Você fala po[ ɾ ]ta ou po[ ɻ ]ta?

De leste a oeste da cidade, seja na Zona Norte, na Sul ou no centro, cada paulistano tem seu jeito de falar. Mas o que realmente diferencia os sotaques de São Paulo?

Por Julia Alencar

Capa por Beatriz Garcia

“Eu voltava pra Brasília e começava a me adaptar mais ao sotaque brasiliense do que jamais fiz quando realmente morava lá. Virava uma chavinha na minha cabeça, por saudade de casa ou por esse momento de reencontro com o círculo social que eu tinha deixado ali em Brasília, para me fazer sentir mais próximo deles novamente eu começava inconscientemente a falar mais parecido com eles.” Filho de paulistanos, Artur Correa nasceu e cresceu em Brasília, mas se mudou para a cidade de São Paulo já adulto, há quatro anos. O brasiliense pontua que, ainda que estivesse acostumado a escutar o português paulistano em casa, morar na cidade é uma experiência completamente diferente. 

Para os nativos, convidar a Ju, a Pa, a Ma, a Lo, o Be, o Pe, o Mu e a Lê não soa esquisito. Mas para quem vem de fora, os apelidos monossilábicos são motivo de estranhamento e, muitas vezes, de piadas na internet e fora dela. “Embora por causa de alguns familiares eu também acabe usando esses apelidos monossilábicos, eu mantenho o costume de dar alguns apelidos mais longos, botar um aumentativo, um diminutivo, em vez de simplesmente encurtar para uma coisa só. E tem alguns encurtamentos que eu me recuso a fazer, eu acho muito esquisito, para mim não faz sentido nenhum”, brinca Correa ao explicar que, por mais que já tenha incorporado muito do sotaque paulistano, há marcas do sotaque brasiliense que faz questão de preservar. Mas quando dizemos sotaque paulistano, do que exatamente estamos falando?

Assim como a cidade é composta por uma série de culturas – e também por conta disso – o sotaque paulistano não assume uma única forma, variando não apenas de região para região, mas de indivíduo para indivíduo, conforme explica Lívia Oushiro, professora doutora no Departamento de Linguística da Universidade de São Paulo: “Se a gente pensar numa cidade tão diversa como São Paulo, é claro que a gente vai ter diferentes sotaques, tanto por conta da migração, mas também por conta de diferenciação social. A gente acaba falando mais parecido do modo como outras pessoas com quem a gente convive falam”. Oushiro acrescenta que, para além do convívio, o contato virtual com outros grupos sociais também influencia na forma com que a fala se desenvolve. Antes mesmo da internet, TV e rádio foram vetores importantes para a difusão de traços linguísticos. 

A professora ainda reforça que, apesar de não existirem estudos formais que determinem a origem exata do sotaque paulistano e onde começa e onde termina cada uma de suas variações, é possível encontrar características comuns a elas. “O que a gente tem, com certeza, é uma situação de mistura de línguas e de dialetos, influências indígenas, africanas, portuguesas, do espanhol, do italiano, do árabe, de todos os grupos que vieram com a invasão europeia. Há também influência da migração interna, principalmente de nordestinos, que intensificaram seu fluxo migratório a partir da década de 50”. Mesmo sem definições formais, há características mais proeminentes em algumas regiões da cidade — como o R da região leste ou o R da região sul — que são facilmente identificados não apenas por quem é de fora, mas pelos próprios moradores da cidade: “As diferenças regionais de cada zona da cidade foram algo que eu só percebi de fato quando eu vim em definitivo”, complementa Correa.

Porta, porteira, portão

Uma das marcas mais identificáveis e características do sotaque paulistano é a forma como pronunciamos o R: retroflexo [ɻ], o famoso “R caipira”, mais comum na periferia e na Zona Sul da cidade; ou tepe [ɾ], frequentemente associado à Zona Leste e ao estereótipo dos faria limers — os frequentadores da Avenida Faria Lima, constantemente transformados em meme na internet. Oushiro explica que, apesar de mais característicos de uma região ou outra, todos os paulistanos acabam por utilizar as duas formas do R, e a verdadeira diferenciação está na frequência com que cada uso ocorre. Além de característica regional, o R também é um marcador de classe no subconsciente paulistano. “Se a gente pensar numa pessoa do movimento hip-hop, que é da periferia — o Mano Brown por exemplo — dificilmente você vai imaginar ele falando a palavra certo com R tepe. Mesmo que não seja consciente, as pessoas associam esse contexto geográfico a certas classes sociais”, exemplifica a professora.

O R retroflexo, além de ser estigmatizado por estar associado à periferia da cidade, também é ligado ao interior do estado e, conforme Oushiro e seus colegas observaram em pesquisas recentes, a filhos de imigrantes nordestinos. “Uma interpretação possível é que os nordestinos vêm para São Paulo e sofrem muito preconceito por uma série de questões. Mesmo quem não é de classe baixa sofre preconceito por conta do sotaque. Só que como muitos desses migrantes vieram para trabalhar em busca de melhores condições de vida e se fixaram na periferia, também tiveram contato com outros migrantes: do interior de São Paulo, do sul de Minas, do Norte, do Paraná, e provavelmente reinterpretam que esse R retroflexo era o R local. ‘É assim que se fala em São Paulo’”, explica, reforçando que, apesar de essa ser uma possibilidade de interpretação da situação, a língua é muito mais viva e maleável. “Certamente não é uma coisa só que fez com que chegassem nessa configuração [da linguagem]. A língua nunca para de mudar”. Maria Eugênia Martins Barcellos, professora no Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Espírito Santo (IFES), complementa a fala de Oushiro, pontuando que recentemente os jovens periféricos vêm ressignificando o retroflexo, colocando-o como uma marca local de prestígio e valorizando esse aspecto do sotaque.

