\u00e3o se concentrava em desenhar desde que, por ter passado na Fuvest, recusou uma oferta de emprego na Maur\u00edcio de Sousa Produ\u00e7\u00f5es. Seu reencontro com a arte n\u00e3o se restringiria, por\u00e9m, a apenas \u00e0 Rua Berta n\u00ba 111 e \u00e0 Pra\u00e7a da Luz n\u00ba 2.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Orsi, desiludido com o fato de n\u00e3o conseguir um est\u00e1gio na \u00e1rea de planejamento urbano e patrim\u00f4nio hist\u00f3rico, decide promover manifesta\u00e7\u00f5es art\u00edsticas pela Poli ao longo de 1989. Ele convocou o ent\u00e3o \u201ccampe\u00e3o sul-americano de m\u00e1gica<strong>\u201d<\/strong>, Haroldo Issao Imamura, que estudava desde 1988 Direito no Largo S\u00e3o Francisco, para apresentar um espet\u00e1culo em 2 de junho entre as 11h30 e 13h sob a sinfonia da dupla de violinistas S\u00edlvio Pelizar e Alexandre Xavier da Cunha. Na vis\u00e3o de Orsi, a \u201cTarde Perform\u00e1tica\u201d se revelou um prel\u00fadio para a Semana de Arte.<strong>&nbsp;<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A fim de auferir recursos para a produ\u00e7\u00e3o de um festival de arte \u201cpara toda a Universidade de S\u00e3o Paulo\u201d, Orsi percutira a porta da sala do Gr\u00eamio Polit\u00e9cnico<strong>,<\/strong> no primeiro andar do Pr\u00e9dio do Bi\u00eanio, por dois meses. E percutiu, e percutiu, e percutiu, e percutiu e percutiu\u2026 S\u00edncope!, quando o ent\u00e3o presidente do Gr\u00eamio, Jorge Jabur caminhava pelos corredores rumo a algo que n\u00e3o uma aula, afinal ele n\u00e3o se matriculou em nenhuma enquanto esteve na presid\u00eancia do Gr\u00eamio devido \u00e0s exig\u00eancias do cargo. Uma vez notado por Orsi nos corredores, restava a Jabur passar por um teste de paci\u00eancia.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u201cComo bom aluno de Exatas, eu n\u00e3o priorizava artes naquele momento\u201d, diz Jabur, que era da turma de Engenharia Civil de 1986. Diretor de ensino do Gr\u00eamio, Roberto Falco, da turma da Engenharia Naval de 1987, se lembra que Orsi, ao ter garantido a entrada de quatro patrocinadores para a Semana de Arte, convenceu o Gr\u00eamio a apoiar a iniciativa. De fato, o Gr\u00eamio sob a presid\u00eancia de Jabur promoveu algumas iniciativas culturais, dentre elas um clube de disco de vinil e um concurso de graffiti, at\u00e9 o final de 1989.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Mas o legado cultural daquela gest\u00e3o do Gr\u00eamio, e daquela d\u00e9cada, na Poli foi a \u201cSemana de Arte\u201d, financiada com recursos do Gr\u00eamio e dos patrocinadores, o suor de dois meses de insist\u00eancia de Orsi e a viabilidade de se montar um evento art\u00edstico na Poli, como comprovou a Tarde Perform\u00e1tica.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Envolvendo apresenta\u00e7\u00f5es art\u00edsticas, como a pintura, o cinema e a m\u00fasica, a Semana de Arte \u00e9 inaugurada em 28 de agosto. A Semana de Arte contou principalmente com apresenta\u00e7\u00f5es art\u00edsticas dos pr\u00f3prios polit\u00e9cnicos, recorda Kemie, como o Alexandre Guerra, que tocou o saxofone ao lado da est\u00e1tua do soldado constitucionalista, no pr\u00e9dio da Engenharia Civil.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Dentre os artistas polit\u00e9cnicos a se apresentar na Semana de Arte, estava Jo\u00e3o Carlos Rocha Campos, da turma da Engenharia Civil de 1988. Rocha Campos, ou Johnny como era conhecido, prop\u00f4s a apresenta\u00e7\u00e3o de uma pe\u00e7a de teatro baseada na hist\u00f3ria de <em>O Beijo da Mulher Aranha<\/em>, livro do escritor argentino Manuel Puig e cuja adapta\u00e7\u00e3o para o cinema rendeu ao cineasta argentino-brasileiro Hector Babenco uma indica\u00e7\u00e3o \u00e0 Palma de Ouro em 1985. F\u00e3 do livro, Johnny tinha em mente ainda apenas a premissa da pe\u00e7a.<\/p>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-image\"><figure class=\"aligncenter size-large\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"1024\" height=\"487\" src=\"http:\/\/paineira.usp.br\/cje\/babel\/wp-content\/uploads\/2020\/06\/Bruno-Menezes-Caio-Mattos-e-Pedro-Vittorio-15-1024x487.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-109\" srcset=\"https:\/\/babel.eca.usp.br\/wp-content\/uploads\/2020\/06\/Bruno-Menezes-Caio-Mattos-e-Pedro-Vittorio-15-1024x487.jpg 1024w, https:\/\/babel.eca.usp.br\/wp-content\/uploads\/2020\/06\/Bruno-Menezes-Caio-Mattos-e-Pedro-Vittorio-15-300x143.jpg 300w, https:\/\/babel.eca.usp.br\/wp-content\/uploads\/2020\/06\/Bruno-Menezes-Caio-Mattos-e-Pedro-Vittorio-15-768x365.jpg 768w, https:\/\/babel.eca.usp.br\/wp-content\/uploads\/2020\/06\/Bruno-Menezes-Caio-Mattos-e-Pedro-Vittorio-15.jpg 1280w\" sizes=\"auto, (max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" \/><figcaption>Recorte de reportagem do jornal O Estado de S. Paulo sobre a Semana de Arte. Da esquerda para a direita: o primeiro \u00e9 Dan Stulbach, o segundo \u00e9 Roberto Falco, o terceiro \u00e9 Jo\u00e3o Carlos Rocha Campos, o quinto \u00e9 Jorge Jabur, a nona \u00e9 Kemie Guerra.<\/figcaption><\/figure><\/div>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Na montagem dessa pe\u00e7a, a primeira de um grupo de teatro composto majoritariamente por estudantes da Poli desde a <em>Arca de No\u00e9<\/em>, havia oito anos, 11 meses e 28 dias at\u00e9 a inaugura\u00e7\u00e3o da Semana de Arte, estiveram presentes cerca de dez pessoas. Atuaram Johnny,<strong> <\/strong>Fernando Piraj\u00e1, turma de Engenharia Civil de 1988, Rita Cristina Cantoni, turma de Engenharia Civil de 1989. Orsi e Falco tamb\u00e9m atuaram no espet\u00e1culo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A dire\u00e7\u00e3o da pe\u00e7a se dividiu principalmente entre Sergio Rosenberg Aratangy, da turma de Engenharia El\u00e9trica de 1988, e dois integrantes do grupo que n\u00e3o eram estudantes da Poli, Paulo Falzoni e Dan Stulbach, ambos do curso de Comunica\u00e7\u00e3o Social da ESPM. Falzoni, conhecido como Coruja, e Dan foram apresentados ao grupo por Johnny. Dan, que tamb\u00e9m estudava na Escola de Arte Dram\u00e1tica da ECA, dirigira <em>O \u00daltimo Julgamento<\/em>, pe\u00e7a autoral, com um grupo de teatro da ESPM incluindo Coruja, al\u00e9m de Johnny, que tocava o piano.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O Grupo de Teatro da Poli realizou uma s\u00e9rie de pelo menos seis ensaios no pr\u00e9dio do Bi\u00eanio, e mais alguns nas casas dos pr\u00f3prios integrantes \u2014 dentre eles<strong> <\/strong>Aratangy, que morava atr\u00e1s do Cemit\u00e9rio do Ara\u00e7\u00e1 e era o \u00fanico da turma com um computador, um Apple II, com o qual todos os integrantes do grupo puderam desenvolver a ideia de Johnny de uma pe\u00e7a de teatro baseada em <em>O Beijo da Mulher Aranha<\/em>.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><em>Eclipse<\/em>, como a pe\u00e7a foi batizada, acompanha o di\u00e1logo entre dois prisioneiros, que ruminam sobre, dentre diversos temas, a vida e sua transitividade. \u201cTem a ver com mudan\u00e7a, com passagem, que \u00e9 exatamente o que est\u00e1vamos vivendo\u201d, diz Dan em refer\u00eancia n\u00e3o apenas \u00e0 maioridade dos integrantes do grupo, que cercavam os 20 anos de idade, mas ao pa\u00eds, cuja Constitui\u00e7\u00e3o Federal ainda nem completara um ano de exist\u00eancia.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Protagonistas, Johnny e Piraj\u00e1 interpretam os dois prisioneiros, respectivamente o \u201cvelho\u201d e o \u201cjovem\u201d, a cela \u00e0 qual ambos estavam confinados, por\u00e9m, se restringia a apenas, como descreve Piraj\u00e1, \u201cuma pequena parte lateral\u201d. Todo o restante era ocupado pelos&nbsp; outros atores em suas interpreta\u00e7\u00f5es das hist\u00f3rias contadas pelos dois prisioneiros.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Em uma dessas cenas, que ainda permanece na mem\u00f3ria n\u00e3o apenas dos integrantes do grupo, mas tamb\u00e9m de Kemie, presente na plateia, Rita dan\u00e7a sob um jogo de luzes que exp\u00f5em apenas a sua silhueta como se estivesse nua ao som de <em>The Great Gig in the Sky<\/em>, da banda brit\u00e2nica de rock progressivo Pink Floyd em parceria com a cantora brit\u00e2nica Clare Torry. Na cena final, outra m\u00fasica do mesmo \u00e1lbum, <em>The Dark Side of The Moon<\/em>, tamb\u00e9m chamada <em>Eclipse<\/em>, \u00e9 adaptada e declamada pelo elenco.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Nos bastidores, para Johnny, \u00e9 a cena inicial da pe\u00e7a aquela que ele guarda para si desde ent\u00e3o. Ele estava previsto para aparecer deitado antes mesmo do acender das luzes, quando o personagem de Piraj\u00e1 seria escoltado at\u00e9 a cela, iniciando a trama. A plateia, por\u00e9m, apreendeu Johnny em seu \u201cisolamento\u201d da timidez at\u00e9 receber nos bastidores a orienta\u00e7\u00e3o de Paulo Falzoni: \u201cVoc\u00ea deitar\u00e1, e ainda estar\u00e1 escuro. Conta at\u00e9 dez, e acendemos as luzes.\u201d Um, dois\u2026 A\u00e7\u00e3o! E as luzes acenderam. Johnny chama a estrat\u00e9gia de dire\u00e7\u00e3o de Paulo Falzoni de \u201cuma sacanagem bonita\u201d, e acrescenta: \u201cCome\u00e7ou. Voc\u00ea est\u00e1 no mundo do teatro e esque\u00e7a o mundo l\u00e1 fora. Ainda me lembro dessa cena sempre quando fico indeciso.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O grupo realizou pelo menos tr\u00eas apresenta\u00e7\u00f5es de <em>Eclipse<\/em> na Semana de Arte: duas no Anfiteatro da Universidade de S\u00e3o Paulo, que cerca de seis anos depois seria rebatizado de Anfiteatro Camargo Guarnieri.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Embora alguns dos integrantes do grupo permanecessem em contato pelos anos seguintes at\u00e9 meados da primeira metade da d\u00e9cada de 1990, como Piraj\u00e1 e Rita, devido \u00e0 sua proximidade com o Gr\u00eamio, nenhum dos integrantes da produ\u00e7\u00e3o de <em>Eclipse<\/em> registra em sua mem\u00f3ria outra apresenta\u00e7\u00e3o de um Grupo de Teatro da Poli desde ent\u00e3o.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Johnny n\u00e3o retornaria mais \u00e0 Escola Polit\u00e9cnica para o semestre seguinte, e nem \u00e0 Universidade de S\u00e3o Paulo por dez anos, ap\u00f3s uma viagem de mochileiro pela Europa \u2014 durante a qual ele presenciou a queda do Muro de Berlim, em 9 de novembro \u2014 consolidar seu sonho de ser escritor.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Al\u00e9m do autor da premissa de <em>Eclipse<\/em>, Dan tamb\u00e9m abandonaria a Universidade de S\u00e3o Paulo at\u00e9 o final de 1990, ap\u00f3s receber um convite para atuar na pe\u00e7a Peer Gynt. Dan j\u00e1 havia se distanciado da Escola de Arte Dram\u00e1tica devido a uma suspens\u00e3o que lhe foi imposta por um epis\u00f3dio da Semana de Arte. Dan ocupara o canteiro de obras do ent\u00e3o em constru\u00e7\u00e3o teatro da EAD, no pr\u00e9dio 7 da ECA, onde ele planejava apresentar <em>O \u00daltimo Julgamento <\/em>para a Semana de Arte.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Embora a apresenta\u00e7\u00e3o da pe\u00e7a no local tivesse sido vetada pela dire\u00e7\u00e3o da EAD devido a conflitos de hor\u00e1rio com a apresenta\u00e7\u00e3o de um professor da ECA, Johnny lembra que o espa\u00e7o foi cedido \u00e0s v\u00e9speras do espet\u00e1culo. E, assim, ele, Dan, Coruja e o restante do grupo de teatro da ESPM conseguiram apresentar <em>O \u00daltimo Julgamento<\/em>, que foi \u00fanica pe\u00e7a da Semana de Arte al\u00e9m de <em>Eclipse<\/em>.<em>&nbsp;<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Meia d\u00e9cada nos bastidores<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Ap\u00f3s cerca de tr\u00eas anos de esquecimento das atividades do GTP, um grupo de at\u00e9 oito estudantes da Poli, dentre eles Alexandre Monteiro, da turma de Engenharia Qu\u00edmica de 1991, chamaram Yaska Antunes, ent\u00e3o estudante de Letras da Faculdade de Filosofia, Letras e Ci\u00eancias Humanas, para coordenar uma nova forma\u00e7\u00e3o do grupo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Mineira, Antunes atuara profissionalmente em Belo Horizonte (MG) por seis anos at\u00e9 ingressar na Universidade de S\u00e3o Paulo, em 1990. Desde ent\u00e3o, ela s\u00f3 p\u00f4de atuar no Centro de Pesquisa Teatral do Sesc Consola\u00e7\u00e3o, na rua Dr. Vila Nova n\u00ba 245, nos dez primeiros meses de faculdade. Antunes, que morou durante quase toda sua gradua\u00e7\u00e3o em Letras no Bloco B apartamento 108 do Conjunto Residencial da Universidade de S\u00e3o Paulo (Crusp), na Cidade Universit\u00e1ria, precisou abandonar o curso do Sesc pelos 9,9 quil\u00f4metros de dist\u00e2ncia convertidos pelo decreto municipal 29.099, de 11 de outubro, em Cr$ 35,00 de condu\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Ela foi convidada a coordenar o GTP provavelmente, segundo a mineira e Monteiro, durante o primeiro semestre em 1993. Os encontros ocorriam duas vezes por semana e \u00e0s noites no Anfiteatro da Escola Polit\u00e9cnica, cuja estrutura semiaberta permitia a associa\u00e7\u00e3o entre a \u00e9poca em que o grupo se reuniu e \u201cum per\u00edodo frio\u201d na cidade de S\u00e3o Paulo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Os sete ou oito polit\u00e9cnicos aprenderam exerc\u00edcios de respira\u00e7\u00e3o, relaxamento e ensaio de texto visto que ningu\u00e9m do grupo tinha experi\u00eancia pr\u00e9via em teatro. Como Monteiro afirma, o grupo, que n\u00e3o apresentou nenhuma pe\u00e7a, era uma atividade de autoconhecimento, e n\u00e3o de profissionaliza\u00e7\u00e3o no teatro, perspectiva semelhante \u00e0 do grupo em 1989 e que perdurar\u00e1 entre outros integrantes at\u00e9 o final da d\u00e9cada de 90 pelo menos.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Monteiro abandonou o grupo em at\u00e9 seis ou oito meses para concluir sua gradua\u00e7\u00e3o, cujos cr\u00e9ditos n\u00e3o mais se concentravam na Poli, e sim no Instituto de Qu\u00edmica, a uma caminhada de seis minutos do outro lado da Avenida Professor Luciano Gualberto.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Antunes n\u00e3o retornou ao grupo depois das primeiras f\u00e9rias escolares desde que come\u00e7ou a coorden\u00e1-lo. Ela acredita, sem confirmar, ter sa\u00eddo devido a um pedido de que escrevesse uma pe\u00e7a sobre a hist\u00f3ria da Poli ou do GTP, embora n\u00e3o tivesse experi\u00eancia como dramaturga.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">De fato, em 1993, a Poli celebrou, em um evento organizado pelo Gr\u00eamio Polit\u00e9cnico, seu centen\u00e1rio. O presidente da entidade naquele ano, Alessandro Nery, n\u00e3o se recorda, por\u00e9m, de nenhuma proposta de pe\u00e7a sobre a hist\u00f3ria da Poli nem da entidade. Ao fim, o GTP n\u00e3o apresentou nenhum espet\u00e1culo naquele ano.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A divulga\u00e7\u00e3o do GTP de 1993, se existiu, n\u00e3o alcan\u00e7ou Alessandro Wilner, da turma de Engenharia El\u00e9trica de 1991, que j\u00e1 atuava no grupo de teatro da Associa\u00e7\u00e3o Hebraica desde os seus 17 anos de idade. Com a experi\u00eancia de diretor cultural do Gr\u00eamio em 1995, Fanta, como era conhecido Wilner, prop\u00f4s entre o final daquele ano e o in\u00edcio de 1996 mais uma reativa\u00e7\u00e3o do GTP, mas conseguiu atrair apenas seis<strong> <\/strong>\u201cbravas almas\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O grupo, por\u00e9m, chegaria a apresentar alguns <em>esquetes<\/em> nos Girinos, saraus mensais criados em 1996 por Mariana Mello, da turma de Engenharia de Produ\u00e7\u00e3o de 1995, servindo como compacta\u00e7\u00e3o das Semanas de Arte, que, desde 1989, s\u00e3o anuais e, em 1996, j\u00e1 eram conhecida como Semanas de Arte da Poli, as SAPOs. Nenhuma das <em>esquetes<\/em> foi registrada. Em um CD comemorativo da funda\u00e7\u00e3o do Girino, Fanta gravou uma declama\u00e7\u00e3o de <em>O Grande Ditador<\/em>, de Charles Chaplin, mas n\u00e3o como representante do GTP.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Durante as f\u00e9rias de ver\u00e3o entre 1996 e 1997, Fanta escreve <em>Perdidos no Front<\/em>, uma com\u00e9dia anti guerra, na qual quatro soldados s\u00e3o incumbidos de entregar uma encomenda de biscoitos a um sargento inimigo. Os seis integrantes do GTP ensaiaram a pe\u00e7a na sala de viv\u00eancia do Gr\u00eamio Polit\u00e9cnico, no primeiro andar do Pr\u00e9dio do Bi\u00eanio, onde eles j\u00e1 se reuniam \u00e0s noites de quinta-feira ao longo do ano anterior e realizavam exerc\u00edcios de consci\u00eancia corporal, vocaliza\u00e7\u00e3o, confian\u00e7a e improviso.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-large\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"1024\" height=\"671\" src=\"http:\/\/paineira.usp.br\/cje\/babel\/wp-content\/uploads\/2020\/06\/Bruno-Menezes-Caio-Mattos-e-Pedro-Vittorio-16-1024x671.