Afinal, São Paulo não tem mesmo uma praia?

Entre esportes, eventos e orlas artificiais, busquei encontrar a verdadeira praia paulistana

Por João Chahad

Capa por Lara Soares

Uma brisa levemente úmida toca o meu rosto. A calmaria se instaura com o som das ondas quebrando ao fundo. A paz e a harmonia preenchem o ambiente iluminado por raios amarelados. E o chão granuloso morno que cobre meus pés reabastece minhas energias drenadas pelo dia a dia. Porém, deu a minha hora: desligo o ventilador com nebulização, apago as luzes de led laranja, desconecto a minha caixinha JBL com sons do mar e cubro a areia da quadra, que chegou aqui por um caminhão de artigos de construção na rodovia Anchieta. Coloco a calça jeans, camisa social, meu sapatênis de marca e abro o meu laptop. Tenho uma meeting agendada e preciso acabá-la antes que comece o rodízio do meu carro.

Viver em São Paulo é saber – mas não sempre viver – que tudo por aqui é possível de se experienciar. Afinal, a terra das oportunidades, chamariz dos cinco cantos do país, construiu a sua mitologia em torno disso . Mas a tecnologia e o capital nem sempre conseguem vencer a geografia. O Planalto Paulista, apertado pelas escarpas da serra, está fadado à inevitável distância de sua principal cidade ao litoral. E a falta de praias parece custar muito para os residentes da Terra da Garoa.

Por isso, a Babel São Paulo buscou explorar as relações intrínsecas entre os paulistas e as praias, e as incessantes tentativas por capturar, mesmo que minimamente, uma experiência litorânea idealizada.

E a Imigrantes segue travada

Era um 1º de maio, Dia do Trabalhador, que amanheceu em temperaturas amenas, em que resolvi buscar uma praia. Levantei no meu quarto em Santana, Zona Norte de São Paulo, e comecei a procurar alguma forma de colocar o pé na areia. Mas, neste dia, cerca de 18 milhões de veículos eram previstos para descer a serra nas principais rodovias de São Paulo, segundo a Agência Reguladora de Transporte do Estado de São Paulo (Artesp).

O que parece um número assombroso para pessoas de fora do estado, se transforma em rotina para os paulistanos em qualquer feriado prolongado. Este movimento quase pendular costuma ser intensificado pela quantidade enorme de casas de veraneio alocadas no litoral paulista. De acordo com o censo de 2022 do IBGE, em São Sebastião, cerca de 38% dos domicílios são destinados para o veraneio. Em Ubatuba, no litoral norte, esse número chega a 49%, o maior da região.

Em um ônibus que saiu do Jabaquara com destino a Santos, lá estava minha companheira. Ela foi precavida e saiu cedo o bastante para não pegar a Rodovia Imigrantes lotada, algo que outros viajantes não tiveram a mesma sorte. Ao chegar na cidade, ela relatou situações típicas do litoral paulista: praias lotadas, confusões, infraestrutura sobrecarregada e, para o azar, uma forte chuva ainda no começo da tarde.

Mesmo dependendo muito da vinda dos turistas da região metropolitana de São Paulo, não são todas as cidades do litoral que suportam esse volume de visitantes. Nas festas de fim de ano em 2025, a Secretaria Municipal de Turismo de Ubatuba esperava a chegada de 4 milhões de pessoas, número este que é 43 vezes maior que a população local, cerca de 93 mil. A superpopulação condiciona aqueles que querem desfrutar de uma boa maresia nos principais destinos requisitados, mas não provém de benesses como helicópteros e jatinhos. No final, nos resta enfrentar quilômetros de congestionamento, problemas de saneamento e barraquinhas superfaturadas. Ou ficar em São Paulo mesmo.

Não me parecia uma boa ideia descer a serra nesse feriado. Mesmo assim, peguei uma mochila e fui para uma praia. Não a uma convencional, mas aquela que os paulistas estão se acostumando a conhecer. A chamada “Orla TotalPass”, construída dentro do Parque Villa Lobos, era um local promissor para a minha busca.