Para além do aspecto social, Barcellos aponta também uma explicação linguística para a adoção do retroflexo pelos filhos de imigrantes nordestinos: “Na questão de pronúncia, há uma similaridade nos pontos de articulação da própria língua entre o R retroflexo paulistano e o R fricativo do nordeste”, o que facilita e torna mais intuitiva a adoção do retroflexo em detrimento do tepe.

Entende(i)ndo, apartame(i)nto

Apesar de ser o mais facilmente identificável, o R não é o único traço que marca o sotaque paulistano. Um traço característico e constantemente estereotipado é a ditongação do “E nasal” — processo em que uma vogal ganha uma semivogal (i ou u) na mesma sílaba — em palavras como apartamento, fazenda e entendendo, que passam a ser pronunciadas como se houvesse um “i” após o “e”. Oushiro explica que, quando alguém de fora ouve uma dessas palavras, consegue identificar que se trata de um paulistano falando-as. No entanto, “a maioria dos participantes [da pesquisa] não conseguia apontar o dedo para a característica da palavra que fazia com que conseguissem reconhecer a pronúncia paulistana”.

Outro traço comum ao sotaque paulistano, frequentemente associado à região central, é a nasalização das vogais — como observado, por exemplo, em Juliana (que soa como juliãna) ou na gíria mano (que soa como mãno). Barcellos, que pesquisou especificamente a ocorrência dessa nasalização na cidade, teoriza que essa tendência decorre da influência italiana. “Bairros como a Mooca receberam muito a população italiana, que veio trabalhar como operária aqui no nosso país, né? Nosso português já é um pouco mais anasalado, e no italiano não há vogais nasais. Então, na tentativa  de criar uma vogal que não existe na sua língua materna, surge essa pronúncia diferenciada, saliente aos ouvidos”, explica. Barcellos e Oushiro reforçam, porém, que não é possível afirmar com certeza a origem de cada um dos traços da nossa língua, por estar em constante mudança e sofrer influência de diversos fatores sociais, regionais e até mesmo individuais.

“O que a gente sabe é que numa primeira infância, a influência dos pais é maior. Então a criança vai aprender a falar do mesmo modo ou de um modo parecido com o que os pais falam. Mas a partir de uma certa idade, já quando a criança começa a frequentar a escola, a influência dos pares, dos colegas ou adolescentes da mesma idade, é muito maior. Então, existe essa tensão: pais ou pares. E no final das contas, quem vai ganhar esse braço de ferro são os pares”, comenta a professora da USP, reiterando que fatores como rede de contato, local de residência, classe social e tempo de convívio também influenciam na construção do sotaque de cada indivíduo.

Com tantos fatores externos podendo influenciar a forma como cada paulistano fala, é importante notar a influência que as redes sociais vêm exercendo nesse processo. Barcellos aponta o papel que as redes sociais tiveram na difusão do sotaque paulistano para além da cidade, como é o caso da criadora de conteúdo Jessica Diniz e sua personagem Ameinda. “Lendo os comentários no perfil da Ameinda, dá para ver que as pessoas entendem que aquilo é uma sátira ao paulistano mesmo que não seja dito explicitamente pela criadora. Esse humor é construído em cima de certos estereótipos, então nesse sentido é preciso tomar cuidado”, complementa. 

Da mesma forma que as redes sociais e internet auxiliam na popularização do sotaque paulistano no restante do país, elas também permitem o acesso a diferentes culturas e formas de falar, adicionando aos fatores que influenciam o padrão de fala dos paulistanos. Oushiro menciona uma pesquisa com adolescentes que evidenciou que os gamers — ou seja, aqueles que jogam jogos no computador e consequentemente têm acesso a outras culturas e línguas — usavam muito mais anglicismos do que outros adolescentes. “Importar palavras de outro idioma ou dialeto é uma das coisas mais fáceis de se pegar, tanto que já temos várias palavras no português que são importadas – como delivery, bike, e também palavras específicas para algumas áreas, como briefing e case”. O fenômeno dos anglicismos pontuado pela pesquisadora já é muito observado na cidade de São Paulo, frequentemente utilizado como artifício nas sátiras ao faria limer e ao paulistano médio — como é o caso da Ameinda. “Agora, pegar um traço fonético, por exemplo, de pronúncia ou alguma coisa que vá mais direto na gramática é mais difícil”, explica Oushiro. Nesse sentido, especialistas ainda são céticos em relação à influência das redes sociais na língua portuguesa a longo prazo.

O sotaque paulistano, assim como todos os outros, não pode ser classificado de forma rígida, ou associado exclusivamente a uma zona específica da cidade ou a um grupo social. A cidade é plural, viva, composta de diversas culturas, e isso se reflete no modo de falar de seus habitantes. Apesar da saudade de casa, Artur já percebe a cidade e seus sotaques como um nativo: “As pessoas confundem as coisas, às vezes acham que o sotaque do interior é o que se fala na cidade inteira, às vezes acham que o meu sotaque é o que se fala na cidade inteira, ou que certo sotaque estereotipado é mais comum. Mas quando você tá na cidade, convivendo com as pessoas no dia a dia, você vê que existem milhares de possibilidades, milhares de raízes para esses sotaques, e acho que isso talvez seja o que tenha de mais legal quando você pensa em sotaque e São Paulo.”