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-110\" srcset=\"https:\/\/babel.eca.usp.br\/wp-content\/uploads\/2020\/06\/Bruno-Menezes-Caio-Mattos-e-Pedro-Vittorio-16-1024x671.jpg 1024w, https:\/\/babel.eca.usp.br\/wp-content\/uploads\/2020\/06\/Bruno-Menezes-Caio-Mattos-e-Pedro-Vittorio-16-300x197.jpg 300w, https:\/\/babel.eca.usp.br\/wp-content\/uploads\/2020\/06\/Bruno-Menezes-Caio-Mattos-e-Pedro-Vittorio-16-768x504.jpg 768w, https:\/\/babel.eca.usp.br\/wp-content\/uploads\/2020\/06\/Bruno-Menezes-Caio-Mattos-e-Pedro-Vittorio-16-1536x1007.jpg 1536w, https:\/\/babel.eca.usp.br\/wp-content\/uploads\/2020\/06\/Bruno-Menezes-Caio-Mattos-e-Pedro-Vittorio-16.jpg 1600w\" sizes=\"auto, (max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" \/><figcaption>Ensaio de Perdidos no Front. Alessandro \u201cFanta\u201d Wilner n\u00e3o est\u00e1 na foto. [Acervo Alessandro Wilner]<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-image\"><figure class=\"aligncenter size-large is-resized\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"http:\/\/paineira.usp.br\/cje\/babel\/wp-content\/uploads\/2020\/06\/Bruno-Menezes-Caio-Mattos-e-Pedro-Vittorio-17-1024x715.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-111\" width=\"867\" height=\"605\" srcset=\"https:\/\/babel.eca.usp.br\/wp-content\/uploads\/2020\/06\/Bruno-Menezes-Caio-Mattos-e-Pedro-Vittorio-17-1024x715.jpg 1024w, https:\/\/babel.eca.usp.br\/wp-content\/uploads\/2020\/06\/Bruno-Menezes-Caio-Mattos-e-Pedro-Vittorio-17-300x209.jpg 300w, https:\/\/babel.eca.usp.br\/wp-content\/uploads\/2020\/06\/Bruno-Menezes-Caio-Mattos-e-Pedro-Vittorio-17-768x536.jpg 768w, https:\/\/babel.eca.usp.br\/wp-content\/uploads\/2020\/06\/Bruno-Menezes-Caio-Mattos-e-Pedro-Vittorio-17-1536x1072.jpg 1536w, https:\/\/babel.eca.usp.br\/wp-content\/uploads\/2020\/06\/Bruno-Menezes-Caio-Mattos-e-Pedro-Vittorio-17-130x90.jpg 130w, https:\/\/babel.eca.usp.br\/wp-content\/uploads\/2020\/06\/Bruno-Menezes-Caio-Mattos-e-Pedro-Vittorio-17.jpg 1600w\" sizes=\"auto, (max-width: 867px) 100vw, 867px\" \/><figcaption>Alessandro &#8220;Fanta&#8221; Wilner, \u00e0 esquerda, e um membro do GTP de 1996. [Acervo Alessandro Wilner]<\/figcaption><\/figure><\/div>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Em meio \u00e0 aus\u00eancia de algumas das \u201cbravas almas\u201d do grupo nos ensaios, Fanta, que j\u00e1 abandonara a Escola Polit\u00e9cnica no final de 1995 e estudava Ci\u00eancia da Computa\u00e7\u00e3o no Instituto de Matem\u00e1tica e Estat\u00edstica (IME) desde o ano seguinte, optou por se retirar do GTP antes do final do primeiro semestre de 1997. A \u00faltima sobrevivente daquela forma\u00e7\u00e3o, Aur\u00e9lia Zanon, que trabalhava na secretaria e na administra\u00e7\u00e3o do Centro de Idiomas do Gr\u00eamio Polit\u00e9cnico, coordenar\u00e1 o grupo interinamente por cerca de quatro meses, e participar\u00e1 do terceiro e \u00faltimo \u201crenascimento\u201d do GTP durante a d\u00e9cada de 90 antes do final de 1997.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Entre o l\u00fadico e o espet\u00e1culo&nbsp;<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">No IntegraPoli de abril 1997, um evento de recep\u00e7\u00e3o dos calouros daquele ano com gincanas, os ent\u00e3o bixos de Engenharia El\u00e9trica Cristiano Oliveira, Erico Rigorini e Alberto Ciccone apresentaram uma <em>esquete <\/em>cujas falas dos personagens eram trechos de can\u00e7\u00f5es. Uma mulher, interpretada por uma caloura tamb\u00e9m da Engenharia El\u00e9trica, tra\u00eda seu marido, Rigorini, com o personagem de Ciccone. Oliveira, ou como seria chamado pelos futuros amigos de Crisco, tocava no viol\u00e3o a m\u00fasica das can\u00e7\u00f5es declamadas. Rigorini recapitula que, ao final da esquete, recebeu um convite para participar do GTP.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Crisco, que n\u00e3o recorda de nenhum convite para o grupo, rememora que, quando o conheceu, o GTP estava sem diretor fixo nem financiamento. O calouro violonista, ent\u00e3o, elaborou um projeto ao Gr\u00eamio Polit\u00e9cnico de pedido de verba para o GTP ap\u00f3s confabula\u00e7\u00f5es com Rigorini. Ciccone o ajudou na elabora\u00e7\u00e3o desse projeto de pedido de verba, que foi acatado pelo Gr\u00eamio.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Quando o trio ingressa no GTP, Zanon, que n\u00e3o era remunerada, conduz exerc\u00edcios de sensibiliza\u00e7\u00e3o de pegar objetos, de olhar no olho e de criatividade, os quais aprendeu com Fanta. A sala de viv\u00eancia do Gr\u00eamio permanece como local de reuni\u00e3o do grupo, e os encontros continuam a ser \u00e0s noites de quinta-feira. Depois de uma campanha de divulga\u00e7\u00e3o do grupo, por meio de cartazes desenhados por um funcion\u00e1rio do Gr\u00eamio, o grupo conseguiu cativar cerca de seis a dez pessoas, mas ainda faltava um diretor fixo e remunerado.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Entre 11 de julho e 21 de dezembro, <em>As Sereias da Zona Sul<\/em>, dirigida pelo carioca Miguel Falabella, esteve em cartaz no Teatro Hilton, na Avenida Ipiranga, n\u00ba 165. Rigorini assistiu \u00e0 com\u00e9dia, protagonizada pelas atrizes Zezeh Barbosa e Rosi Campos. Ap\u00f3s o fim da quarta e \u00faltima esquete<em> <\/em><em>N\u00e3o Se Fuma em Cingapura<\/em>, que envolvia uma poeta e uma secret\u00e1ria, Rigorini presenteia Barbosa com uma flor, e a convida para ser a primeira diretora remunerada do GTP desde o peruano Lino Rojas, em 1977. Ela aceita. A passagem de Barbosa pelo grupo, por\u00e9m, perdurar\u00e1 tanto quanto um cartaz de <em>As Sereias da Zona Sul <\/em>no dia 22 de dezembro daquele ano.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O embate entre o profissionalismo e o l\u00fadico se manifestou na dessintonia entre os recursos disponibilizados pelo Gr\u00eamio e as exig\u00eancias de Barbosa em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 sua log\u00edstica e, at\u00e9 mesmo, entre os exerc\u00edcios passados pela atriz e os membros do grupo. Zanon recorda de um exerc\u00edcio em que ela parnasianava \u201csinta o clima, sinta na sua espinha\u201d. Barbosa sai do grupo em at\u00e9 cerca de um m\u00eas. A atriz, por\u00e9m, nega a exist\u00eancia de tal conflito e, at\u00e9 mesmo, de ter dirigido o grupo. \u201cN\u00c3O, n\u00e3o trabalhei com o grupo da Poli\u2026 teria sido um prazer, mas n\u00e3o,,, \u201d, se defende Barbosa. A mem\u00f3ria da sa\u00edda de Barbosa, inevitavelmente, materializa a imagem do GTP como um grupo esquecido da Poli, e n\u00e3o uma escola de atores.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Entre o final de 1997 e o in\u00edcio de 1998, quem assume a dire\u00e7\u00e3o do grupo \u00e9 Arthur Belloni, estudante do terceiro ano da gradua\u00e7\u00e3o de Artes C\u00eanicas da Escola de Comunica\u00e7\u00f5es e Artes. De fato, o curr\u00edculo de Belloni j\u00e1 fora apresentado ao Gr\u00eamio Polit\u00e9cnico por interm\u00e9dio de uma funcion\u00e1ria das bibliotecas da Escola Polit\u00e9cnica e ex-aluna do ecano, Elaine Grava. Belloni, por\u00e9m, foi preterido \u00e0 Barbosa. Com a sa\u00edda da atriz, o ecano foi o \u00fanico a se candidatar \u00e0 dire\u00e7\u00e3o, lembra Crisco, que foi respons\u00e1vel por entrevist\u00e1-lo. \u201cTem alguns nomes que a gente est\u00e1 olhando, mas gostamos bastante do seu curr\u00edculo\u201d, disse o polit\u00e9cnico a Belloni na tentativa de impression\u00e1-lo. \u201cN\u00e3o t\u00ednhamos vergonha mesmo\u201d, brinca Crisco 22 anos ap\u00f3s aquele coment\u00e1rio.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Al\u00e9m de exerc\u00edcios t\u00e9cnicos, envolvendo posicionamento, corre\u00e7\u00e3o de postura e controle do corpo, Belloni \u00e9 rememorado pelos exerc\u00edcios de improvisa\u00e7\u00e3o e criatividade. Em um desses, recorda Crisco, os membros do grupo improvisavam cenas que se atravessavam por tr\u00e1s de um sof\u00e1. No repert\u00f3rio de Belloni, ainda havia o teatro invis\u00edvel, no qual os atores n\u00e3o explicitam ao p\u00fablico que sua a\u00e7\u00e3o \u00e9 performance.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Belloni, que manteve os encontros \u00e0s noites de quinta-feira, dirigiu apenas um espet\u00e1culo com o GTP, <em>Ida ao Teatro<\/em>. Baseada em uma esquete do comediante alem\u00e3o Karl Valentin, <em>Ida ao Teatro<\/em> trata de conflitos entre casais. A primeira apresenta\u00e7\u00e3o ocorreu no Instituto de Ci\u00eancias Astron\u00f4micas e Geof\u00edsicas (IAG), em outubro de 1998; Crisco, Rigorini, Zanon e outros oito membros atuaram. Ciccone, que se ausentou devido \u00e0 sua apendicite, retornou para uma segunda exibi\u00e7\u00e3o, na Escola Polit\u00e9cnica pelo Girino.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Em junho de 1999, Belloni sai do grupo supostamente devido a uma proposta de emprego, da qual nenhum dos membros da \u00e9poca entrevistados se recordam. Ele \u00e9 substitu\u00eddo por Lucia Lombardi, sua veterana na ECA, da turma de Artes C\u00eanicas de 1990. Em contraste a Belloni, como destaca Ciccone, ela enalteceu exerc\u00edcios de voz, respiro, e controle de diafragma.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Os encontros do GTP passaram ser duas vezes por semana semana, rememora Vitor Falleiros, da turma de Engenharia Mec\u00e2nica de 1998 e membro do grupo desde o come\u00e7o de 1999. Al\u00e9m disso, o processo de reforma das instala\u00e7\u00f5es do Gr\u00eamio Polit\u00e9cnico, iniciado em 1999 instigou o GTP a alternar seus locais de ensaio, consolidados na sala de viv\u00eancia do Gr\u00eamio havia tr\u00eas anos, quando Fanta era o diretor do grupo. O grupo chegou a ensaiar na parte lateral do t\u00e9rreo do Pr\u00e9dio do Bi\u00eanio, dentre outros espa\u00e7os.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Pelo menos dois membros fundadores do terceiro \u201crenascimento\u201d do GTP se despediram do grupo antes mesmo da chegada de Lombardi, Zanon e Rigorini, este em busca de um est\u00e1gio na \u00e1rea de Engenharia de Telecomunica\u00e7\u00f5es, em alta desde a pol\u00edtica de privatiza\u00e7\u00f5es do governo Fernando Henrique Cardoso. Mesmo assim, o GTP dobrou o n\u00famero de membros no decorrer de 1999.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Como lembra Falleiros, naquele ano, o grupo se abriu para pessoas de fora da Poli, possibilitando a entrada de integrantes como M\u00e1rcio Baptista, conhecido como Sabugo, \u00e0 \u00e9poca formado em desenho industrial pela Faculdade de Belas Artes de S\u00e3o Paulo, que primeiro fora convidado a participar do GTP ainda na Semana de Arte da Poli de 1998, por Rigorini. \u201cQuanto mais foi abrindo, mais veio gente com inten\u00e7\u00f5es diferentes no teatro, incluindo pessoas com planos de longo prazo para seguir uma carreira no teatro, al\u00e9m de quem veio para desestressar ou para encontrar garotas\u201d, acredita Falleiros. Ap\u00f3s sua passagem pelo GTP, Falleiros chegou a seguir a carreira profissional de ator.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A fim de acomodar um elenco de 22 atores, Lombardi adapta a com\u00e9dia <em>O Inspetor Geral<\/em>, do dramaturgo e escritor russo Nikolai Gogol, ao contexto da corrup\u00e7\u00e3o em uma cidade fict\u00edcia no interior do Brasil, batizada de Furafil\u00f3polis, em refer\u00eancia \u00e0 Expresso Tiradentes, ent\u00e3o conhecida como Fura-Fila, obra rodovi\u00e1ria da cidade de S\u00e3o Paulo cuja constru\u00e7\u00e3o fora iniciada pelo prefeito Celso Pitta no ano anterior. <em>O Fiscal<\/em>, como se chama a pe\u00e7a, teve uma apresenta\u00e7\u00e3o \u00fanica em 21 de setembro, na Semana de Arte da Poli.<\/p>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-image\"><figure class=\"aligncenter size-large\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"700\" height=\"479\" src=\"http:\/\/paineira.usp.br\/cje\/babel\/wp-content\/uploads\/2020\/06\/Bruno-Menezes-Caio-Mattos-e-Pedro-Vittorio-18.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-112\" srcset=\"https:\/\/babel.eca.usp.br\/wp-content\/uploads\/2020\/06\/Bruno-Menezes-Caio-Mattos-e-Pedro-Vittorio-18.jpg 700w, https:\/\/babel.eca.usp.br\/wp-content\/uploads\/2020\/06\/Bruno-Menezes-Caio-Mattos-e-Pedro-Vittorio-18-300x205.jpg 300w, https:\/\/babel.eca.usp.br\/wp-content\/uploads\/2020\/06\/Bruno-Menezes-Caio-Mattos-e-Pedro-Vittorio-18-130x90.jpg 130w\" sizes=\"auto, (max-width: 700px) 100vw, 700px\" \/><figcaption>Elenco de Inspetor Geral. Alberto Ciccone est\u00e1 no centro, com cal\u00e7a jeans e camisa azul listrada, segurando um chap\u00e9u na frente. Vitor Falleiros est\u00e1 do lado esquerdo, de camiseta de manga curta e chap\u00e9u preto. [oocities.org\/grupodeteatrodapoli]<\/figcaption><\/figure><\/div>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Lombardi ainda co-dirigiu uma leitura dram\u00e1tica da pe\u00e7a <em>Eles N\u00e3o Usam Black-Tie<\/em>, do \u00edtalo-brasileiro Gianfrancesco Guarnieri. A decis\u00e3o da diretora, em concord\u00e2ncia com os membros, foi tomada a pedido de Fl\u00e1vio Guarnieri, filho de Gianfrancesco, que visitou o GTP naquele segundo semestre de 1999.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Lombardi se licenciou da dire\u00e7\u00e3o ainda em dezembro, e o grupo permaneceria sem diretor durante a virada do mil\u00eanio. Se a sa\u00edda de Zezeh Barbosa consolidou a imagem do GTP como principalmente um escape do estresse da Poli, o ano de 1999 e o legado de Lombardi, assim como o de Belloni, pluralizou o grupo, ressignificando-o em algo n\u00e3o mais limitado pela dicotomia profissionaliza\u00e7\u00e3o-l\u00fadico.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Em fevereiro de 2000, a atriz Lena Roque assume o GTP, recomendada por Lombardi. Devido \u00e0 troca de dire\u00e7\u00e3o no grupo, a gest\u00e3o do Gr\u00eamio Polit\u00e9cnico de 2000 encarrega o diretor Eric Abe, da turma de Engenharia de Minas de 1999, de supervisionar o grupo. Na primeira aula de Lena e primeiro dia de Abe no grupo, o diretor do Gr\u00eamio interpreta uma cena em que dirige um carro enquanto tenta ao telefone acalmar um conhecido de seu personagem. Inspiradas sempre em um poema ou uma letra de m\u00fasica, as aulas de Lena ser\u00e3o recordadas mais pelos exerc\u00edcios f\u00edsicos, dentre eles um que envolvia deitar no ch\u00e3o, e rolar de uma ponta da sala \u00e0 outra a partir do movimento intercalado do quadril e dos ombros.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Cerca de 15 pessoas permanecem ap\u00f3s a virada do mil\u00eanio no GTP, incluindo Vitor Falleiros. Os encontros ocorrem nas segundas-feiras e quartas-feiras, das 19h \u00e0s 22h, no espa\u00e7o onde, ainda em reforma, ser\u00e1 a sala de reuni\u00f5es do Gr\u00eamio, em cima da lanchonete do pr\u00e9dio do Bi\u00eanio. Em seis meses de grupo, Lena dirige uma esquete inspirada no espet\u00e1culo <em>Sacra Folia<\/em>, do paulista Luis Alberto de Abreu. Na trama, a fam\u00edlia de Jesus foge de Herodes, rei de Israel, e acaba chegando ao Brasil. A apresenta\u00e7\u00e3o ocorre em 7 de junho, no Girino, mesmo em dia em que as Na\u00e7\u00f5es Unidas determinam a Linha Azul na fronteira entre o Estado de Israel e o L\u00edbano, ent\u00e3o em conflito desde 1978, para garantir a retirada das tropas israelenses do pa\u00eds \u00e1rabe.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Al\u00e9m de <em>Sacra Folia<\/em>, Lena come\u00e7ar\u00e1 a montagem de <em>Sujeito Oculto Indeterminado<\/em>, a \u00faltima pe\u00e7a original do GTP antes da desativa\u00e7\u00e3o de 2003. A atriz, por\u00e9m, sai do grupo em agosto, antes da conclus\u00e3o do espet\u00e1culo, para se concentrar em sua carreira no cinema, e, em 2001, ela estrela o filme <em>Dom\u00e9sticas<\/em>, de Fernando Meirelles, baseado na pe\u00e7a hom\u00f4nima de Renata Melo. Antes de sua sa\u00edda, Lena, \u00e0 \u00e9poca tamb\u00e9m professora no Cursinho da Poli, convida seu colega de trabalho Rafael Masini, que j\u00e1 coordenava<strong> <\/strong>um grupo de teatro para os estudantes do Cursinho que prestavam artes c\u00eanicas. Os membros do GTP realizar\u00e3o sob a dire\u00e7\u00e3o de Masini, em menos de 18 meses, mais espet\u00e1culos do que nos tr\u00eas anos anteriores pelo menos.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Em seu primeiro dia no grupo, Masini elaborou jogos de teatro, dentre eles um no qual os membros eram acionados pelo diretor em duplas para que um conduzisse uma improvisa\u00e7\u00e3o, e o outro reagisse-lhe. Masini desenvolver\u00e1, ao longo de seu per\u00edodo como diretor, o repert\u00f3rio de exerc\u00edcios e ensaios dos membros do GTP com, por exemplo, o uso de cordas de pular para cadenciar o ritmo de cenas.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Dos pelo menos sete espet\u00e1culos que Masini dirigiu pelo GTP, dois foram pe\u00e7as. O primeiro, ainda em 2000, foi a conclus\u00e3o do trabalho de Lena em<em> Sujeito Oculto Indeterminado<\/em>. Na pe\u00e7a, um grupo de amigos de universidade, representando<strong> <\/strong>arqu\u00e9tipos diferentes da figura do universit\u00e1rio, convivem em uma mesma rep\u00fablica. Apag\u00e3o! No escuro, os amigos, sujeitos \u00e0 inconveni\u00eancia do absentismo de luz, descobrem as verdades sobre si mesmos. A pe\u00e7a foi apresentada em 23 de outubro, na Semana de Arte da Poli daquele ano.