Este subtítulo é um oferecimento de…

Cruzei a cidade em um dia de pouco trânsito. Com um chinelo, uma bermuda de tactel e uma camisa clara de malha fina, esperava aproveitar um espaço que me prometeram, uma experiência imersiva de uma praia em São Paulo. Depois de alguns minutos procurando uma vaga – o parque estava cheio com os shows para o Dia do Trabalhador –, parti em direção à Orla TotalPass.

A frustração foi imediata: um espaço completamente esquisito. Ao chegar, você é bombardeado pela publicidade em led do “Lounge Sulamérica”, do sorvete no limão siciliano hypado no TikTok e com telões com propagandas de empreendimentos imobiliários na região. O tom do local já me aparecia como um produto algorítmico bizarro da modernidade ou algum começo de episódio de Black Mirror.

Mais adentro, você repara em um átrio central com uma areia fofa até demais e alguns guarda-sóis, cercado por restaurantes “à beira-mar”. Na areia, estavam apenas algumas crianças se divertindo, montando castelos com as próprias mãos e umedecendo as suas estruturas com garrafas d’água compradas a 8 reais no local. Elas estavam acompanhadas de pais com calças de sarja e sapatos de couro que, à distância ou nos decks dos restaurantes, pouco olhavam para seus filhos.

A música era tocada por um DJ que reunia alguns clássicos da MPB mixados em MTG – sigla para Montagem –, formato que agrega tons da música eletrônica e do Funk, popular nas redes sociais ou em bares da Vila Madalena. As quadras de areia que ficavam a distância só poderiam ser acessadas mediante agendamento prévio e por, no máximo, 30 minutos.

Esse ambiente me lembrou outras tentativas igualmente duvidosas de representar o litoral em São Paulo. Em 2024, a Sabesp lançou a “Prainha Paulista”, que tomou um espaço pequeno e apertado nas margens do rio Pinheiros, na Zona Oeste da capital. Para os desavisados, o rio é poluído e impróprio para banho, além de frequentemente soltar um odor lastimável. Nem preciso dizer que a ideia não foi para frente.

Outros projetos também surgiram, mas dessa vez com um alto investimento: o Beyond the Club, em Santo Amaro, primeiro clube privado de surf do mundo, e o São Paulo Suf Club, no Brooklin, da marca de luxo JHSF. Você pode, claro, aproveitar uma boa praia fake nesses lugares, com direito a ondas artificiais e infraestrutura completa pelo custo de singelos 600 mil reais para compra do título. Estes espaços acompanham tendências de grandes cidades, como Londres e Nova-Iorque, que, nas “praias urbanas”, unem a alta tecnologia a um toque de exclusão social para criar a imersão litorânea desejada.

Lugares assim marcam um renome sofrido para os paulistas: o farialimer, ou aqueles representantes do mercado financeiro e suas megalomanias, redesenham a praia como um espaço de imersão tosca e publicitária ou luxo inacessível. E a Orla TotalPass, de certa forma, representa essa busca pouco satisfatória. Os seus ladrilhos em preto e branco, com ondas tímidas para evitar correlações imediatas com o Rio, demonstram uma vergonha sutil de uma cidade do tamanho de São Paulo não poder ter um litoral para chamar de seu.

Por isso, a experiência da praia na Selva de Pedra é fragmentada, e entra em outras esferas na vida. Jamais teremos uma praia em sua totalidade, mas podemos colocá-la em algumas abrangências do nosso cotidiano. A partir daí, segui na minha procura.

Entre bolinhas e raquetes

A criação de ambientes como a Orla TotalPass não seria possível sem a popularização dos esportes “de praia”, aqueles praticados na areia, que ampliaram a demanda por espaços que se assemelham ao litoral. Alguns esportes como vôlei de areia, Beach Tennis e Futevôlei encontraram uma base de praticantes tão expressiva na cidade que se tornaram centro de políticas públicas municipais. No começo do ano, quadras de areia em parques e praças foram inauguradas em toda capital a partir de investimentos da subprefeitura de Santana-Tucuruvi. A prefeitura também fez a inclusão dessas estruturas em Centros Esportivos públicos, como o da Barra Funda (ZO) e Tiquatira (ZL).