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">De fato, a nitidez da alma na escurid\u00e3o determinou a constru\u00e7\u00e3o dos personagens de <em>Sujeito Oculto Indeterminado<\/em>. Durante um dos ensaios da pe\u00e7a\u2026 Apag\u00e3o! Por onde se escondem as linhas do roteiro, que n\u00e3o previam este escuro? Adere\u00e7os, dentre eles x\u00edcaras, ca\u00edram, atores gritaram, atmosfera de nervosismo. A dez minutos do final do ensaio, acerca das 21h50, as luzes retornam. Esse <em>kair\u00f3s<\/em>, em toda sua ironia, inquietou Masini. \u201cCada membro se exp\u00f4s mais na sua verdadeira ess\u00eancia\u201d, reflete o diretor. Masini se lembra de reescrever, com aux\u00edlio dos membros do grupo, os personagens e adapt\u00e1-los a seus respectivos int\u00e9rpretes. Ciccone, que retornara ao grupo depois de alguns meses, acredita que a ideia de ocorrer um apag\u00e3o na pe\u00e7a teria nascido daquela falta de luz, que deve ter afetado apenas o Pr\u00e9dio do Bi\u00eanio, onde ocorreu o ensaio, e, talvez, alguns arredores visto que a palavra \u201capag\u00e3o\u201d n\u00e3o aparece em nenhuma reportagem da <em>Folha de S. Paulo<\/em> entre a chegada de Masini e a apresenta\u00e7\u00e3o de<em> Sujeito Oculto Indeterminado<\/em>.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Em 2001, Masini adaptou <em>Hamlet<\/em>, de William Shakespeare, ao elenco do grupo, que contava com apenas cerca de 15 a 20 pessoas, e, assim, surge <em>Estilha\u00e7os de Hamlet<\/em>. O roteiro \u00e9 composto apenas por algumas passagens da hist\u00f3ria original, e os atores interpretam mais de um personagem. Al\u00e9m disso, Abe rememora que houve passagens de <em>Estilha\u00e7os de Hamlet <\/em>interpretadas em coro: \u201cSer ou n\u00e3o ser\u201d, disseram em sincronia os 15 a 20 atores. A pe\u00e7a foi apresentada em novembro no galp\u00e3o do Pr\u00e9dio da Administra\u00e7\u00e3o da Poli.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Masini n\u00e3o retorna ao GTP para a temporada de 2002. Segundo Ciccone, o motivo teria sido conflito de agenda com outro grupo de teatro comandado por Masini. O diretor, por\u00e9m, n\u00e3o se lembra nem de receber um convite do Gr\u00eamio Polit\u00e9cnico para retornar ao grupo em 2002.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O GTP iniciava o ano sem orienta\u00e7\u00e3o profissional. Foi ent\u00e3o que a atriz Stella Tobar conheceu, atrav\u00e9s da ex-diretora L\u00facia Lombardi, o gtpense Eduardo Monlevade, um mestrando de Engenharia de Metal\u00fargica de 25 anos de idade.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Ela era 2 anos mais velha que ele e havia vindo de Campinas para S\u00e3o Paulo, em 1997, sem conhecer ningu\u00e9m e com um diploma de Artes C\u00eanicas na Unicamp na mala. Em busca de uma carreira profissional, fez cursos, atuou em espet\u00e1culos teatrais e deu aula na Faculdade Paulista de Artes, a FPA.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Quando a Stella conheceu o Eduardo, em 2002, ele disse que o cargo da dire\u00e7\u00e3o do GTP estava vago, e ela logo aceitou ocup\u00e1-lo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u201cA alma do grupo naquela \u00e9poca era ele\u201d, diz Stella. \u201cEle que corria atr\u00e1s.\u201d Ele estava no grupo desde 1998 e havia feito a opera\u00e7\u00e3o de som na pe\u00e7a <em>Ida ao Teatro<\/em>, de 1998; o papel de Sargento Mendon\u00e7a em <em>O Fiscal<\/em>, de 1999; de Hamlet em <em>Hamlet e Of\u00e9lia<\/em> e de Rei Cl\u00e1udio em <em>Estilha\u00e7os de Hamlet<\/em>, ambas de 2001.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Os encontros eram livres, sem um plano pedag\u00f3gico definido, e ocorriam numa sala de aula da Poli. Os exerc\u00edcios surgiam de acordo com as provoca\u00e7\u00f5es e proposi\u00e7\u00f5es de Stella para o grupo, em encontros noturnos semanais. Trabalhavam em duplas, conversavam em rodas, aliviavam o <em>stress<\/em> da rotina de estudos. \u201cEra muito gostoso. Teatro amador \u00e9 feito por pessoas que amam\u201d, aponta Stella.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A verba era repassada do Gr\u00eamio Polit\u00e9cnico para a diretora, garantindo os encontros semanais. Para Eduardo, no entanto, o ideal seriam 2, e ele come\u00e7ou a buscar maneiras de financiar o projeto. Bolou um plano or\u00e7ament\u00e1rio, conversou com o diretor da Poli, o Vahan Agopyan, e conseguiu uma carta de recomenda\u00e7\u00e3o. Saiu ent\u00e3o em busca de empresas que pudessem patrocinar o GTP, com o objetivo final de montar uma pe\u00e7a, contando com os cerca de 8 atores do grupo e se baseando uma vez mais em <em>Hamlet<\/em>.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O projeto n\u00e3o deu certo. Stella precisou sair do grupo, sendo logo substitu\u00edda pela atriz e circense Helena Figueira, formada pelo Centro de Pesquisas Teatrais (CPT), em S\u00e3o Paulo, e pela <em>\u00c9cole National du Cirque Annie Fratellin<\/em>, na Fran\u00e7a.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Ap\u00f3s umas poucas semanas, Helena tamb\u00e9m saiu.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Sua sa\u00edda consolidou o fim daquele per\u00edodo no GTP. No final daquele ano, o grupo estava desativado, e os seus membros, dispersos.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Paralelamente, uma figura chamada Tales Frey entra em cena, literal e metaforicamente. Vindo de Catanduva, cidade do interior paulista, ele havia sa\u00eddo h\u00e1 pouco do ensino m\u00e9dio e estava prestando Dire\u00e7\u00e3o Teatral na Universidade Federal do Rio de Janeiro. Um dos seus melhores amigos, o Alexandre Oliveira, mais conhecido como Kblo (l\u00ea-se <em>Cabelo<\/em>) e tamb\u00e9m vindo de Catanduva, havia ingressado naquele ano na Escola Polit\u00e9cnica e o convidou para se apresentar na SAPO daquele ano, que ocorreria no final de 2002.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Tales aceitou o convite e caprichou \u2014 como caprichou. Era a primeira vez que apresentaria um trabalho autoral em p\u00fablico. Em sua performance, chamada <em>Espasmos Caninos<\/em>, se comparava a um cachorro de rua. Baseava-se no core\u00f3grafo belga Jan Fabre, que ele havia visto em junho daquele ano em S\u00e3o Jos\u00e9 do Rio Preto (SP) e ficado em \u00eaxtase. Tamb\u00e9m se baseava no filme <em>O C\u00e3o Andaluz<\/em>, do cineasta espanhol Luis Bu\u00f1uel, e&nbsp; tinha a m\u00fasica <em>Debaser<\/em>, da banda norte-americana Pixies, como pano de fundo. Usando um jeans de segunda m\u00e3o, customizado, se pendurava em um grande tecido preso no galho de uma \u00e1rvore. Ent\u00e3o lambia latic\u00ednios do ch\u00e3o e era alimentado pelo p\u00fablico com leite, manteiga e iogurte. Ao som dos vocais desesperados, do baixo pulsante e da guitarra ca\u00f3tica dos Pixies, Tales fumava uma cartela inteira de cigarros, \u201csem medo de morrer.\u201d Era a sua maneira de expurgar a sua sexualidade e o seu conformismo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Ao assistir o amigo catanduvense, Kblo confirmava que Engenharia e Arte podiam ocupar o mesmo espa\u00e7o. O p\u00fablico da Poli reagiu bem, tanto \u00e9 que Tales, hoje professor da Universidade do Minho, em Portugal, se lembra at\u00e9 hoje com carinho da performance. No entanto, ele vinha de fora. E o grupo da Poli? Por que o GTP, que se envolveu diretamente na pr\u00f3pria cria\u00e7\u00e3o da SAPO, em 1989, n\u00e3o se apresentou? Por que n\u00e3o havia ningu\u00e9m tocando o grupo? Por que ele havia sido desativado? Por que ele, ingressante de 2002, mesmo querendo, passou o ano sem poder fazer teatro na Poli, sendo que o teatro era feito na Poli desde 1950?<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Foi com esses questionamentos no peito que Kblo se juntou a uma chapa que concorreria \u00e0s elei\u00e7\u00f5es do Gr\u00eamio Polit\u00e9cnico daquele ano.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>A mulher que pariu um grupo<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O ano de 2002 estava acabando. Lula havia vencido as elei\u00e7\u00f5es para presidente no Brasil e se preparava para assumir o cargo em 2003, a Sele\u00e7\u00e3o Brasileira ainda estava extasiada pelo t\u00edtulo da Copa do Mundo, e na Escola Polit\u00e9cnica da USP, a chapa \u201cEst\u00e3o me fazendo de trouxa\u201d vencia as elei\u00e7\u00f5es para o gr\u00eamio estudantil.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Um dos membros da chapa era Alexandre Oliveira, o Kblo (Cabelo), o mesmo que havia trazido o <em>performer<\/em> Tales Frey para a SAPO daquele ano. Kblo, ent\u00e3o no segundo ano de Engenharia da Computa\u00e7\u00e3o, tivera boas experi\u00eancias com teatro no ensino m\u00e9dio, cursado em Catanduva, no interior de S\u00e3o Paulo. Junto de outros membros da chapa, alimentava a vontade de reviver o Grupo de Teatro da Poli, desativado havia alguns meses. Talvez at\u00e9 mesmo influenciasse os outros membros com seu entusiasmo e bom humor \u2014 o Kblo era uma pessoa muito admirada, tida como uma das mais inteligentes da Poli.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Chegaram as f\u00e9rias de fim de ano, o ano virou, veio o carnaval.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Quando as aulas voltaram em 2003, o ideia de revitaliza\u00e7\u00e3o ainda martelava forte, mais forte at\u00e9 do que no come\u00e7o. O in\u00edcio do ano inaugurava a atua\u00e7\u00e3o oficial da nova chapa, o que significava que a ideia poderia enfim se materializar.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Foi ent\u00e3o que uma ingressante da Poli, a Daniele Sancovschi, come\u00e7ou a se aproximar do Gr\u00eamio. N\u00e3o podia ser membro oficial, pois n\u00e3o havia sido eleita, mas estava l\u00e1. Ajudava. Tanto \u00e9 que no momento em que a chapa precisava decidir um nome para a dire\u00e7\u00e3o do GTP, a Dani logo lembrou:<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u201cTem uma diretora l\u00e1 no Clube Hebraica, onde eu fa\u00e7o teatro h\u00e1 alguns anos. Se chama Bia Szvat.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A Dani teve v\u00e1rias diretoras no clube, mas sugeriu a Bia. Uma r\u00e1pida assimila\u00e7\u00e3o havia sido feita, um pouco inexplicavelmente, entre o jeito dos seus colegas e o perfil da diretora. Intui\u00e7\u00e3o. A Bia Szvat dirigiria o GTP pelos pr\u00f3ximos 8 anos.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O Gr\u00eamio decidiu fazer aulas teste, afinal, haveria dinheiro envolvido na quest\u00e3o e era preciso ter certeza de quem ocuparia o cargo. Alguns candidatos foram considerados naquele in\u00edcio de 2003, mas a Bia, com seu m\u00e9todo que valorizava o trabalho corporal e o seu sorriso tranquilo, conquistou a vaga de um modo t\u00e3o f\u00e1cil e simples, quase \u00f3bvio, quanto a sugest\u00e3o que a Dani fez semanas antes.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Robusta, dona de olhos pequenos e grandes ma\u00e7\u00e3s do rosto, Bia nascera no Rio de Janeiro mas fora criada em Santo Andr\u00e9. Durante a adolesc\u00eancia, fez uma s\u00e9rie de cursos na Escola Livre de Teatro, aprendendo sobre educa\u00e7\u00e3o libert\u00e1ria para a arte. Cursou Comunica\u00e7\u00e3o Social na Universidade Metodista de S\u00e3o Paulo no final dos anos 1990 e um curso t\u00e9cnico na escola de atores Recriarte no in\u00edcio dos anos 2000. Quando recebeu o convite da Dani, gostou da oportunidade, pois considerava que sua aluna do Clube Hebraica n\u00e3o estava sendo ouvida como podia.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Era hora de botar a m\u00e3o na massa. Cerca de meia d\u00fazia de alunos, majoritariamente homens, apareceram para a primeira aula. Era dia de semana, \u00e0 noite, pois as aulas da Poli s\u00f3 acabavam no fim da tarde. A Bia pediu permiss\u00e3o para usar uma sala no pr\u00e9dio da Engenharia El\u00e9trica e o grupo tirou as carteiras do meio, abrindo um espa\u00e7o que permitisse andar, deitar, correr, enfim, aprender teatro.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Cerca de tr\u00eas meses se passaram assim, naquele 2003 cheio de esperan\u00e7a. A sala de ensaio mudava com frequ\u00eancia, eles ensaiavam onde estivesse dispon\u00edvel \u2014 geralmente na El\u00e9trica mesmo. A Bia Szvat aplicava o que havia aprendido sobre teatro n\u00e3o s\u00f3 na p\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o na Universidade S\u00e3o Judas Tadeu, mas no que lia e observava, pois lia muito e observava muito.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Com Jerzy Grotowski, diretor polon\u00eas de teatro experimental, Bia aprendera a buscar um teatro cru, livre, ritual\u00edstico at\u00e9, voltado de fato ao n\u00e3o profissional. Com o diretor e te\u00f3rico brasileiro Ant\u00f4nio Januzelli, que fora inclusive seu professor na S\u00e3o Judas, aprendera a olhar e ver, a ouvir e escutar. O grupo improvisava, lia textos, se conhecia a cada ensaio.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">At\u00e9 que o dinheiro acabou. O Gr\u00eamio, apesar do entusiasmo, contava com a vit\u00f3ria em um edital da CCEx (Comiss\u00e3o de Cultura e Extens\u00e3o) para pagar o sal\u00e1rio da Bia. No entanto, a falta de experi\u00eancia e o excesso de especificidade da CCEx fez com que os membros da chapa perdessem o prazo para a inscri\u00e7\u00e3o do projeto.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Quando o Gr\u00eamio deu a not\u00edcia \u00e0 Bia, j\u00e1 se preparava para uma nova desativa\u00e7\u00e3o do GTP. Foi bom enquanto durou, e pelo menos haviam tentado. Ao inv\u00e9s, o que se ouviu foi um sonoro \u201cEu fico&#8221;. O show n\u00e3o poderia parar, pois na verdade n\u00e3o tinha nem come\u00e7ado, pois na verdade era muito cedo e a Bia tinha muito trabalho pela frente. \u00c0quela altura, o GTP j\u00e1 era mais do que dinheiro.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Os meses se passaram, e no final do ano, o grupo contava com 4 alunos. Dois dos que ajudaram a trazer a Bia sa\u00edram: o Kblo, que focaria em outros projetos, e a Dani, que teria um filho. Para os 4 que ficaram, todos polit\u00e9cnicos, a coes\u00e3o do grupo se fazia sentir. O teatro ia aos poucos libertando aqueles cora\u00e7\u00f5es de garotos aprovados na Fuvest, o vestibular mais temido do Brasil, e aquelas mentes de estudantes de Exatas, que eram induzidas cotidianamente \u00e0 frieza dos n\u00fameros.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Come\u00e7aram a ler o musical <em>Liberdade, Liberdade<\/em>, escrito pelo paulista Fl\u00e1vio Rangel e o carioca Mill\u00f4r Fernandes em 1965, e no in\u00edcio de mar\u00e7o de 2004, se apresentaram para os calouros da Poli na Semana de Recep\u00e7\u00e3o. Durante a apresenta\u00e7\u00e3o, no audit\u00f3rio da Engenharia El\u00e9trica, os gtpenses usavam cal\u00e7a colante e camiseta, ambas pretas, denunciavam absurdos da ditadura militar e listavam raz\u00f5es para futuros engenheiros experimentarem fazer teatro.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A ret\u00f3rica deve ter sido convincente, pois quatro ou cinco ingressantes se juntaram ao grupo. Ao longo daquele ano, eles ainda se reuniam em salas vazias da Engenharia El\u00e9trica, retirando as cadeiras antes de come\u00e7ar os processos. A incerteza de conseguir uma sala, que precisava sempre ser solicitada \u00e0 Poli, a demora para arrum\u00e1-la e a inadequa\u00e7\u00e3o do espa\u00e7o para os exerc\u00edcios c\u00eanicos incomodavam. \u00c0s vezes driblavam o inc\u00f4modo fazendo exerc\u00edcios em corredores e p\u00e1tios, mas precisavam de um lar. Mal sabia a Bia, no entanto, que o GTP n\u00e3o se fixava em um local h\u00e1 mais de 20 anos.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Nessa \u00e9poca, membros do Gr\u00eamio Polit\u00e9cnico decidiram tentar novamente se inscrever, junto ao GTP, em um edital da Comiss\u00e3o de Cultura e Extens\u00e3o da Poli (CCEx). Seria a melhor solu\u00e7\u00e3o para resolver os conflitos internos da chapa sobre o or\u00e7amento, pois alguns membros queriam investir no grupo e outros n\u00e3o. Foi um processo \u00e1rduo, com confus\u00f5es de prazos e regras. \u201cEra uma reuni\u00e3o a cada tr\u00eas meses, e a pauta da reuni\u00e3o era divulgada um m\u00eas antes\u201d, lembra Karina Neves, que em 2004 era membro do Gr\u00eamio e estudante do 3\u00ba ano de Engenharia Civil. \u201cSe voc\u00ea perdesse a data, s\u00f3 conseguiria na pr\u00f3xima.\u201d Ap\u00f3s algumas semanas, meses at\u00e9, o projeto foi entregue e aceito e eles puderam pagar a Bia \u2014 mas s\u00f3 durante alguns meses.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Enquanto isso os trabalhos da diretora seguiam firmes, uma vez por semana. Um dos pontos altos do seu m\u00e9todo era o improviso. O grupo usava o modelo do GTP do in\u00edcio dos anos 1970, de focar em produzir textos autorais. Por isso as cenas feitas em exerc\u00edcios c\u00eanicos, que os membros apresentavam uns aos outros, eram anotadas e costuradas posteriormente em pe\u00e7as.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Foi assim que o texto <em>O Que Sobrou de Tudo Isso?<\/em> nasceu, baseado na pe\u00e7a <em>Terror e Mis\u00e9ria no Terceiro Reich<\/em> do alem\u00e3o Bertolt Brecht. O grupo vinha de um clima de <em>Liberdade, Liberdade<\/em>, trocadilhos \u00e0 parte, e lia textos do alem\u00e3o Karl Marx e do franc\u00eas Jean-Pierre Proudhon. Como o grupo a essa altura s\u00f3 tinha homens \u2014 10 polit\u00e9cnicos \u2014 a Bia chamou 3 atrizes para compor o elenco, incluindo uma dan\u00e7arina do ventre. Uma outra delas, a N\u00e9ia Barbosa, era sua colega na p\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o da S\u00e3o Judas e viria a dirigir o GTP ap\u00f3s a conturbada sa\u00edda da diretora, quase 7 anos depois.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u00c0 \u00e9poca dos ensaios, o grupo, em busca de um lar, resolveu agir. Havia uma sala no pr\u00e9dio do Bi\u00eanio, no meio do corredor \u00e0 direita da lanchonete Minerva. Era um dep\u00f3sito cheio de garrafas entulhadas, com ratos mortos, paredes descascadas e fia\u00e7\u00e3o desencapada \u2014 h\u00e1 quem ainda se recorde dos choques. \u201cEra uma sala relativamente grande no Bi\u00eanio, que estava esquecida\u201d, conta Bia. Um membro da \u00e9poca, o ent\u00e3o estudante de Engenharia de Materiais Maur\u00edcio Dwek, se lembra com n\u00e3o muito carinho: \u201cEra um lix\u00e3o.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A diretora juntou alguns membros para limp\u00e1-la. Eles retiraram os materiais, varreram e colaram jornal, mais barato do que tinta, nas paredes. Um aluno que cursava Engenharia El\u00e9trica improvisou um<em> dimmer<\/em>, dispositivo que regula correntes el\u00e9tricas, para controlar a luz. Instalaram sancas, estruturas fixas que abrigam l\u00e2mpadas, nos 4 cantos do teto. Para assentar a plateia, pegaram caixotes de frutas na Companhia de Entrepostos e Armaz\u00e9ns Gerais de S\u00e3o Paulo (Ceagesp).<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Durante o espet\u00e1culo, todo o ch\u00e3o era forrado de jornal picado, e havia tamb\u00e9m uma grande pilha do material mais ao centro do cen\u00e1rio. Quando os atores se movimentavam, a fric\u00e7\u00e3o de seus p\u00e9s com o papel fazia com que uma fuma\u00e7a se formasse no ar. Parecia gelo seco. \u201cEla falava de transforma\u00e7\u00e3o\u201d, diz Dion\u00edsio Gutierres, que estudava Engenharia Civil,&nbsp; um dos atores presentes. \u201cEra bem transgressiva.\u201d Na cena inicial, a personifica\u00e7\u00e3o da Virtude paria a Liberdade. Em algumas cenas elas debatiam entre si; em outras, era a vez de Marx e Proudhon. Um dos atores tocava bong\u00f4 e uma das atrizes dan\u00e7ava a dan\u00e7a do ventre. Familiares e amigos mais conservadores da plateia sa\u00edam chocados, \u00e0s vezes at\u00e9 antes da pe\u00e7a acabar.<\/p>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-image\"><figure class=\"aligncenter size-large\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"1024\" height=\"768\" src=\"http:\/\/paineira.usp.br\/cje\/babel\/wp-content\/uploads\/2020\/06\/Bruno-Menezes-Caio-Mattos-e-Pedro-Vittorio-20-1024x768.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-115\" srcset=\"https:\/\/babel.eca.usp.br\/wp-content\/uploads\/2020\/06\/Bruno-Menezes-Caio-Mattos-e-Pedro-Vittorio-20-1024x768.jpg 1024w, https:\/\/babel.eca.usp.br\/wp-content\/uploads\/2020\/06\/Bruno-Menezes-Caio-Mattos-e-Pedro-Vittorio-20-300x225.jpg 300w, https:\/\/babel.eca.usp.br\/wp-content\/uploads\/2020\/06\/Bruno-Menezes-Caio-Mattos-e-Pedro-Vittorio-20-768x576.jpg 768w, https:\/\/babel.eca.usp.br\/wp-content\/uploads\/2020\/06\/Bruno-Menezes-Caio-Mattos-e-Pedro-Vittorio-20-1536x1152.jpg 1536w, https:\/\/babel.eca.usp.br\/wp-content\/uploads\/2020\/06\/Bruno-Menezes-Caio-Mattos-e-Pedro-Vittorio-20.jpg 1600w\" sizes=\"auto, (max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" \/><figcaption>Cena da pe\u00e7a <em>O Que Sobrou de Tudo Isso?<\/em>, de 2004. Espet\u00e1culo estreou a sala Ant\u00f4nio Januzelli. [Acervo Rodrigo Braga]<\/figcaption><\/figure><\/div>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Como o grupo seguia crescendo, no ano seguinte foram criados os n\u00facleos. Os primeiros membros, de 2003, j\u00e1 haviam adquirido uma certa carga de linguagem teatral, e n\u00e3o poderiam mais trabalhar com os ingressantes. Dividiram-se entre iniciantes e avan\u00e7ados.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Temia-se que o Gr\u00eamio impedisse o uso da salinha, cujo nome agora homenageava Ant\u00f4nio Januzelli. Por isso o GTP cuidava bem dela. As paredes foram pintadas de preto, mais sancas foram alocadas no teto e a instala\u00e7\u00e3o el\u00e9trica, devidamente arrumada. Foram colocadas caixas de ovos nas paredes para abafar o som, o que bem, digamos, n\u00e3o funcionou. \u201cNo come\u00e7o o Poliglota n\u00e3o gostava. Tinha gente que estava fazendo prova de n\u00edvel do ingl\u00eas e do nada tinha algu\u00e9m gritando na sala do lado\u201d, recorda Maur\u00edcio Vieira, que trabalhava no curso de idiomas em 2005. \u201cVoc\u00ea ia fazer a matr\u00edcula e algu\u00e9m gritava em desespero.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Mas a estrat\u00e9gia de identifica\u00e7\u00e3o funcionava. Aos poucos, as pessoas come\u00e7avam a comentar que haviam ido \u201cao GTP\u201d ap\u00f3s visitar a sala. Foi nela que, no final daquele ano, os agora 17 atores do grupo apresentaram mais tr\u00eas espet\u00e1culos. Um deles foi <em>Em N\u00f3s<\/em>, mon\u00f3logo protagonizado por Maur\u00edcio Dwek que adaptava o texto <em>A Cruz de Ferro<\/em>, do alem\u00e3o Heiner M\u00fcller. Foi apresentado em agosto por conta de um interc\u00e2mbio que Maur\u00edcio faria na Fran\u00e7a, motivo tamb\u00e9m, ali\u00e1s, de ter sido um espet\u00e1culo individual. Os ingressantes montaram <em>No Ch\u00e3o que Engatinhaste Salpicar Mil Cacos de Vidro<\/em>, pe\u00e7a autoral com trilha sonora e figurino elaborados em grupo e em cujo cen\u00e1rio havia uma escada que n\u00e3o dava para lugar nenhum. Os veteranos fizeram <em>Descontrole Remoto<\/em>, baseada no texto <em>Angel City<\/em>, do norte-americano Sam Shepard. Enquanto o original \u00e9 ambientado em Hollywood, o GTP transplantou o enredo para o universo da TV brasileira. \u201cA televis\u00e3o ainda era muito importante na forma\u00e7\u00e3o de opini\u00e3o das pessoas\u201d lembra com humor Rodrigo Braga, na \u00e9poca estudante de Engenharia Qu\u00edmica, que havia entrado no grupo no ano anterior.<\/p>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-image\"><figure class=\"aligncenter size-large\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"480\" height=\"640\" src=\"http:\/\/paineira.usp.br\/cje\/babel\/wp-content\/uploads\/2020\/06\/Bruno-Menezes-Caio-Mattos-e-Pedro-Vittorio-21.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-116\" srcset=\"https:\/\/babel.eca.usp.br\/wp-content\/uploads\/2020\/06\/Bruno-Menezes-Caio-Mattos-e-Pedro-Vittorio-21.jpg 480w, https:\/\/babel.eca.usp.br\/wp-content\/uploads\/2020\/06\/Bruno-Menezes-Caio-Mattos-e-Pedro-Vittorio-21-225x300.jpg 225w\" sizes=\"auto, (max-width: 480px) 100vw, 480px\" \/><figcaption>Bia Szvat limpando a sala Ant\u00f4nio Januzelli em 2005. [Acervo Rodrigo Braga]<\/figcaption><\/figure><\/div>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Quando 2005 acabava, Bia Szvat finalizava seu terceiro ano de dire\u00e7\u00e3o no Grupo de Teatro da Poli. Gra\u00e7as aos seus esfor\u00e7os, a essa altura j\u00e1 recebia um sal\u00e1rio fixo do Gr\u00eamio e j\u00e1 havia montado 4 pe\u00e7as. O grupo j\u00e1 tinha uma sala e dois n\u00facleos. \u201cFoi um parto, com todas as dores de um parto at\u00e9 que isso acontecesse\u201d, recorda Bia. E aquilo era s\u00f3 o come\u00e7o.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Um turbilh\u00e3o chamado GTP<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Cada vez mais gente entrava. Era preciso criar mais um n\u00facleo. Assim se iniciavam os trabalhos de 2006: o n\u00facleo dos iniciantes foi batizado de Amarelo; o dos avan\u00e7ados, de Vermelho; o Azul, rec\u00e9m criado, juntou membros antigos e novos que possu\u00edam experi\u00eancia teatral. Todos sob orienta\u00e7\u00e3o da Bia. Quatro dos novos membros daquele ano ainda n\u00e3o sabiam, mas em breve, junto com Maur\u00edcio Dwek, que nesse momento fazia interc\u00e2mbio na Fran\u00e7a, fariam parte do auge e da decad\u00eancia do GTP sob a dire\u00e7\u00e3o da Bia, cada um exercendo um papel \u00fanico.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Amanda Freire estudava Filosofia. Tinha estatura mediana, cabelos ondulados e nariz romano. Havia vindo de S\u00e3o Mateus para estudar na Faculdade de Filosofia, Letras e Ci\u00eancias Humanas da USP (FFLCH) e j\u00e1 possu\u00eda experi\u00eancia com teatro na Companhia Antropof\u00e1gica, cuja sede fica em Perdizes, na Zona Oeste de S\u00e3o Paulo. Entrou no Azul.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">No Amarelo, entraram Luis Pasquarelli, da Engenharia Naval, de f\u00edsico forte, cabelo raspado e sobrancelhas grossas; Karina Neves, ruiva, de queixo largo e olhos azuis penetrantes, veterana da Engenharia Civil que estivera na chapa do Gr\u00eamio de 2003 que revivera o GTP; e Isadora Giuntini, estudante de Arquitetura na Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da USP (FAU), pequena, magra e de cabelos curtos repartidos.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O GTP ultrapassava a marca de 30 membros.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Na sala Ant\u00f4nio Januzelli, o Amarelo lia o fil\u00f3sofo espanhol Fernando Savater. As ideias de um livro seu, chamado <em>\u00c9tica para meus Filhos<\/em>, pouco a pouco se mesclavam com mem\u00f3rias pessoais dos atores, e o texto coletivo <em>Exerc\u00edcios do Ser<\/em> nascia ao longo dos meses.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O Azul montava <em>O Advers\u00e1rio<\/em>, do franc\u00eas Emmanuel Carri\u00e8re. O enredo acompanhava a vida de um homem que perdia o emprego mas fingia por anos que n\u00e3o. Sa\u00eda de casa, sempre no mesmo hor\u00e1rio, parava o carro num estacionamento e ap\u00f3s algumas horas, voltava. A Bia queria criar um clima intimista \u00e0 luz de velas.&nbsp; De modo que quando chegou a \u00e9poca das apresenta\u00e7\u00f5es, no final do ano, o grupo buscou patroc\u00ednio da f\u00e1brica Velas Kosher, no Bom Retiro. Na hora de falar com a dona da f\u00e1brica, n\u00e3o podiam olhar em seus olhos, pois ela era uma judia ortodoxa fiel \u00e0 tradi\u00e7\u00e3o na qual uma mulher s\u00f3 pode olhar nos olhos do marido e vice-versa. O grupo respeitou sua religi\u00e3o, seguiu o procedimento e tudo deu certo, pois conseguiu o patroc\u00ednio.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O Vermelho fazia uma tradu\u00e7\u00e3o in\u00e9dita da pe\u00e7a <em>Nous, Les H\u00e9ros (version sans le p\u00e8re) <\/em>do franc\u00eas Jean-Luc Lagarce, originando o texto <em>N\u00f3s, os Her\u00f3is<\/em>. As personagens eram membros de uma trupe de teatro em fam\u00edlia, decadente e desgastada. Caixotes de madeira encaixados viravam uma mesa, e a cena final era um jantar.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">As 3 pe\u00e7as foram apresentadas entre outubro e dezembro de 2006. Em <em>Exerc\u00edcios do Ser<\/em>, Luis, Karina, Isadora e outros 10 membros se revezavam em duplas e contavam est\u00f3rias baseadas em suas hist\u00f3rias. \u201cTinha essa coisa do desnudar-se\u201d, conta Luis. \u201cO depoimento do ator, sem m\u00e1scaras.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Em <em>O Advers\u00e1rio<\/em>, o elenco todo usava roupa social: mulheres de vestido e coque de bailarina, homens de terno e gravata borboleta. A Amanda vestia um vestido vermelho com um la\u00e7o ao centro do decote. Os atores interagiam com um grande tecido acrob\u00e1tico preso ao teto e o cen\u00e1rio esbanjava o uso de velas, gra\u00e7as ao patroc\u00ednio conquistado. \u201cA gente brincava que a qualquer momento a sala pegaria fogo\u201d, lembra com carinho e medo Denis Mau\u00e1, ent\u00e3o estudante de Engenharia El\u00e9trica que esteve no elenco.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><em>N\u00f3s, os Her\u00f3is<\/em>, por sua vez, foi o destaque do ano. Dion\u00edsio Gutierres interpretava um papel feminino. \u201cA gente teve que trabalhar a n\u00e3o-caricaturiza\u00e7\u00e3o da alma feminina\u201d, comenta Dion\u00edsio. O figurino fora elaborado em parceria com o Departamento de Artes C\u00eanicas (CAC) da ECA. Ao som de <em>Panis et Circenses<\/em>, em vers\u00e3o da carioca Marisa Monte, o jantar final era servido com comidas que os pr\u00f3prios atores traziam. Membros da plateia eram convidados a participar, e ent\u00e3o a cena evolu\u00eda numa guerra de comida. Karina se recorda de ter ido \u201cmil vezes\u201d (ou talvez um pouco menos) ao espet\u00e1culo prestigiar os colegas. Rodrigo conta que \u201cficava muito encantado com a qualidade do que o pessoal estava apresentando. N\u00e3o s\u00f3 com a qualidade do pessoal, mas com&nbsp; o que a Bia conseguia extrair dele.\u201d<\/p>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-image\"><figure class=\"aligncenter size-large\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"799\" height=\"600\" src=\"http:\/\/paineira.usp.br\/cje\/babel\/wp-content\/uploads\/2020\/06\/Bruno-Menezes-Caio-Mattos-e-Pedro-Vittorio-22.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-118\" srcset=\"https:\/\/babel.eca.usp.br\/wp-content\/uploads\/2020\/06\/Bruno-Menezes-Caio-Mattos-e-Pedro-Vittorio-22.jpg 799w, https:\/\/babel.eca.usp.br\/wp-content\/uploads\/2020\/06\/Bruno-Menezes-Caio-Mattos-e-Pedro-Vittorio-22-300x225.jpg 300w, https:\/\/babel.eca.usp.br\/wp-content\/uploads\/2020\/06\/Bruno-Menezes-Caio-Mattos-e-Pedro-Vittorio-22-768x577.jpg 768w\" sizes=\"auto, (max-width: 799px) 100vw, 799px\" \/><figcaption>Cena do jantar da pe\u00e7a <em>N\u00f3s, os Her\u00f3is<\/em>, de 2006. Membros da plateia misturados ao elenco assistem a pe\u00e7a \u201cde dentro\u201d. [Acervo Rodrigo Braga]<\/figcaption><\/figure><\/div>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Nesse meio tempo, aconteceu tamb\u00e9m na Poli uma assembleia geral de 3 dias de dura\u00e7\u00e3o, entre 22 e 24 de novembro, que mudaria o Estatuto do Gr\u00eamio Polit\u00e9cnico. Ele era o mesmo desde 1989, e as reuni\u00f5es eram longas, chegando a durar 16 horas. Os polit\u00e9cnicos do GTP marcaram presen\u00e7a em grande n\u00famero, incentivados pela Bia. O esfor\u00e7o garantiu uma conquista do grupo: agora o GTP estava oficializado, junto ao Escrit\u00f3rio Piloto e ao Cursinho da Poli, como um departamento aut\u00f4nomo do Gr\u00eamio.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">No in\u00edcio de 2007 a Karina havia sa\u00eddo do grupo, mas ele seguia crescendo, cada vez mais estruturado. Eram cerca de 50 membros. A Bia Szvat, sobrecarregada, chamou o diretor Carlos Canhameiro,&nbsp; formado em Artes C\u00eanicas pela Unicamp, para assumir o n\u00facleo Azul. S\u00f3 o n\u00facleo Amarelo daquele ano, sozinho, contava com mais de 20 pessoas.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Fazendo jus ao nome da sala, naquele ano essas mesmas 20 e tantas pessoas buscaram inspira\u00e7\u00e3o em Ant\u00f4nio Januzelli. Come\u00e7aram a surgir exerc\u00edcios em torno de uma frase famosa do diretor: \u201cMe olhe pra saber que eu existo, me toque para saber que eu sinto.\u201d Nascia o texto <em>Merolhar<\/em>. Uma s\u00e9rie de fragmentos de cenas que exploravam olhares e toques culminavam na can\u00e7\u00e3o <em>O Seu Olhar<\/em>, do paulistano Arnaldo Antunes, na cena final.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O n\u00facleo Azul, por sua vez, explorava o teatro do absurdo. A defini\u00e7\u00e3o foi cunhada pelo h\u00fangaro Michael Esslin em 1961 para designar um fazer teatral que explorasse a falta de sentido da condi\u00e7\u00e3o humana. Sob orienta\u00e7\u00e3o de Carlos Canhameiro, o texto autoral <em>E Tudo se Incendiou\u2026 (ou tonhonhoin)<\/em> foi constru\u00eddo coletivamente e fazia jus ao modelo seguido. Parte do seu texto de divulga\u00e7\u00e3o dizia: \u201c9 mg. Indicado para policamdros, contra stress, irrita\u00e7\u00e3o e mau-humor. Cuidado: ALTAMENTE INFLAM\u00c1VEL! Efeitos Colaterais: ainda n\u00e3o reconhecidos. Deve ser mantido fora do alcance de defuntos.\u201d Carluxo, como era conhecido o diretor, era elogiado pelo <em>timing<\/em> certeiro que a com\u00e9dia <em>nonsense<\/em> atingia.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O n\u00facleo Vermelho iniciaria em 2007 um processo que s\u00f3 se finalizaria no ano seguinte. Duas vezes por semana os atores, incluindo Isadora e Luis, liam a com\u00e9dia <em>O Homem do Princ\u00edpio ao Fim<\/em>, de Mill\u00f4r Fernandes, compila\u00e7\u00e3o de textos de autores como Shakespeare, Moli\u00e8re, James Joyce e o pr\u00f3prio Mill\u00f4r que retrata um ser humano ganhando sua humanidade ao longo do tempo. O grupo se inspirou no Teatro Negro, modelo predominante em Praga, na Rep\u00fablica Tcheca, no qual o elenco, oculto sob luz negra, controla bonecos, objetos de cena, tecidos etc. para criar cenas mudas. Tanto \u00e9 que um bonequeiro amigo de Rodrigo Braga, o Adriano Panda, foi chamado para confeccionar um boneco.