Mesmo sem praia, os “beach sports” parecem conquistar os paulistanos. Henrique Furió, um professor de Beach Tennis, explicou como as areias se transformaram em um novo palco para a cidade. Ele diz ter descoberto o esporte em uma festa com os amigos e, logo na primeira tentativa, se interessado pela prática. O professor, então, uniu seu fascínio com pela modalidade com sua graduação em educação física e decidiu se dedicar ao esporte.

Encontrei Furió no Posto 011 – um nome que mistura as guaritas cariocas “apaulistado” com nosso DDD –, uma rede de praias com 17 unidades espalhadas pela capital. Em uma manhã nublada e gelada, resolvi colocar os pés na areia mais uma vez e entrevistá-lo durante uma aula. Entre bolinhas amareladas pulando de um lado para outro e raquetadas precisas para as alunas – uma delas, com touca, blusa de tactel e uma meia sapatilha –, o professor me explicou que a principal vantagem dos esportes de areia estava na absorção de impacto. “Enquanto as quadras tradicionais [de concreto ou madeira] provocam maior desgaste nas articulações, a areia é ideal para pessoas de maior idade encontrarem um espaço com menor risco de lesões”, detalhou.

De segunda a sexta, Furió sai do Ipiranga a Santana para dar aulas pela manhã. De sábado e domingo, vai até a Mooca. Quando viaja para a praia, até busca se desligar um pouco, mas nunca parte sem sua raquete. E, mesmo com “beach” no nome, Furió diz que prefere “jogar em um ambiente mais controlado”, isto é, sem vento forte, sem banhistas desgovernados e com o sol paulistano mais moderado.

O professor ainda diz que o Beach Tennis é um esporte taticamente mais simples, o que costuma atrair mais iniciantes. A prática no tênis facilitou seu processo de aprendizagem: “com as condições certas e a raquete certa, o risco de lesão é baixo e dá para se divertir”, completou. No entanto, essas condições costumam ser caras. Enquanto hoje podemos dizer que encontramos quadras de areia em “qualquer esquina”, o mesmo não podia ser dito há 8 anos, quando o esporte começou a fazer sucesso.

Somado ao valor exorbitante das raquetes, o Beach Tennis em São Paulo nasceu para as elites. Porém, hoje em dia, as classes médias parecem estar mais engajadas. Segundo o professor, com a inclusão desses esportes em sistemas como WellHub (antigo Gympass) e TotalPass, o perfil do praticante mudou. E os dados comprovam: entre 2018 a 2024, a WellHub contabilizou um aumento de 19.295% de check-ins em esportes de areia na plataforma. Entre 2023 e 2024, o estado de São Paulo registrou um aumento de 343% e alavancou o mercado fitness nacional.

O professor vê essa adesão com bons olhos. “Para o pessoal que vive no mundo executivo, que trabalha em escritório, ter um momento aqui [na quadra de areia] durante o dia é muito bom. Te ajuda a desligar do mundo e se reconectar com um espaço de tranquilidade”, completou.

Na ilha das couves

Em seguida, parti para outro local. Em um dia igualmente frio e nebuloso, fui para o espaço de eventos e esportes chamado “Praia Paulista”. O nome me interessou na hora, afinal era exatamente o que eu estava procurando. Fui me encontrar com Eliane e Elisama (Elis) Ponseu, irmãs proprietárias do espaço, na Zona Norte da capital. Dessa vez, preferimos uma mesa para a nossa conversa. São 3 quadras de areia gradeadas, com um corredor fundo com cadeiras e mesas, espaço kids, sala de karaokê e churrasqueira.

As irmãs aproveitaram um antigo depósito de bebidas e buscaram o seu diferencial. Um lugar espaçoso, mas fechado, recheado de ambientes diversos, ideal para a Terra da Garoa. Aliás, tudo ali dentro foi planejado para os paulistanos. A areia que as impregna no cabelo pode ser tirada com um vestiário com secador, chapinha e produtos especiais, perfeito para uma ida antes do trabalho. Em um único dia, o ambiente aguenta até 5 festas simultâneas. Chuva e vento também não costumam ser um problema. “A ideia foi essa: trazer um clima de praia para São Paulo” afirmou Elis.