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">As apresenta\u00e7\u00f5es do final da temporada, entre novembro e dezembro, aconteceram enquanto o Vermelho seguia trabalhando. At\u00e9 que em mar\u00e7o de 2008, contando tamb\u00e9m com a Amanda como auxiliar de luz e de som, a pe\u00e7a estreia na sala de sempre. Na salinha do GTP, as luzes se apagam. Ao som de uma melodia suave infantil, imagens s\u00e3o projetadas na parede. Uma flor. Uma borboleta. Um cora\u00e7\u00e3o. Um c\u00e3o. Entra em cena Neco, o boneco. Ao longo de pouco mais que uma hora, \u00e9 exposto ao amor, ao \u00f3dio, ao ci\u00fame, \u00e0 solid\u00e3o. Descobre a religi\u00e3o. Ao fim do espet\u00e1culo, tocado com uma ternura quase inebriante, aprende a morrer e as luzes se acendem.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">No fim de abril, quando a temporada acabou, o GTP contava com 4 n\u00facleos. O Amarelo recebia ingressantes, como sempre; o Vermelho e Azul, os veteranos; o Verde, rec\u00e9m criado, promovia um espa\u00e7o para quem desejava se profissionalizar. Nele estavam Amanda, Isadora, Luis e Maur\u00edcio Dwek, que havia voltado da Fran\u00e7a.<\/p>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-image\"><figure class=\"aligncenter size-large\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"512\" height=\"384\" src=\"http:\/\/paineira.usp.br\/cje\/babel\/wp-content\/uploads\/2020\/06\/Bruno-Menezes-Caio-Mattos-e-Pedro-Vittorio-entre-22-e-23.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-120\" srcset=\"https:\/\/babel.eca.usp.br\/wp-content\/uploads\/2020\/06\/Bruno-Menezes-Caio-Mattos-e-Pedro-Vittorio-entre-22-e-23.jpg 512w, https:\/\/babel.eca.usp.br\/wp-content\/uploads\/2020\/06\/Bruno-Menezes-Caio-Mattos-e-Pedro-Vittorio-entre-22-e-23-300x225.jpg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 512px) 100vw, 512px\" \/><figcaption>Boneco Neco, feito pelo bonequeiro Adriano Panda para a pe\u00e7a <em>O Homem do Princ\u00edpio ao Fim<\/em>, de Mill\u00f4r Fernandes, apresentada em 2008. [Acervo Rodrigo Braga]<\/figcaption><\/figure><\/div>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>O auge em Praga&#8230;&nbsp;<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Como n\u00e3o falar de <em>Bodenlos<\/em>? Melhor: como <em>falar de Bodenlos<\/em>?<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Talvez seja melhor come\u00e7ar pelo in\u00edcio de 2008. O Carlos Canhameiro havia sido demitido pela Bia, apesar dos protestos dos alunos, e a diretora resolveu assumir o Azul. Paralelamente, a N\u00e9ia Barbosa havia sido convidada para dirigir o n\u00facleo Vermelho.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Os 30 membros do Amarelo ensaiavam um texto do franc\u00eas Michel Vinaver, <em>Dissidente<\/em>, mesclando sua trama com a da trag\u00e9dia <em>\u00c9dipo Rei<\/em>, do grego S\u00f3focles. Apareciam tamb\u00e9m nos ensaios a Amanda, respons\u00e1vel pela ilumina\u00e7\u00e3o, o Luis, que fazia a trilha sonora e a sonoplastia, e o Rodrigo, assistente de dire\u00e7\u00e3o da Bia.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O Vermelho, por sua vez, se divertia com a N\u00e9ia, travestindo mulheres de homens e vice-versa. Seus membros se transportavam para um corti\u00e7o de Nova Orleans enquanto viviam as cenas de <em>Um Bonde Chamado Desejo<\/em>, do norte-americano Tennessee Williams, dramaturgo favorito da diretora. O bonequeiro Adriano Panda cuidava da ilumina\u00e7\u00e3o, junto do estudante de Engenharia Qu\u00edmica Felipe Bonquipampi.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O Azul montava um texto nacional. <em>Paranapiacaba \u2014 de onde se avista o mar<\/em>, da brasileira Solange Dias, retratava uma fam\u00edlia numa cidade em decad\u00eancia e possu\u00eda clima fantasmag\u00f3rico.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O Verde lia Vil\u00e9m Flusser. Influenciados pela descend\u00eancia tcheco-h\u00fangara da Bia, o grupo dava in\u00edcio a um processo inspirado na obra do fil\u00f3sofo tcheco radicado no Brasil. Lia, relia. Amanda, Luis, Isadora e Maur\u00edcio se encontravam de tr\u00eas a quatro vezes por semana com a diretora, investigando tamb\u00e9m a vida de Flusser. Liam, reliam. Reviviam. Queriam absorver o fil\u00f3sofo. Queriam se sentir estrangeiros, como Flusser foi \u2014 e conseguiriam, pois embora n\u00e3o soubessem na \u00e9poca, eles estavam escrevendo a pe\u00e7a que al\u00e7aria o GTP \u00e0 sua primeira apresenta\u00e7\u00e3o internacional mais de 1 ano depois.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Vil\u00e9m Flusser nasceu em 1920, em Praga, a capital do seu pa\u00eds. Vinha de uma fam\u00edlia de intelectuais judeus. Seu pai era um professor de Matem\u00e1tica e F\u00edsica da Universidade Carolina de Praga, e sua m\u00e3e, uma musicista e cantora. Cresceu falando alem\u00e3o e tcheco, e tamb\u00e9m tinha no\u00e7\u00f5es de latim, grego e hebraico. Em 1938, enquanto o ditador Adolf Hitler anexava a \u00c1ustria com o ex\u00e9rcito nazista, Flusser ingressava na universidade em que seu pai dava aulas. Quando se preparava para o segundo ano, em 1939, o ex\u00e9rcito do ditador chega na sua cidade e sua fam\u00edlia foge.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Aos 20 anos, vem para o Brasil junto de sua companheira Edith Barth. Sua fam\u00edlia havia ficado na Europa. Ao chegar no porto do Rio de Janeiro, descobre que seu pai fora assassinado pelos nazistas. Tr\u00eas anos depois, em 1943, perderia da mesma forma a m\u00e3e, a irm\u00e3, os av\u00f3s e os tios. Neste mesmo ano teria o segundo filho com sua agora esposa Edith Flusser, e se dedicaria \u00e0 leitura de textos m\u00edsticos, religiosos e filos\u00f3ficos.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Durante os anos 1950 ele teria mais um filho e trabalharia como jornalista, publicando ensaios e redigindo suas primeiras obras te\u00f3ricas. Entre as d\u00e9cadas de 1960 e 1970, estabelecido no jornal <em>O Estado de S. Paulo<\/em>, tamb\u00e9m colabora com a <em>Revista Brasileira de Filosofia<\/em>, ensina filosofia da ci\u00eancia na Escola Polit\u00e9cnica da USP e teoria da comunica\u00e7\u00e3o na Funda\u00e7\u00e3o Armando \u00c1lvares Penteado (FAAP).<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Em 1991, \u00e9 convidado a dar uma palestra em sua cidade natal, Praga. Junto da esposa, atravessa a Alemanha de carro, mas pouco antes da fronteira com a Rep\u00fablica Tcheca, sofre um acidente e morre aos 71 anos.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Era essa a figura que estimulava o imagin\u00e1rio do grupo Verde naqueles meses. Isadora, Maur\u00edcio, Amanda e Luis, pouco a pouco, decifravam sua vida e obra e as convertiam em palavras, gestos, luz, voz, corpo, som. Flusser perdera o ch\u00e3o, e da\u00ed o nome da sua autobiografia, <em>Bodenlos<\/em>, \u201csem ch\u00e3o\u201d em alem\u00e3o. O grupo pegou o nome dela emprestado e fez como Flusser, que gostava de traduzir as palavras entre diversas l\u00ednguas, acrescentando a tradu\u00e7\u00e3o ao t\u00edtulo da pe\u00e7a. Ficou <em>Bodenlos \u2014 Sem Ch\u00e3o<\/em>.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A temporada teve in\u00edcio em outubro. Sua estreia foi no Espa\u00e7o Cultura Pyndorama, em Perdizes sede da Companhia Antropof\u00e1gica a cerca de 35 minutos de carro da USP. Os 4 atores eram os primeiros gtpenses a se apresentarem fora da Poli desde os anos 1970.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u00c0s 21h30 do s\u00e1bado, dia 5 daquele m\u00eas, as cortinas se abriam e a pe\u00e7a come\u00e7ava. A Amanda usava um vestido prata brilhante, estilo romano, e sand\u00e1lias romanas; a Isadora, uma blusinha bege claro e cal\u00e7a de pano da mesma cor; o Maur\u00edcio e o Luis vestiam cal\u00e7as de pano claras, sapatos marrons e n\u00e3o usavam camisa. Os atores provocavam a plateia e uns aos outros com as mesmas quest\u00f5es que Flusser fizera a si pr\u00f3prio em vida. O Maur\u00edcio corria ao redor de uma cena. Ficavam nus. Tocavam clarinete e viol\u00e3o no palco, e um violino era tocado fora dele. A Amanda fazia uma dan\u00e7a eg\u00edpcia. Retratavam a fuga de Flusser de Praga. Reviviam o adeus do fil\u00f3sofo \u00e0 sua m\u00e3e em 4 l\u00ednguas diferentes, em quatro momentos diferentes. Alem\u00e3o \u2014 franc\u00eas \u2014 ingl\u00eas \u2014 portugu\u00eas. A Isadora martelava uma m\u00e1quina de escrever. Corriam mais, dan\u00e7avam. Numa cena ficavam em sil\u00eancio por tanto tempo quanto fosse preciso at\u00e9 que a plateia fizesse algum som, e ent\u00e3o imitavam esse som e outros que surgissem. O Luis matava pernilongos imagin\u00e1rios. Distribu\u00edam bloquinhos de montar pelo palco e convidavam os espectadores a sentarem-se no ch\u00e3o e mont\u00e1-los. Ao final do espet\u00e1culo, de frente para a plateia de m\u00e3os dadas, costumavam estar banhados de suor.<\/p>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-image\"><figure class=\"aligncenter size-large\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"1024\" height=\"768\" src=\"http:\/\/paineira.usp.br\/cje\/babel\/wp-content\/uploads\/2020\/06\/Bruno-Menezes-Caio-Mattos-e-Pedro-Vittorio-23.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-121\" srcset=\"https:\/\/babel.eca.usp.br\/wp-content\/uploads\/2020\/06\/Bruno-Menezes-Caio-Mattos-e-Pedro-Vittorio-23.jpg 1024w, https:\/\/babel.eca.usp.br\/wp-content\/uploads\/2020\/06\/Bruno-Menezes-Caio-Mattos-e-Pedro-Vittorio-23-300x225.jpg 300w, https:\/\/babel.eca.usp.br\/wp-content\/uploads\/2020\/06\/Bruno-Menezes-Caio-Mattos-e-Pedro-Vittorio-23-768x576.jpg 768w\" sizes=\"auto, (max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" \/><figcaption>Atores do n\u00facleo Verde de frente para o p\u00fablico, ao fim do espet\u00e1culo <em>Bodenlos \u2014 Sem Ch\u00e3o<\/em>. Da esquerda para a direita, Isadora Giuntini, Amanda Freire, Luis Pasquarelli e Maur\u00edcio Dwek. [Acervo Rodrigo Braga]<\/figcaption><\/figure><\/div>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">No m\u00eas seguinte o grupo se apresentou no espa\u00e7o b_arco, da Galeria Virg\u00edlio, em Pinheiros, a 24 minutos de carro da USP. Na Poli, as \u00faltimas apresenta\u00e7\u00f5es de <em>Dissidente<\/em> no in\u00edcio de dezembro fechavam a temporada de 2008 do GTP.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A ano de 2009 chegava, e com ele uma decis\u00e3o da Bia: n\u00e3o chamaria mais diretores de fora para assumir n\u00facleos;&nbsp; havia gente do Verde pronta para a tarefa. Foi assim que o Luis, que largara a Poli e ingressara em Artes C\u00eanicas na ECA naquele ano, assumiu&nbsp; a dire\u00e7\u00e3o do n\u00facleo Azul, e a Amanda, o Laranja, rec\u00e9m-criado. Junto aos n\u00facleos Amarelo, Vermelho, Verde e Preto (que era experimental e n\u00e3o tinha dire\u00e7\u00e3o definida), somavam agora mais de 60 membros.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O grupo que caminhara a passos lentos em 2003, lutando por espa\u00e7o e verba, agora avan\u00e7ava&nbsp; como um trem. Ao longo dos meses, a multid\u00e3o do Amarelo ensaiava <em>Terror e Mis\u00e9ria no Terceiro Reich<\/em>, de Brecht; o Vermelho escrevia o texto <em>A Mulher que Matou a Inf\u00e2ncia<\/em>, com base na ucraniana-brasileira Clarice Lispector e na alem\u00e3 Pina Bausch; o Laranja transmutava o texto <em>Perdoa-me por me Tra\u00edres<\/em>, de Nelson Rodrigues, em <em>Perdoe-nos por tra\u00ed-lo<\/em>; o Azul montava <em>Lis\u00edstrata<\/em>, com\u00e9dia cl\u00e1ssica do grego Arist\u00f3fanes.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">At\u00e9 que a not\u00edcia veio. O grupo fora um dos escolhidos para a programa\u00e7\u00e3o do Festival Apostrof, que ocorria anualmente desde 1999 e reunia grupos de teatro do mundo inteiro. Maur\u00edcio, Amanda, Isadora e Luis apresentariam <em>Bodenlos \u2014 Sem Ch\u00e3o <\/em>na Rep\u00fablica Tcheca, a terra de Vil\u00e9m Flusser. Todo o GTP vibrou.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Eles pegaram um avi\u00e3o no anivers\u00e1rio de 23 anos do Luis, em 24 de junho de 2009. Ao chegarem na Rep\u00fablica Tcheca, a beleza de Praga, onde o festival come\u00e7aria dali a 3 dias, se fez sentir. Caminhando pela cidade, os castelos, as pontes, o rel\u00f3gio astrol\u00f3gico instalado numa torre de 69,5 metros de altura, as ruas largas, as casas antigas, a est\u00e1tua do escritor Franz Kafka, as igrejas romanas, barrocas e g\u00f3ticas e, principalmente, os teatros \u2014 Praga \u00e9 a cidade com maior concentra\u00e7\u00e3o de teatros <em>per capita<\/em> do mundo, com 1 a cada 12 mil habitantes \u2014 os membros do n\u00facleo Verde se sentiam num conto de fadas.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Entre os dias 27 de junho e 1 de julho, o festival ocorria alternadamente entre 2 teatros da cidade. O Na Z\u00e1bradl\u00ed, com 159 lugares, alocado num conjunto habitacional de 3 andares anterior ao s\u00e9c. XII, recebeu pe\u00e7as de grupos da R\u00fassia, Alemanha, Rep\u00fablica Tcheca, S\u00edria, Rom\u00eania e Eslov\u00e1quia. O DISK, teatro oficial da Faculdade da Academia de Artes C\u00eanicas em Praga, com capacidade de 90 a 150 lugares e cujo edif\u00edcio originou da jun\u00e7\u00e3o de dois casar\u00f5es do s\u00e9c. XVII, recebeu grupos da Pol\u00f4nia, Cor\u00e9ia do Sul, Hungria, Rep\u00fablica Tcheca, R\u00fassia, It\u00e1lia e o brasileiro, paulista e paulistano Grupo de Teatro da Poli.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A apresenta\u00e7\u00e3o do GTP foi j\u00e1 no dia de abertura, \u00e0s 20h30. No teatro DISK, frente a uma plateia internacional, eles apresentaram o texto em ingl\u00eas dessa vez. Correram, questionaram, tocaram, dan\u00e7aram. Fizeram a cena da despedida, dessa vez em tr\u00eas l\u00ednguas. Portugu\u00eas \u2014 alem\u00e3o \u2014 tcheco. Entre as cerca de 100 pessoas do p\u00fablico, turistas, artistas do festival, cidad\u00e3os de Praga. Ao final, de m\u00e3os dadas e suados, os 4 atores sorriam. Tinham feito hist\u00f3ria.<\/p>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-group\"><div class=\"wp-block-group__inner-container is-layout-flow wp-block-group-is-layout-flow\">\n<div class=\"wp-block-media-text alignwide is-stacked-on-mobile\"><figure class=\"wp-block-media-text__media\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"482\" height=\"1024\" src=\"http:\/\/paineira.usp.br\/cje\/babel\/wp-content\/uploads\/2020\/06\/Bruno-Menezes-Caio-Mattos-e-Pedro-Vittorio-24-1-482x1024.png\" alt=\"Programa\u00e7\u00e3o do Festival Apostrof. [Acervo Luis Pasquarelli]\n\" class=\"wp-image-124\" srcset=\"https:\/\/babel.eca.usp.br\/wp-content\/uploads\/2020\/06\/Bruno-Menezes-Caio-Mattos-e-Pedro-Vittorio-24-1-482x1024.png 482w, https:\/\/babel.eca.usp.br\/wp-content\/uploads\/2020\/06\/Bruno-Menezes-Caio-Mattos-e-Pedro-Vittorio-24-1-141x300.png 141w, https:\/\/babel.eca.usp.br\/wp-content\/uploads\/2020\/06\/Bruno-Menezes-Caio-Mattos-e-Pedro-Vittorio-24-1-723x1536.png 723w, https:\/\/babel.eca.usp.br\/wp-content\/uploads\/2020\/06\/Bruno-Menezes-Caio-Mattos-e-Pedro-Vittorio-24-1.png 735w\" sizes=\"auto, (max-width: 482px) 100vw, 482px\" \/><\/figure><div class=\"wp-block-media-text__content\">\n<p class=\"has-normal-font-size wp-block-paragraph\">Agora era aproveitar o festival. Alguns gtpenses &amp; agregados estavam presentes al\u00e9m do Verde, como o David Spira, um membro do Amarelo que tocava o violino em <em>Bodenlos<\/em>, e o Kblo, o mesmo que estivera na chapa que revitalizou o GTP em 2003. Al\u00e9m das apresenta\u00e7\u00f5es, o Apostrof promovia oficinas teatrais, exposi\u00e7\u00f5es, shows e pain\u00e9is de debate. Em uma das oficinas, ministrada por um colombiano, havia uma mulher que o traduzia para o ingl\u00eas; ao mesmo tempo, um homem a traduzia, por sua vez, para o italiano. O jeito que a Amanda achou de entender foi pescar as palavras em uma l\u00edngua que deixava passar em outra. Para se comunicar, por outro lado, variava entre portugu\u00eas, ingl\u00eas, espanhol, e italiano \u2014 quaisquer idiomas em que as palavras viessem \u00e0 mente. \u201cFoi uma das experi\u00eancias internacionais mais bizarras que algu\u00e9m pode ter. O pessoal dizia \u2018Nossa, n\u00e3o entendo. A Amanda \u00e9 a \u00fanica que n\u00e3o fala l\u00edngua nenhuma e \u00e9 a que tem mais amigos!\u2019\u201d Quando andava por a\u00ed, era chamada com frequ\u00eancia pelas amizades que havia feito, e a pron\u00fancia do seu nome variava de acordo com os sotaques. O grupo tamb\u00e9m prestigiava os outros grupos. Um dos melhores espet\u00e1culos, lembra Maur\u00edcio, foi apresentado por uma dupla de s\u00edrios.<\/p>\n<\/div><\/div>\n\n\n\n<p class=\"has-small-font-size wp-block-paragraph\">         Programa\u00e7\u00e3o do Festival Apostrof. [Acervo Luis Pasquarelli]<\/p>\n<\/div><\/div>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u201cFoi sensacional. Toda em \u00e1rabe, ningu\u00e9m entendeu nada mas eles transmitiram tudo. A\u00ed que a gente percebeu a cagada que foi apresentar <em>Bodenlos <\/em>em ingl\u00eas.\u201d Quando n\u00e3o estavam vendo pe\u00e7as, circulavam pela cidade, iam a caf\u00e9s, liam o jornalzinho do evento. Ensaiavam.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">At\u00e9 que come\u00e7aram os conflitos. No \u00faltimo dia do festival, foi organizada uma grande festa. Os gtpenses queriam ficar por l\u00e1, mas a Bia queria que eles dormissem cedo para ensaiar no dia seguinte, tendo em mente uma apresenta\u00e7\u00e3o que fariam na Alemanha alguns dias depois. \u201cVamos. Todo mundo pro albergue\u201d, dizia. \u201cCa-mi-nha. Tchau\u201d, e colocava o dedo no pulso, indicando as horas. O grupo se reuniu e quebrou coletivamente a ordem.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Com cerveja tcheca e comidas de gra\u00e7a, se divertiam. Quando alguns m\u00fasicos h\u00fangaros come\u00e7aram a tocar <em>Garota de Ipanema<\/em>, dos cariocas Antonio Jobim e Vinicius de Moraes, a Isadora e a Amanda, b\u00eabadas, come\u00e7aram a cantar. Os h\u00fangaros, por sua vez, reclamaram que elas estavam desafinando. \u201cO qu\u00ea?? Ela \u00e9 do meu pa\u00eds, eu vou cantar sim\u201d, respondeu a Amanda. \u201cVoc\u00ea toca a\u00ed!, que eu vou cantar.\u201d Os m\u00fasicos respondiam que n\u00e3o, e a discuss\u00e3o toda era traduzida de um lado para o outro, para que os h\u00fangaros e os brasileiros se entendessem durante o desentendimento.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">De volta ao albergue, a discuss\u00e3o foi feia. O grupo, unido h\u00e1 apenas algumas horas, rachou entre membros a favor e contra a Bia. Gritavam. O Kblo e o Maur\u00edcio discutiram entre si por horas, at\u00e9 que o recepcionista do albergue foi no quarto reclamar dos gritos. Aquela discuss\u00e3o, cujo conte\u00fado inclusive hoje \u00e9 nebuloso para alguns dos presentes, iniciada em meio \u00e0 cidade de contos de fadas, culminaria na sa\u00edda de todos os membros do grupo um ano e meio depois.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Depois de Praga, o GTP foi para Berlim, na Alemanha. No dia 8 de julho, se apresentou no Arquivo Flusser da Universidade das Artes de Berlim, para uma das Leituras Internacionais de Flusser. O espa\u00e7o c\u00eanico, menor do que os palcos com os quais o grupo se acostumara, era uma sala de aula adaptada \u2014 remontando aos prim\u00f3rdios da Bia em 2003. Suas paredes eram todas brancas. Dessa vez uma luz rasteira era projetada em dire\u00e7\u00e3o aos atores, de baixo para cima. A luz gerava sombras gigantescas no fundo do palco, a partir dos atores e objetos, o que mudou a din\u00e2mica da pe\u00e7a. Correria, dan\u00e7a.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A cena da despedida foi novamente embaralhada. Portugu\u00eas \u2014 tcheco \u2014 alem\u00e3o. Bra\u00e7os entrela\u00e7ados, aplausos calorosos. \u201cVoc\u00eas conseguiram retratar o ritmo fren\u00e9tico do meu pai\u201d, congratulou o filho de Flusser que estava presente. \u201cO pessoal estava super curioso pra saber como a obra do Flusser teria inspirado uma pe\u00e7a\u201d, lembra Maur\u00edcio. \u201cFoi muito legal ter o reconhecimento dos estudiosos e das pessoas pr\u00f3ximas ao fil\u00f3sofo.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>&#8230;e a dissolu\u00e7\u00e3o em S\u00e3o Paulo<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">De volta ao Brasil, o grupo se apresentou no TUSP entre o fim de julho e o come\u00e7o de agosto de 2009. Os membros do Verde, agora ostentando um festival internacional no curr\u00edculo, voltavam aos trabalhos.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A Amanda, diretora do Laranja, fazia uma experi\u00eancia\u2026\u2026. curiosa\u2026\u2026. com comida durante suas aulas. Pedia para os membros do n\u00facleo juntarem todas as comidas que haviam trazido. E ent\u00e3o, independente do que elas fossem, misturava tudo. E eles comiam (ou tentavam).<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O Luis, \u00e0 frente do Azul, revivia a guerra dos sexos de mais de 25 s\u00e9culos de Arist\u00f3fanes e aplicava o que ia aprendendo no primeiro ano de Artes C\u00eanicas.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O Maur\u00edcio preparava sua mudan\u00e7a para o Rio de Janeiro, pois iniciaria um Mestrado em Engenharia de Produ\u00e7\u00e3o na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A Isadora fazia cada vez mais trabalhos como iluminadora, fun\u00e7\u00e3o que desempenharia profissionalmente anos depois.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Quatro dias antes do natal, o Amarelo apresentou pela \u00faltima vez <em>Terror e Mis\u00e9ria no Terceiro Reich<\/em>. Seus atores conduziam o p\u00fablico pela Poli, \u00e0 noite, representando as cenas em diversos ambientes. Ao som de gritos, marchavam como em prociss\u00e3o, ressignificando a Poli no Grande Imp\u00e9rio Alem\u00e3o. Era o fim da temporada de 2009.<\/p>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-image\"><figure class=\"aligncenter size-large is-resized\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"http:\/\/paineira.usp.br\/cje\/babel\/wp-content\/uploads\/2020\/06\/Bruno-Menezes-Caio-Mattos-e-Pedro-Vittorio-25.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-126\" width=\"470\" height=\"665\" srcset=\"https:\/\/babel.eca.usp.br\/wp-content\/uploads\/2020\/06\/Bruno-Menezes-Caio-Mattos-e-Pedro-Vittorio-25.jpg 626w, https:\/\/babel.eca.usp.br\/wp-content\/uploads\/2020\/06\/Bruno-Menezes-Caio-Mattos-e-Pedro-Vittorio-25-212x300.jpg 212w\" sizes=\"auto, (max-width: 470px) 100vw, 470px\" \/><figcaption>Cartaz da pe\u00e7a <em>Terror e Mis\u00e9ria no Terceiro Reich<\/em>, de Bertolt Brecht, apresentada em 2009 em diversos locais da Poli. [Acervo Rodrigo Braga]<br><\/figcaption><\/figure><\/div>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">No ano seguinte, a estudante Karina Neves, que havia sido do Gr\u00eamio em 2003 e do GTP em 2006 e trancado a Poli em 2008 por quest\u00f5es pessoais, voltava a cursar Engenharia Civil na institui\u00e7\u00e3o. Sua gradua\u00e7\u00e3o atrasara mais do que o planejado, por isso toda essa agita\u00e7\u00e3o, Gr\u00eamio, GTP, isso agora era secund\u00e1rio, at\u00e9 menos que isso. Nem passava pela cabe\u00e7a dela \u2014 apesar de manter amizades que havia feito. Um dia, durante o intervalo de uma aula, foi fumar um cigarro e uma colega puxou assunto. Conversa vai, conversa vem, falaram sobre o GTP. \u201c\u00c9, eu j\u00e1 fui do grupo um dia\u201d, comentou. Sil\u00eancio. \u201cEspera a\u00ed, voc\u00ea \u00e9 a Karina?\u201d, a colega respondeu.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Acontece que a Karina era famosa entre os membros do grupo. Anos antes, como membro do Gr\u00eamio, ela tivera discuss\u00f5es calorosas com a Bia sobre o rumo que o GTP deveria tomar. N\u00e3o concordava nem um pouco com a cria\u00e7\u00e3o de um n\u00facleo profissionalizante, e enfrentara mais de uma vez a diretora sobre esse assunto. De modo que, entre um trago e outro, naquela conversa em 2010, aquela sua colega ia contando sobre como a diretora costumava falar mal de uma tal Karina, e ela ia ouvindo aquilo espantada.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Acontece tamb\u00e9m que, enquanto parte do grupo havia conhecido o esplendor de Praga, outra parte alimentava ressentimento. Por que alguns eram escolhidos para o n\u00facleo Verde e outros n\u00e3o? Por que alguns at\u00e9 haviam virado diretores? Por que era a Bia quem coordenava o grupo desde 2003? Quem a havia eleito?<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A diretora buscava dar voz a todos esses conflitos e buscava liderar o GTP de maneira democr\u00e1tica. Era normal que dissens\u00f5es surgissem, afinal, naquele ano, o grupo contava com 127 membros e agora at\u00e9 alunos de Artes C\u00eanicas buscavam uma oportunidade nele.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Mesmo assim, o ressentimento crescia. \u201cO GTP era uma roda opressora\u201d, lembra Amanda. \u201cEu fui uma das \u00faltimas a perceber porque estava muito imersa nos processos art\u00edsticos.\u201d Alunos insatisfeitos com a diretora come\u00e7aram a buscar a Karina, que n\u00e3o fazia ideia do porqu\u00ea de tanta aten\u00e7\u00e3o. A Bia, sem saber, a havia transformado numa v\u00e1lvula de escape para os gtpenses descontentes. A estudante ia ouvindo os relatos e n\u00e3o acreditava. Havia quem acusasse a diretora de abuso psicol\u00f3gico; havia quem acusasse de abuso de poder; muitos se sentiam pequenos, coagidos em situa\u00e7\u00f5es do dia a dia. A lista ia aumentando.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A coisa ganhou outra dimens\u00e3o quando a diretora demitiu a Amanda. Aquela discuss\u00e3o em Praga evolu\u00edra de tal modo em S\u00e3o Paulo que a rela\u00e7\u00e3o entre ela e a Bia se tornara insustent\u00e1vel. At\u00e9 mesmo coment\u00e1rios viravam motivo de disc\u00f3rdia \u2014 quando a Amanda falou, por exemplo, que, apesar da beleza de Praga, estava por estava feliz por ter voltado ao Brasil, a Bia n\u00e3o gostou. Quando ela saiu, muitos sa\u00edram junto, por discordar da decis\u00e3o da Bia. Defendiam que seus motivos haviam sido pessoais e n\u00e3o art\u00edsticos. Outros continuaram, mas agora ainda mais insatisfeitos. A Isadora e o estudante de Engenharia El\u00e9trica Thiago Paiva assumiram a dire\u00e7\u00e3o do n\u00facleo Laranja; o Dion\u00edsio assumiu o Vermelho com a Bia no Vermelho; o Luis e a Bia dirigiam agora o Amarelo lado a lado.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Ao longo desse processo de cis\u00e3o, a Bia pensava no futuro do grupo. Foi ent\u00e3o que chamou a N\u00e9ia Barbosa para um ch\u00e1. Sem compromisso. Disse que as coisas n\u00e3o estavam bem no GTP e que talvez as coisas fossem mudar por l\u00e1. A N\u00e9ia estranhou, mas n\u00e3o deu muita aten\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">No final de 2010, sofrendo press\u00f5es por parte do grupo, do Gr\u00eamio e dos defensores da Amanda, o GTP convocou uma esp\u00e9cie de assembleia geral entre seus membros. Na sala Ant\u00f4nio Januzelli, a mesma que o grupo havia limpado e arrumado 6 anos antes, as \u201cfac\u00e7\u00f5es\u201d discutiram por horas, horas e horas. Estavam divididos entre os que apoiavam e os que contrariavam a Bia. \u201cEla sofreu muito\u201d, diz Maur\u00edcio sobre a diretora. \u201cO m\u00e9todo dela era uma bomba rel\u00f3gio\u201d, lembra Karina. \u201cTodo mundo saiu magoado\u201d, lembra Dion\u00edsio, que chorou quando saiu do GTP. \u201cFoi muito conturbado. Muitas quest\u00f5es pessoais envolvidas\u201d, comenta Luis. \u201cMuita exposi\u00e7\u00e3o desnecess\u00e1ria.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Com os membros do grupo exaustos f\u00edsica e emocionalmente, a assembleia chegava ao fim. A decis\u00e3o estava tomada. A Bia sairia do GTP.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Novo tempo sobre as cinzas<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Quando a N\u00e9ia entrou na salinha do GTP, chorou.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">As paredes estavam pichadas e com mensagens de \u00f3dio escritas a giz at\u00e9 o teto. \u201cFora, Bia.\u201d Palavr\u00f5es. As varas de ilumina\u00e7\u00e3o haviam sido destru\u00eddas, e as cortinas, arrancadas dos trilhos. Seu choro ecoava no sil\u00eancio.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A diretora havia sido contatada no dia 23 de dezembro de 2010 pelo Gr\u00eamio Polit\u00e9cnico. O aviso que a Bia Szvat lhe dera, naquele caf\u00e9, aquele que ela ouvira sem acreditar na possibilidade, se mostrava verdadeiro \u2014 talvez at\u00e9 mais verdadeiro do que a pr\u00f3pria Bia teria desejado.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u201cEstamos sem ningu\u00e9m pra dirigir o GTP no ano que vem\u201d, disse o membro do Gr\u00eamio. \u201cVoc\u00ea topa?\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A N\u00e9ia Barbosa nasceu no interior de S\u00e3o Paulo. Veio para a capital para estudar, se formando em Comunica\u00e7\u00e3o pela Faculdade C\u00e1sper L\u00edbero em 1988. Mais de uma d\u00e9cada e meia depois, ap\u00f3s uma s\u00e9rie de cursos e aprendizados no teatro, ela j\u00e1 atuava profissionalmente e resolveu fazer p\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o em Artes C\u00eanicas. Entrou em 2004 na Universidade S\u00e3o Judas Tadeu, onde teve como professores o cen\u00f3grafo Fausto Viana e o diretor Ant\u00f4nio Januzelli, e como colega de classe, Bia Szvat.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Foi a convite da Bia que N\u00e9ia participara de <em>O Que Sobrou de Tudo Isso?<\/em>, pe\u00e7a autoral do GTP de 2004, onde ela interpretava a Liberdade. Foi a convite dela tamb\u00e9m que N\u00e9ia dirigira o n\u00facleo Vermelho do grupo em 2008, montando <em>Um Bonde Chamado Desejo<\/em>, do norte-americano Tennessee Williams, fazendo os homens interpretarem mulheres e vice-versa.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Mas dessa vez n\u00e3o teve convite por parte da Bia, e sim uma indica\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Era o in\u00edcio de 2011 e a N\u00e9ia, em busca do que fazer para limpar a salinha abandonada, resolveu lavar as cortinas da salinha na sua casa. Talvez isso n\u00e3o tenha sido uma \u00f3tima ideia, pois a sua m\u00e1quina de lavar saiu queimada. Talvez fosse um sinal de que n\u00e3o daria para fazer aquilo sozinha.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Junto de alguns poucos membros que haviam sobrado, limpou a salinha, tirou a tinta e o giz da parede e consertou os trilhos das cortinas \u2014 a parte el\u00e9trica acabaria demorando uns anos a mais. Com a salinha limpa, os trabalhos come\u00e7aram. Era dif\u00edcil atrair novos membros, pois os acontecimentos de 2010 haviam sujado o nome do grupo. Mesmo assim, alguns entraram, e era com esses que a diretora reconstruiria o GTP.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Ela chamou o F\u00e1bio Azevedo, ator que ela havia dirigido em 2004 na pe\u00e7a <em>Viol\u00eancia da Carne<\/em> do paulistano Marcelo Medeiros, para dirigir o n\u00facleo iniciante enquanto ela dirigia o avan\u00e7ado. Ele havia sido gal\u00e3 da <em>Malha\u00e7\u00e3o <\/em>em 2000, se dedicava \u00e0 dublagem desde 2004 e&nbsp; estava dispon\u00edvel.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Com N\u00e9ia e F\u00e1bio \u00e0 frente do GTP, o grupo conheceu o primeiro dos muitos anos de estabilidade que se seguiram. No fim de 2011, apresentaram exerc\u00edcios c\u00eanicos: N\u00e9ia dirigiu <em>Entre Quatro Paredes<\/em>, do franc\u00eas Jean-Paul Sartre; F\u00e1bio, <em>Valsa n\u00ba 6<\/em>, de Nelson Rodrigues, pernambucano criado no Rio de Janeiro.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Em 2012, sob a dire\u00e7\u00e3o de F\u00e1bio, o n\u00facleo Vermelho do GTP apresentou <em>Destino Vermelho<\/em> na Semana de Arte da Poli. A pe\u00e7a, que \u00e9 autoral e sem falas, narra uma hist\u00f3ria de amor e de pacto com o diabo no decorrer de quase todos os 37 minutos de tango do \u00e1lbum <em>Trio Esquina<\/em>, uma colet\u00e2nea italiana lan\u00e7ada em 1998 de 11 faixas de m\u00fasicas do g\u00eanero portenho. Al\u00e9m da Semana de Arte, o grupo, composto por pelo menos 15 pessoas, se apresentou outras seis a sete vezes at\u00e9 dezembro de 2012.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O n\u00facleo Amarelo, por sua vez, montou sob dire\u00e7\u00e3o da N\u00e9ia o texto<em> Fala Comigo Doce como a Chuva<\/em>, drama de um ato de Tennessee Williams que retrata um casal em crise.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Turn\u00ea pela Para\u00edba<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">N\u00e9ia prop\u00f5e em 2013 ao GTP produzir uma adapta\u00e7\u00e3o de <em>Pode Ser que Seja S\u00f3 o Leiteiro L\u00e1 Fora<\/em>, do ga\u00facho Caio Fernando Abreu, como um espet\u00e1culo \u00e0 parte da temporada do grupo. Os atores foram escalados independentemente de n\u00facleo, e tendo em vista que a pe\u00e7a apresenta caracter\u00edsticas semelhantes ao Teatro do Oprimido, foram chamadas pessoas de maior sensibilidade. Mas a disponibilidade tamb\u00e9m foi um fator para a escala\u00e7\u00e3o. Afinal, a proposta de N\u00e9ia envolvia apresentar a pe\u00e7a na Para\u00edba, \u00e0 cortesia da Universidade Federal da Para\u00edba. O espet\u00e1culo estava marcado para o final de julho.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O elenco, escalado por crit\u00e9rio de disponibilidade, envolveu oito pessoas. Para compensar o fato de a pe\u00e7a original ter apenas sete personagens, Brunno Silotto interpreta Caio Fernando Abreu, que interage com os outros atores apenas ao final do espet\u00e1culo. A partir de maio, come\u00e7a os ensaios, que ocorriam pelo menos na sexta-feira \u00e0 noite e no s\u00e1bado pela manh\u00e3 para evitar coincidir com os hor\u00e1rios dos ensaios dos n\u00facleos.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Um caso que ajuda a ilustrar o comprometimento daquele grupo com o projeto \u00e9 o de Sebastian Kapelius, ou simplesmente Seba, que foi gtpense em 2013, 2016, 2019 e 2020. Para aprender os trejeitos de sua personagem de modo convincente, o estudante de engenharia mecatr\u00f4nica lembra de ter de frequentar a faculdade usando maquiagem e vestindo roupas femininas \u2013 uma atitude transgressora em um ambiente mais conservador como a Poli, segundo o pr\u00f3prio. O m\u00e9todo, no entanto, era necess\u00e1rio porque seu papel na pe\u00e7a era o de Alice Cooper, uma personagem andr\u00f3gina que Seba considera a mais marcante e que mais deu trabalho em toda sua passagem pelo GTP.