No ambiente, o lugar assume essa intenção. Em uma das paredes, um letreiro em LED fica na frente de alguns ladrilhos no formato do estado de São Paulo, comum nas ruas da cidade – muito diferente da cópia envergonhada de Copacabana na Orla TotalPass. Um afresco gigantesco enfeita o lugar com uma arte da Praia de Picinguaba, em Ubatuba, com vista para a Ilha das Couves. “Quando estávamos pensando em imagens para o lugar, escolhemos essa por ser um lugar reconhecível e memorável”, afirmaram.

A diversidade de eventos salta aos olhos de quem não o frequenta constantemente. Já houve aniversário – desde recém-nascidos a octogenários –, celebrações de debutantes e até festas de escola de samba. “No casamento, os convidados vieram da igreja para cá, teve outra cerimônia na areia até”, complementou Elis. Festas com tema espanhol, árabe, africano – ao que Eliane explicou que “fizeram um jogo parecido com pique-bandeira”. Chá revelação, confraternização da igreja e até eventos corporativos de empresas da região.

O espaço, mesmo não sendo convencional, parece atrair as pessoas a passarem momentos especiais por ali. “Então você saiu, você tá o dia inteiro no trabalho, saiu cansado, estressado. Na hora que chegou aqui, colocou o pé na areia, acabou: você já recuperou o dia assim. É um negócio quase espiritual”, completou Eliane. Resolvi testar e entrei um pouco na quadra. A areia estava bem gelada, mas puxei uma cadeira para ficar uns cinco minutos. Olhando para aquele afresco enorme, fixamente para a Ilha, um misto de calmaria e melancolia me atingiu: por mais idêntico que possa parecer, no final, ainda é só uma arte na parede.

Memórias e cachoeiras

Morar no litoral é mais do que ter acesso fácil a uma praia. É, também, ser atravessado por ideias e filosofias diferentes e, frequentemente, antagônicas às vividas na cidade grande. Querendo saber sobre essa diferença, encontrei Beatriz Ribeiro, que nasceu na Barra do Una, em São Sebastião, uma região de encontro do Rio Una com o mar. Longe do centro, seu bairro concentra vários trabalhadores domésticos e caseiros para casas de veraneio da cidade, assim como sua mãe.

Beatriz passou a infância e a adolescência inteira nesse lugar. Ela me contou histórias de um luau com os amigos e passeios em trilhas da região. Sobre os eventos culturais cotidianos e as “aulas” de surf com os caiçaras. Sobre a calma que tinha em estudar para o vestibular com o pé nas areias da Praia do Una. Em 2021, conseguiu uma bolsa de estudos para estudar pedagogia e se mudou para São Paulo. O choque foi imediato.

“Eu já sou uma pessoa ansiosa, e aqui eu percebo que tenho que ativar um hiperfoco em tudo”, disse Beatriz, um pouco angustiada. “Quando cheguei, ficava pensando: ‘que negócio esse de esquerda livre? Calma gente”, dessa vez, com um pouco mais de energia. “Quando estou lá [na praia], ainda posso ir na orla e ficar um pouco na natureza. Aqui, o máximo que a gente tem são os parques, mas vivo com medo de ser assaltada”, e por fim, com receio. Beatriz cita a praia como remédio; São Paulo, como paciente. Não que a cidade seja a doença em si, mas que dela saltem sintomas de todo lugar. “Infelizmente, temos que sair do nosso lugar, porque São Paulo ainda é um lugar de muitas oportunidades”, completa.

Não nego ter sentido um pouco de inveja quando ela me relatou uma de suas memórias de infância. Sua mãe trabalhava em uma casa com uma moça, uma florista, com quem Beatriz costumava conviver. Elas frequentemente iam para uma farmácia, compravam um saquinho de mel e iam para uma cachoeira da região, contar histórias e pegar umas conchinhas. Paz, calma e serenidade. Que falta faz uma praia para São Paulo…

Existe algo nessa minha busca que já estava anunciado no começo. Não há dinheiro que nos traga a praia para São Paulo. Podemos ir para ela. Inclusive, constantemente o fazemos e congestionamos nossas praias vizinhas. Mas trazê-la, não. Busquemos o que nos torna verdadeiramente paulistanos: fora da praia, fora do litoral. O Planalto Paulista precisa ser menos invejoso e deixar à Escarpa do Mar aquilo que lhe foi dado pela natureza.