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Os ensaios passaram a acontecer todos os dias de segunda-feira a s\u00e1bado com a chegada das f\u00e9rias. Durante um final de semana, N\u00e9ia e o elenco se concentraram na casa da av\u00f3 de Ti\u00ea Higashi, estudante da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo e integrante do grupo, em S\u00e3o Bernardo do Campo. \u201cUm ensaio intensivo dentro do intensivo\u201d, descreve Igor Goldstein, da turma de Engenharia El\u00e9trica com \u00eanfase em Computa\u00e7\u00e3o de 2012.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Para avaliar no elenco o senso de uni\u00e3o, premissa de <em>Pode Ser que Seja S\u00f3 o Leiteiro L\u00e1 Fora<\/em>, visto que, na hist\u00f3ria, os exclu\u00eddos se acumulam em uma comunidade em um corti\u00e7o, N\u00e9ia prop\u00f5e um teste ao grupo. Privados da vis\u00e3o, os integrantes se sentam no piso da casa da av\u00f3 de Ti\u00ea, e se entrela\u00e7am pelos bra\u00e7os. A diretora, a antagonista, tenta desat\u00e1-los, e, a cada membro, a cada la\u00e7o rompido, a press\u00e3o de suas for\u00e7as vindas do exterior se potencializam sobre o elenco. Mas n\u00e3o seria apenas o leiteiro l\u00e1 fora?<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">N\u00e9ia e o elenco chegam a Jo\u00e3o Pessoa, a 2.781 quil\u00f4metros da Escola Polit\u00e9cnica, por volta de<strong> <\/strong>29 de julho. A Universidade de S\u00e3o Paulo pagou apenas as passagens de avi\u00e3o de ida e volta para o grupo; a Universidade Federal da Para\u00edba financiou o restante, incluindo quartos individuais, dentre eles pelo menos um com sacada e cozinha, em um hotel 4 estrelas na orla da praia de Cabo Branco. Recep\u00e7\u00e3o digna da Broadway.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Em Jo\u00e3o Pessoa, o espet\u00e1culo foi apresentado no audit\u00f3rio e no espa\u00e7o cultural da Universidade Federal da Para\u00edba. A pe\u00e7a foi encenada pela terceira e \u00faltima vez na Para\u00edba no 14\u00ba Festival de Artes da cidade de Areia, a 93,64 quil\u00f4metros da capital do estado. A plateia excedeu os cerca de 300 assentos do teatro de tablado de madeira do Teatro Minerva, em Areia, cidade de cerca de 23 mil habitantes; pouco mais de tr\u00eas areienses para cada estudante da Escola Polit\u00e9cnica.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O GTP se apresentou no 3\u00ba dos 7 dias do Festival. Ele ocorria em toda a cidade de Areia, em locais como pra\u00e7as, col\u00e9gios, um casar\u00e3o, uma igreja e a c\u00e2mara municipal. Mais de 130 atra\u00e7\u00f5es eram oferecidas em linguagens art\u00edsticas como artes visuais, circo, dan\u00e7a, m\u00fasica e teatro. Entre as principais estavam as cantoras Zizi Possi e Z\u00e9lia Duncan.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A adapta\u00e7\u00e3o de <em>Pode Ser que Seja S\u00f3 o Leiteiro L\u00e1 Fora<\/em> ainda foi apresentada no Instituto Nacional de Telecomunica\u00e7\u00f5es, uma institui\u00e7\u00e3o de ensino superior na cidade de Santa Rita do Sapuca\u00ed, no sul de Minas Gerais, e, por fim, na Sala do GTP.<\/p>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-image\"><figure class=\"aligncenter size-large\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"960\" height=\"642\" src=\"http:\/\/paineira.usp.br\/cje\/babel\/wp-content\/uploads\/2020\/06\/Bruno-Menezes-Caio-Mattos-e-Pedro-Vittorio-26.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-127\" srcset=\"https:\/\/babel.eca.usp.br\/wp-content\/uploads\/2020\/06\/Bruno-Menezes-Caio-Mattos-e-Pedro-Vittorio-26.jpg 960w, https:\/\/babel.eca.usp.br\/wp-content\/uploads\/2020\/06\/Bruno-Menezes-Caio-Mattos-e-Pedro-Vittorio-26-300x201.jpg 300w, https:\/\/babel.eca.usp.br\/wp-content\/uploads\/2020\/06\/Bruno-Menezes-Caio-Mattos-e-Pedro-Vittorio-26-768x514.jpg 768w\" sizes=\"auto, (max-width: 960px) 100vw, 960px\" \/><figcaption>Cena da pe\u00e7a <em>Pode Ser que Seja S\u00f3 o Leiteiro L\u00e1 Fora<\/em>, de Caio Fernando Abreu, apresentada em 2013. Em cena, Sebastian Kapelius (esq.) e Igor Goldstein (dir.) [Acervo Sebastian Kapelius]<\/figcaption><\/figure><\/div>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O n\u00facleo Verde ainda retornaria \u00e0 programa\u00e7\u00e3o usual do grupo no final daquele ano, com a apresenta\u00e7\u00e3o de <em>Nos Por\u00f5es de Torquemada<\/em>, adapta\u00e7\u00e3o de <em>Torquemada<\/em>, do famoso dramaturgo carioca Augusto Boal. Miguel Giansante, primeiranista do grupo que tamb\u00e9m participou do festival na Para\u00edba, conta que o texto faz uma rela\u00e7\u00e3o com a ditadura atrav\u00e9s do Torquemada, personagem do final da Idade M\u00e9dia conhecido como &#8220;O Grande Inquisidor&#8221;. &#8220;A pe\u00e7a fala sobre prisioneiros, sobre os industriais que apoiavam a ditadura. Em 2013 especialmente a gente estava muito forte, era o ano da Comiss\u00e3o da Verdade&#8221;, conclui.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A apresenta\u00e7\u00e3o <em>Treme Treme<\/em> corresponde ao primeiro trabalho de Paulo Em\u00edlio Lisboa na dire\u00e7\u00e3o de uma pe\u00e7a do GTP, e foi um projeto do n\u00facleo Vermelho.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O Amarelo, por outro lado, ficou encarregado de encenar <em>Bailei na Curva<\/em>, cl\u00e1ssica pe\u00e7a do teatro ga\u00facho escrita pelo caxiense J\u00falio Conte. Passada em um contexto de ditadura militar, a hist\u00f3ria contou a trajet\u00f3ria na inf\u00e2ncia, adolesc\u00eancia e vida adulta de seis (sete no texto original) personagens relacionados entre si por terem morado na mesma rua. O grupo chegou a reencenar <em>Bailei na Curva<\/em> em maio do ano seguinte, como parte da programa\u00e7\u00e3o da j\u00e1 extinta Tenda Cultural Ortega y Gasset, na USP.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>O p\u00fablico toma o palco<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O Grupo de Teatro da Poli se rejuvenesceu em 2014. Estudantes da gradua\u00e7\u00e3o da Escola Polit\u00e9cnica e de outras unidades da Universidade de S\u00e3o Paulo, e n\u00e3o apenas do primeiro ano, prevaleceram na composi\u00e7\u00e3o do grupo, um tend\u00eancia que persistir\u00e1 desde ent\u00e3o, em contraponto aos membros j\u00e1 empregados e sem nenhum v\u00ednculo com a universidade.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Embora sempre representassem pelo menos 10%<strong> <\/strong>do grupo desde 2012, os \u201cvelhos\u201d n\u00e3o conseguiam dar continuidade aos seus empenhos no grupo visto que o teatro universit\u00e1rio era apenas um lazer emaranhado em um fio da teia das institui\u00e7\u00f5es, trabalho e fam\u00edlia, pelas quais suas vidas eram tecidas.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Os ingressantes de 2014 produziram para a Semana de Arte da Poli daquele mesmo ano, pelo n\u00facleo Amarelo, <em>Sonho de Uma Noite de Ver\u00e3o<\/em>, de William Shakespeare. Os ensaios ocorriam \u00e0s noites de sexta-feira e \u00e0s manh\u00e3s de s\u00e1bado, fendidos pelas ainda permitidas festas no Vel\u00f3dromo e em outras partes da Cidade Universit\u00e1ria que atra\u00edam centenas de pessoas, lembra um dos ingressantes de 2014, Rodrigo Lara, que estudava na Escola Polit\u00e9cnica havia um ano.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">As primeiras apresenta\u00e7\u00f5es de <em>Sonho de Uma Noite de Ver\u00e3o<\/em>, na Sala do GTP para a Semana de Arte da Poli, em novembro reproduziram o cen\u00e1rio de plateias n\u00e3o lotadas devido \u00e0 concorr\u00eancia com o espet\u00e1culo compuls\u00f3rio da Semana de Provas da Poli. Mas, em uma das \u00faltimas apresenta\u00e7\u00f5es, por volta de dezembro, o grupo se apresentou para o maior p\u00fablico que nunca vira antes sob a dire\u00e7\u00e3o de N\u00e9ia, e quem sabe nem ver\u00e1 desde ent\u00e3o. Pessoas entraram na Sala do GTP e ocuparam arquibancadas, e entraram e se sentaram no ch\u00e3o ao lado das arquibancadas, e entraram e se sentaram&#8230;. bom, onde desse. Alguns at\u00e9 apoiavam os p\u00e9s na&nbsp; quarta parede..<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A pe\u00e7a come\u00e7a. Quatro jovens atenienses passam a noite numa floresta. Puck, uma criatura m\u00e1gica, espera que eles adorme\u00e7am para pingar o suco de um amor-perfeito flechado pelo Cupido em suas p\u00e1lpebras, corrigindo assim seus amores n\u00e3o correspondidos quando acordassem. Um dos jovens se deit\u2026 Se dei\u2026. Um dos jovens tenta se deitar, mas o espa\u00e7o est\u00e1 apertado: dos cerca de 5&#215;5 metros quadrados do palco, sobraram 2&#215;2. O resto est\u00e1 ocupado pelo p\u00fablico. Rodrigo Lara, um dos estreantes do grupo que interpretava Lisandro, conta que afinal conseguiu se deitar ap\u00f3s um pouco de esfor\u00e7o.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u201cTinha algo de especial naquela turma de iniciantes de 2014\u201d, disse Igor Goldstein, que estava no GTP desde 2012 e interpretou Puck em <em>Sonho de Uma Noite de Ver\u00e3o<\/em>. Treze dos 16 atores do espet\u00e1culo eram estudantes da Escola Polit\u00e9cnica ou de outra unidade da USP que ingressaram no GTP em 2014. Dentre aqueles novatos de 2014, seis<strong> <\/strong>passaram por pelo menos duas temporadas no teatro polit\u00e9cnico, dentre eles Lara, que ficou no grupo at\u00e9 o in\u00edcio de 2020.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O GTP ainda apresentou no final de 2014 <em>O Beijo no Asfalto<\/em>, de Nelson Rodrigues. O espet\u00e1culo foi produzido pelo n\u00facleo Vermelho e sob a dire\u00e7\u00e3o de Luiz Luccas e Paulo Em\u00edlio. Sob a rigidez de Luccas, o elenco do espet\u00e1culo se coordenou em um sistema de rota\u00e7\u00e3o de pap\u00e9is pelo qual todos os atores interpretavam todos os personagens, semelhante \u00e0 t\u00e9cnica empregada pelo ex-diretor do GTP Lino Rojas em <em>O Rei da Vela <\/em>no final da d\u00e9cada de 1970.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Atriz no espet\u00e1culo, Beatriz Minguzzi, ent\u00e3o estudante da Faculdade de Ci\u00eancias Farmac\u00eauticas da USP, recorda que um elemento do figurino de cada personagem foi salientado para servir de elemento de identifica\u00e7\u00e3o e permitir a troca de pap\u00e9is entre os atores no decorrer da trama. Na plateia, o pai de Beatriz, Arnaldo, se encantou pela dan\u00e7a da permuta c\u00eanica, de ator para ator, de personagem para personagem. A cad\u00eancia medida ao rigor da dire\u00e7\u00e3o de Luccas, por\u00e9m, n\u00e3o foi o que lhe chamou a aten\u00e7\u00e3o. De personagem em personagem, Beatriz chegou \u00e0 cena do interrogat\u00f3rio para ser inquirida por Cunha, mesmo papel que seu pai interpretara havia 15 anos.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-large\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"960\" height=\"640\" src=\"http:\/\/paineira.usp.br\/cje\/babel\/wp-content\/uploads\/2020\/06\/Bruno-Menezes-Caio-Mattos-e-Pedro-Vittorio-27.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-128\" srcset=\"https:\/\/babel.eca.usp.br\/wp-content\/uploads\/2020\/06\/Bruno-Menezes-Caio-Mattos-e-Pedro-Vittorio-27.jpg 960w, https:\/\/babel.eca.usp.br\/wp-content\/uploads\/2020\/06\/Bruno-Menezes-Caio-Mattos-e-Pedro-Vittorio-27-300x200.jpg 300w, https:\/\/babel.eca.usp.br\/wp-content\/uploads\/2020\/06\/Bruno-Menezes-Caio-Mattos-e-Pedro-Vittorio-27-768x512.jpg 768w\" sizes=\"auto, (max-width: 960px) 100vw, 960px\" \/><figcaption>O p\u00fablico aplaude o GTP ap\u00f3s a apresenta\u00e7\u00e3o de Sonho de uma Noite de Ver\u00e3o, de William Shakespeare, que lotou a Sala do GTP em 2014. No fundo, de \u00f3culos, est\u00e1 Igor Goldstein. \u00c0 frente, de vestimenta marrom, est\u00e1 Rodrigo Lara [Acervo Allan Almeida]<br><\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Gota d\u2019\u00e1gua e outras apresenta\u00e7\u00f5es&nbsp;<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Em 2015 Yuri Gomes, que fora do GTP, cursava Engenharia Inform\u00e1tica na Universidade de Tecnologia Compi\u00e8gne, na Fran\u00e7a. A N\u00e9ia, que se questionava cada vez mais sobre a carreira e que o teatro significava para si, ligou para ele, e eles combinaram um mochil\u00e3o. Passaram pelo sul da Fran\u00e7a e foram at\u00e9 Mil\u00e3o, e depois que ele voltou para a Fran\u00e7a, ela ficou mais um tempo na Inglaterra. Foram 4 meses.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">De volta ao Brasil, N\u00e9ia assumiu a dire\u00e7\u00e3o da pe\u00e7a <em>Amor\u00edssimo<\/em>, texto autoral de um dos alunos do n\u00facleo Vermelho que parecia ter tudo para dar errado. Mais por obriga\u00e7\u00e3o que por prazer, a pe\u00e7a saiu, e naquele ano o GTP tamb\u00e9m apresentou <em>Assim \u00e9 (se lhe parece)<\/em>, do italiano Luigi Pirandello, sob dire\u00e7\u00e3o da N\u00e9ia pelo n\u00facleo Verde, e a com\u00e9dia <em>Vamos?<\/em>, do paulista M\u00e1rio Vianna, dirigido pelo Luiz Luccas e estrelado pelo n\u00facleo Amarelo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">No ano seguinte o Amarelo montou <em>O Despertar da Primavera<\/em>, do dramaturgo alem\u00e3o Frank Wedekind. Um <em>pallet<\/em> de madeira era equilibrado entre as duas metades de uma pequena arquibancada ao fundo da sala, simulando uma ponte. Uma das atrizes, Beatriz Minguzzi, lembra da dificuldade de fazer uma das cenas no local. Sua personagem era uma prostituta que subia a arquibancada, atravessava a \u201cponte\u201d sorrindo e descia, sem olhar onde pisava. \u201cEra bem diferente do que eu estava acostumada a fazer, mas foi uma pe\u00e7a divertida\u201d, lembra.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><em>Gota d\u2019\u00c1gua<\/em>, do carioca Chico Buarque e do paraibano Paulo Pontes, foi escolhida para ser a pe\u00e7a do n\u00facleo Verde na Semana de Arte da Poli de 2016. As tr\u00eas horas de espet\u00e1culo n\u00e3o seriam o maior desafio do grupo. Parte do elenco faltava em ensaios e, at\u00e9 mesmo, n\u00e3o decorava suas pr\u00f3prias falas. Esses impasses de montagem pareceram se concentrar no grupo das \u201cdonas de casa\u201d, um dos tr\u00eas pilares da hist\u00f3ria, junto aos grupos dos \u201cpersonagens principais\u201d e do \u201cbar\u201d, como descreve Rodrigo Lara.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A horas, talvez minutos, da primeira apresenta\u00e7\u00e3o do grupo, no final de 2016, uma das atrizes principais do grupo das donas de casa desistiu de se apresentar e desfalcou o elenco. N\u00e9ia, que codirigiu a pe\u00e7a junto com Luccas, assumiu o papel. Sem decorar quase nenhuma das falas de seu personagem, a diretora mergulhou o roteiro dentro de uma bacia. O adere\u00e7o, que nunca sentira a textura da \u00e1gua ou o odor de uma trouxa de duas semanas, permitiu que N\u00e9ia lesse suas falas e lavasse o espet\u00e1culo da aus\u00eancia do comprometimento.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Pausa. Intervalo de 15 minutos na metade da pe\u00e7a. Os integrantes do grupo do bar venderam refrigerante e \u00e1gua \u00e0 plateia. Os baristas, dentre eles Lara, conseguiram arrecadar at\u00e9 30 a 40 reais por noite.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">No grupo dos personagens protagonistas, Isabella Ogusuku, do Instituto de Qu\u00edmica da USP, e Beatriz Figueiredo, da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da USP, brilharam. Ogusuku e Figueiredo interpretaram a mesma personagem, Joana. \u201cGrosso modo\u201d, descreve Lara, a qu\u00edmica declamava os mon\u00f3logos internos, enquanto que a arquiteta reproduzia sua faceta p\u00fablica. Duas em uma. N\u00e9ia decidiu pela partilha da protagonista devido \u00e0 qualidade de ambas as atrizes, que ent\u00e3o disputavam o papel. Antes rivais, a dupla se harmonizou e cantou em dueto no espet\u00e1culo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A adapta\u00e7\u00e3o de <em>Gota d\u2019\u00c1gua<\/em> pelo n\u00facleo Verde foi um sucesso. O empenho de \u00faltima hora&nbsp; de N\u00e9ia, o carisma dos baristas, o talento de Ogusuku e Figueiredo e a compet\u00eancia do restante do elenco fizeram jus ao texto de Buarque e Pontes, montado com frequ\u00eancia no Brasil desde sua estreia em 1975. Foram realizadas pelo menos cerca de 10 apresenta\u00e7\u00f5es, mais do que qualquer outra pe\u00e7a do GTP, recorda Lara, estendendo-se at\u00e9 meados do primeiro semestre de 2017.<\/p>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-image\"><figure class=\"aligncenter size-large\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"960\" height=\"720\" src=\"http:\/\/paineira.usp.br\/cje\/babel\/wp-content\/uploads\/2020\/06\/Bruno-Menezes-Caio-Mattos-e-Pedro-Vittorio-28.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-130\" srcset=\"https:\/\/babel.eca.usp.br\/wp-content\/uploads\/2020\/06\/Bruno-Menezes-Caio-Mattos-e-Pedro-Vittorio-28.jpg 960w, https:\/\/babel.eca.usp.br\/wp-content\/uploads\/2020\/06\/Bruno-Menezes-Caio-Mattos-e-Pedro-Vittorio-28-300x225.jpg 300w, https:\/\/babel.eca.usp.br\/wp-content\/uploads\/2020\/06\/Bruno-Menezes-Caio-Mattos-e-Pedro-Vittorio-28-768x576.jpg 768w\" sizes=\"auto, (max-width: 960px) 100vw, 960px\" \/><figcaption>Elenco de <em>Gota d\u2019\u00c1gua<\/em>, de Chico Buarque e Paulo Pontes, apresentada em 2017. Da esquerda para a direita, na fileira de cima: N\u00e9ia Barbosa, Miguel Giansante, Verena Fridegotto, Mateus Figueiredo, Igor Goldstein, Felipe Figueirero, Pedro Faria, Lis Souza, Everton Miranda, William Werner, Eduardo Laurentino, Luiz Luccas; na fileira de baixo, Paula Batt, J\u00falia Falcone, Isabella Ogusuku, Marcelo Deguti, Beatriz Figueiredo, Rodrigo Lara, Beatriz Minguzzi e Felipe Lima.<\/figcaption><\/figure><\/div>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Ap\u00f3s as apresenta\u00e7\u00f5es de <em>Gota d\u2019\u00c1gua<\/em>, o n\u00facleo Verde, sob a dire\u00e7\u00e3o de N\u00e9ia e Luccas, apresentou para a Semana de Arte da Poli de 2017<em> A Lei e O Rei<\/em>, da carioca Teresa Frota, o primeiro espet\u00e1culo do GTP voltado ao p\u00fablico infantil. A pe\u00e7a, cuja trama central \u00e9 o embate entre dois monarcas, o rei M\u00e1ssimo e o rei Ol\u00edgonos, \u00e9 constru\u00eddo em um estilo de humor para crian\u00e7as desenvolvido na Idade M\u00e9dia, segundo Lara, e trabalha na cria\u00e7\u00e3o dos personagens principalmente com o uso de estere\u00f3tipos.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u201c\u00c9 como se fosse uma com\u00e9dia espalhafatosa\u201d, explica Igor Goldstein, que interpretou Lindomais, filho do rei M\u00e1ssimo. Em uma cena, Lindomais, \u201co personagem mais glamoroso e delicado da pe\u00e7a\u201d, trava um duelo em um coliseu com seu irm\u00e3o e rival, \u201co dur\u00e3o e mach\u00e3o\u201d Belamenos, interpretado por Marcelo Deguti, polit\u00e9cnico radicado no Instituto de Psicologia da USP. O confronto entre Yin e Yang, \u201cos tapinhas no ar\u201d, se desenvolve em uma corrida de pega e at\u00e9 mesmo em uma dan\u00e7a das cadeiras.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Lindomais e Belamenos arrancaram risos das crian\u00e7as\u2026 Pelo menos, as seis ou menos que vieram ao espet\u00e1culo. Dentre as cerca de sete apresenta\u00e7\u00f5es entre outubro e dezembro, apenas duas atra\u00edram crian\u00e7as, em sua maioria, sen\u00e3o totalidade, parentes de membros do GTP ou de conhecidos.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O final do ano tamb\u00e9m contou com as apresenta\u00e7\u00f5es de <em>Ensaio para Danton<\/em>, dos paulistas S\u00e9rgio de Carvalho e M\u00e1rcio Marciano, e <em>Boca de Ouro<\/em>, de Nelson Rodrigues. A primeira, encenada pelo Amarelo, \u00e9 uma adapta\u00e7\u00e3o livre da obra teatral <em>A Morte de Danton<\/em>, do alem\u00e3o Georg B\u00fcchner, que conta a hist\u00f3ria do l\u00edder revolucion\u00e1rio Georges Danton, morto pelos pr\u00f3prios insurgentes durante a Revolu\u00e7\u00e3o Francesa.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><em>Boca de Ouro<\/em>, por sua vez, foi fruto dos trabalhos do Vermelho com assist\u00eancia de Miguel em seu \u00faltimo ano de GTP. A trama girava em torno do personagem que d\u00e1 nome \u00e0 pe\u00e7a, um bicheiro temido do Rio de Janeiro cuja hist\u00f3ria e vida no crime \u00e9 contada sob o olhar de uma ex-amante.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><em>Um Bonde Chamado Desejo<\/em>, de Tennessee Williams, <em>De Corpo Presente<\/em>, da paulista Mara Carvalho, e <em>A<\/em> <em>Mandr\u00e1gora<\/em>, do italiano Nicolau Maquiavel, foram os trabalhos escolhidos para a programa\u00e7\u00e3o do GTP em 2018.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Maquiavel, que al\u00e9m de te\u00f3rico pol\u00edtico influente at\u00e9 os dias de hoje tamb\u00e9m era escritor de obras primas Renascentistas, satiriza a corrup\u00e7\u00e3o de sua sociedade contempor\u00e2nea com <em>A Mandr\u00e1gora<\/em>, hist\u00f3ria de um jovem em suas tentativas de seduzir uma mulher casada de sua cidade. A pe\u00e7a foi encenada no final do ano pelo n\u00facleo Verde.<\/p>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-image\"><figure class=\"aligncenter size-large\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"960\" height=\"720\" src=\"http:\/\/paineira.usp.br\/cje\/babel\/wp-content\/uploads\/2020\/06\/Bruno-Menezes-Caio-Mattos-e-Pedro-Vittorio-29.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-131\" srcset=\"https:\/\/babel.eca.usp.br\/wp-content\/uploads\/2020\/06\/Bruno-Menezes-Caio-Mattos-e-Pedro-Vittorio-29.jpg 960w, https:\/\/babel.eca.usp.br\/wp-content\/uploads\/2020\/06\/Bruno-Menezes-Caio-Mattos-e-Pedro-Vittorio-29-300x225.jpg 300w, https:\/\/babel.eca.usp.br\/wp-content\/uploads\/2020\/06\/Bruno-Menezes-Caio-Mattos-e-Pedro-Vittorio-29-768x576.jpg 768w\" sizes=\"auto, (max-width: 960px) 100vw, 960px\" \/><figcaption>Elenco de A Mandr\u00e1gora, de Nicolau Maquiavel. Da esquerda para a direita, Eric Filipi, Vitor Hugo, Isabella Osuguku, Robinson Siqueira, Felipe Novaes, Lis Souza e Rodrigo Lara.<\/figcaption><\/figure><\/div>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Na obra de Mara Carvalho, o foco eram as discuss\u00f5es de uma fam\u00edlia que passava por v\u00e1rias crises, sendo um projeto do Vermelho. O Amarelo, finalmente, reencenou a obra de Williams, dirigida pela N\u00e9ia tamb\u00e9m em 2008, sobre uma personagem t\u00edpica do sul dos Estados Unidos que tem um choque de realidade ao se mudar para o ambiente urbano de Nova Orleans com a irm\u00e3 e o cunhado.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Em 2019, o GTP voltava a encenar <em>O Rei da Vela<\/em>, de Oswald de Andrade, aquela que foi possivelmente a \u00faltima do grupo na d\u00e9cada de 70 antes do retorno em 1989 com a primeira SAPO. Desta vez sob os cuidados do Amarelo, a pe\u00e7a foi apresentada durante os \u00faltimos meses daquele ano, junto com os trabalhos dos outros n\u00facleos.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><em>Tudo no Jardim<\/em>, do norte-americano Edward Albee, e <em>Vi\u00fava, Por\u00e9m Honesta<\/em>, de Nelson Rodrigues, foram encenadas pelo Vermelho e o Verde, respectivamente. Na pe\u00e7a de Albee, o sonho americano \u00e9 satirizado na figura de uma fam\u00edlia estadunidense tradicional dos anos 60, que apesar de desfrutarem de certa estabilidade, precisam lutar para atender as expectativas impostas pela sociedade da \u00e9poca. A pe\u00e7a de Rodrigues mant\u00e9m o car\u00e1ter sat\u00edrico e cr\u00edtico da sociedade atrav\u00e9s da hist\u00f3ria do Dr. J.B., personagem fict\u00edcio de grande influ\u00eancia pol\u00edtica. Seu drama come\u00e7a quando sua filha, de apenas 15 anos, fica vi\u00fava e se recusa a seguir em frente, obrigando o pai a utilizar de quaisquer meios para que ela mude de ideia.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>O saldo de 2020<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong><\/strong><strong> <\/strong>No ano seguinte, o surto de COVID-19 e o subsequente isolamento social dificultaram quaisquer tentativas de o grupo elaborar uma programa\u00e7\u00e3o teatral para o ano nos moldes que haviam sido adotados ultimamente. Dessa forma, a \u00fanica apresenta\u00e7\u00e3o do GTP no primeiro semestre foi a introdut\u00f3ria para os calouros: uma falsa palestra encorajadora com ex-polit\u00e9cnicos de &#8220;sucesso&#8221;, como um participante de esquemas de pir\u00e2mide e um dono de empresa de disparos de <em>fake news<\/em> por WhatsApp.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">E afinal, ap\u00f3s 70 anos de exist\u00eancia, qual o saldo que o grupo deixa? Como a N\u00e9ia sempre diz que voc\u00ea sai do GTP mas o GTP nunca sai de voc\u00ea, vamos deixar que os gtpenses falem:<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&#8220;Foi um momento maravilhoso para mim, que me deu ferramentas e uma abertura cultural para entender melhor o que acontece nessa bolinha que fica no Universo e os homens tentam destruir todo dia. Ainda bem que n\u00e3o conseguem&#8221; <strong>&#8211; Luiz Roberto Serrano (membro entre 1968 e 1970)<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u201cO GTP deu um curto circuito na minha cabe\u00e7a. Ele me despertou definitivamente pra teatro. Foi a oportunidade que eu encontrei de experimentar o fazer teatral. Eu amava. Ele me deu essa oportunidade, e na \u00e9poca, de uma maneira um pouco inocente, eu falei: \u2018\u00c9 isso que eu quero fazer na vida. \u00c9 isso\u2019\u201d\u00a0<strong>&#8211; Bianca Giudici (membro em 2001)<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u201cEu me lembro que eu entrei como uma pessoa bastante c\u00e9tica e racional. O GTP tem muito a quest\u00e3o de fazer voc\u00ea sair da sua zona de conforto. Tem esse exerc\u00edcio do escuro, por exemplo, que voc\u00ea abra\u00e7a uma mesma pessoa por dez minutos ou mais no escuro. Esse contato humano te d\u00e1 uma percep\u00e7\u00e3o, uma sensa\u00e7\u00e3o do corpo do outro que voc\u00ea n\u00e3o tem em nenhum outro contexto\u201d <strong>&#8211; Rodrigo Lara (membro entre 2014 e 2020)<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u201cO GTP, pelos exerc\u00edcios que n\u00f3s faz\u00edamos e pela pr\u00e1tica, formava lideran\u00e7as pol\u00edticas que se destacavam politicamente. Era um n\u00facleo inteligente. O GTP tinha essa coisa de saber fazer, de saber realizar\u201d <strong>&#8211;<\/strong> <strong>Ary Perez (membro entre 1973 e 1976)<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u201cEu sempre fui da parte das humanas, e foi uma conviv\u00eancia muito legal no GTP. Para mim, foi uma experi\u00eancia marcante tanto que eu n\u00e3o tiro a minha passagem pelo GTP de jeito nenhum do meu curr\u00edculo. O GTP me ensinou que o teatro pode ser feito em qualquer lugar por qualquer pessoa\u201d <strong>&#8211;<\/strong> <strong>Rafael Masini (diretor entre 2000 e 2001)<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u201cO fazer teatro para mim abriu a minha cabe\u00e7a. Eu n\u00e3o tinha forma\u00e7\u00e3o pol\u00edtica nenhuma, vindo da periferia. Essa dicotomia violenta da desigualdade social\u2026\u00a0 Depois, eu larguei engenharia, e fui fazer teatro com uma fun\u00e7\u00e3o social como um ser pol\u00edtico. Voc\u00ea n\u00e3o transforma a sociedade se voc\u00ea n\u00e3o se transforma\u201d <strong>&#8211; Rubens \u201cCachoeira\u201d Lazarini (membro entre 1976 e meados de 1978)<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u201cO GTP me marcou muito porque ele atravessou a minha aceita\u00e7\u00e3o. Hoje eu sou muito bem aceito comigo mesmo, gay, casado, na fila da ado\u00e7\u00e3o, mas quando entrei na Poli, j\u00e1 tinha me percebido gay e n\u00e3o queria falar com ningu\u00e9m. Eu vi na faculdade a oportunidade de fazer essa virada, mas entrei na sala de aula, cheia de homens, e entrei no arm\u00e1rio de novo. No GTP, eu comecei a sentir que ali era um ambiente de liberdade\u201d<strong> &#8211;<\/strong> <strong>Dion\u00edsio Gutierres (membro entre 2004 e 2010)<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u201cEu carreguei um pouco da dramaturgia do GTP para a minha carreira como documentarista. Eu n\u00e3o fa\u00e7o drama, eu fa\u00e7o document\u00e1rio. Mas sempre tem um pouco de docudrama. O GTP me ajudou a me expressar a me comunicar tanto que eu me tornei comunicador\u201d <strong>&#8211; J\u00falio Rodrigues (membro entre 1976 e meados de 1978)<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&#8220;O GTP me deu tr\u00eas coisas muito valiosas. Primeiro esse <em>link<\/em> com a arte \u2013 o teatro me despertou muito forte. Eu tamb\u00e9m aprendi a me comunicar de uma forma muito forte, muito intensa, que \u00e9 o segundo ponto. O terceiro ponto, que veio n\u00e3o s\u00f3 do GTP mas da pr\u00f3pria participa\u00e7\u00e3o no movimento estudantil, do Gr\u00eamio, foi todo esse componente social, de responsabilidade social, de trabalhar em benef\u00edcio do outro&#8221;\u00a0<strong>&#8211; Roberto &#8220;Fr\u00f3es&#8221; de Souza (membro entre 1970 e 1973)<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u201cEu nunca tinha pensado em fazer teatro. Sempre fui muito t\u00edmido, mas o teatro te ajuda a se expor. Muito do que se aprende na viv\u00eancia do teatro, como impostar a voz, voc\u00ea acaba aplicando para a vida. Isso me ajudou em um dia quando tive que fazer uma apresenta\u00e7\u00e3o no trabalho para 200 pessoas da Vale\u201d <strong>&#8211; Eric Abe (membro entre 2000 e 2001)<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&#8220;Dessas pessoas [do GTP na \u00e9poca], eu sou o \u00fanico que continua no campo da arte. Sou ator, diretor, dramaturgo, mobilizador social, educador popular. O GTP faz parte da minha matriz e eu trago ele at\u00e9 hoje em mim aqui como profissional&#8221; <strong>&#8211;<\/strong> <strong>Rodolfo Casc\u00e3o (membro entre 1972 e 1976)<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u201cA experi\u00eancia no GTP me transformou muito do ponto de vista criativo. Me abriu, me transformou pessoalmente. Pelo menos uma amiga que fiz l\u00e1 eu levo pra vida toda, que \u00e9 a Bia Szvat. At\u00e9 hoje a gente se acompanha e se cuida muito. [Por conta da pe\u00e7a <em>Bodenlos \u2014 Sem Ch\u00e3o<\/em>] participei de eventos acad\u00eamicos, conheci de uma comunidade onde at\u00e9 hoje tenho amigos, e indiretamente, conheci a minha esposa\u201d <strong>&#8211;<\/strong> <strong>Maur\u00edcio Dwek (membro entre 2004 e 2009)<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&#8220;O GTP me fez entender que eu preciso de um espa\u00e7o [al\u00e9m da profiss\u00e3o]. Eu gosto das duas coisas. Hoje eu me vejo como engenheiro ambiental, trabalhando na \u00e1rea, mas eu n\u00e3o me vejo fazendo isso sem o teatro por tr\u00e1s, porque o teatro \u00e9 uma outra forma de ler o mundo&#8221;<strong> &#8211; Miguel Giansante (membro entre 2013 e 2017)<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u201cA cada ano [no GTP] \u00e9 uma estrutura diferente. Pessoas diferentes, escolhas diferentes. Cada ano pra mim \u00e9 um ano novo.\u201d<strong>\u00a0&#8211; N\u00e9ia Barbosa (diretora desde 2011)<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><em><strong>Por Bruno Menezes, Caio Mattos e Pedro Vittorio<\/strong><br>bruno.baraviera@usp.br \/ caiomattcardoso@gmail.com \/ pedrovittorio@gmail.com<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"Fundado na Escola Polit\u00e9cnica da USP, o GTP \u00e9 o grupo de teatro universit\u00e1rio mais antigo do Brasil em atividade Coelho Neto, um \n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/babel.eca.usp.br\/?p=93\"> <\/a>","protected":false},"author":31,"featured_media":94,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[5],"tags":[],"class_list":["post-93","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-revista-babel-junho-2020"],"yoast_head":"<!-- This site is optimized with the Yoast SEO plugin v28.7 - https:\/\/yoast.com\/product\/yoast-seo-wordpress\/ -->\n<title>GTP: 70 anos de teatro na Poli - Revista Babel<\/title>\n<meta name=\"robots\" content=\"index, follow, max-snippet:-1, max-image-preview:large, max-video-preview:-1\" \/>\n<link rel=\"canonical\" href=\"https:\/\/babel.eca.usp.br\/?p=93\" \/>\n<meta property=\"og:locale\" content=\"pt_BR\" \/>\n<meta property=\"og:type\" content=\"article\" \/>\n<meta property=\"og:title\" content=\"GTP: 70 anos de teatro na Poli - Revista Babel\" \/>\n<meta property=\"og:description\" content=\"Fundado na Escola Polit\u00e9cnica da USP, o GTP \u00e9 o grupo de teatro universit\u00e1rio mais antigo do Brasil em atividade Coelho Neto, um\" \/>\n<meta property=\"og:url\" content=\"https:\/\/babel.eca.usp.br\/?p=93\" \/>\n<meta property=\"og:site_name\" content=\"Revista Babel\" \/>\n<meta property=\"article:published_time\" content=\"2020-06-21T17:27:13+00:00\" \/>\n<meta property=\"article:modified_time\" content=\"2020-10-09T20:41:47+00:00\" \/>\n<meta property=\"og:image\" content=\"https:\/\/babel.eca.usp.br\/wp-content\/uploads\/2020\/06\/Bruno-Menezes-Caio-Mattos-e-Pedro-Vittorio-acervo-Allan-Almeida.jpg\" \/>\n\t<meta property=\"og:image:width\" content=\"960\" \/>\n\t<meta property=\"og:image:height\" content=\"640\" \/>\n\t<meta property=\"og:image:type\" content=\"image\/jpeg\" \/>\n<meta name=\"author\" content=\"Bruno Menezes\" \/>\n<meta name=\"twitter:card\" content=\"summary_large_image\" \/>\n<meta name=\"twitter:label1\" content=\"Escrito por\" \/>\n\t<meta name=\"twitter:data1\" content=\"Bruno Menezes\" \/>\n\t<meta name=\"twitter:label2\" content=\"Est. tempo de leitura\" \/>\n\t<meta name=\"twitter:data2\" content=\"134 minutos\" \/>\n<script type=\"application\/ld+json\" class=\"yoast-schema-graph\">{\"@context\":\"https:\\\/\\\/schema.org\",\"@graph\":[{\"@type\":\"Article\",\"@id\":\"https:\\\/\\\/babel.eca.usp.br\\\/?p=93#article\",\"isPartOf\":{\"@id\":\"https:\\\/\\\/babel.eca.usp.br\\\/?p=93\"},\"author\":{\"name\":\"Bruno Menezes\",\"@id\":\"https:\\\/\\\/babel.eca.usp.br\\\/#\\\/schema\\\/person\\\/747156f12ec30ffcc9fcc1099cc58d6b\"},\"headline\":\"GTP: 70 anos de teatro na Poli\",\"datePublished\":\"2020-06-21T17:27:13+00:00\",\"dateModified\":\"2020-10-09T20:41:47+00:00\",\"mainEntityOfPage\":{\"@id\":\"https:\\\/\\\/babel.eca.usp.br\\\/?p=93\"},\"wordCount\":26900,\"image\":{\"@id\":\"https:\\\/\\\/babel.eca.usp.br\\\/?p=93#primaryimage\"},\"thumbnailUrl\":\"https:\\\/\\\/babel.eca.usp.br\\\/wp-content\\\/uploads\\\/2020\\\/06\\\/Bruno-Menezes-Caio-Mattos-e-Pedro-Vittorio-acervo-Allan-Almeida.jpg\",\"articleSection\":[\"Babel 2020 - Ed. 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