Alternando entre nova, crescente, cheia e minguante, a via é um dos principais cartões postais de São Paulo
Por Suelyton Viana
Capa por Renan Affonso
Prostíbulos, lojas de luxo, gente vomitando na sarjeta, uma diversão leve e quase familiar, violência, a sofisticação de uma classe média sedenta por liberdade, população em situação de rua, ponto de encontro de tribos urbanas inimigas e de amigos, o sossego de apartamentos de alto padrão e o barulho de casas de shows populares. Tudo isso coube nos mais de 3 mil metros da Rua Augusta, a depender do período, do horário do dia, ou do lado da rua em que você está — seja sentido Centro Histórico ou dos Jardins. Assim como a lua, a rua tem suas fases, e tem quem veja beleza em cada uma delas.
A assessora de imprensa Ida Nuñez, 70, talvez tenha vivido a lua cheia da Augusta. Recém divorciada nos anos 80, ela vivia uma realidade muito próxima do que canta Ronnie Cord na divertida canção de rock “Rua Augusta”: “Entrei na Rua Augusta a 120 por hora/ Botei a turma toda do passeio pra fora/ Fiz curva em duas rodas sem usar a buzina/ Parei a quatro dedos da vitrine (legal)”. Ela relembra que o espaço era frequentado especialmente por jovens de classe média, que costumavam subir e descer a rua de carro só para paquerar. Trocavam gritos, sorrisos, acenos e logo cada um seguia a rota.
A voz suave, que acompanha uma dicção invejável, típica de quem tem uma boa formação em jornalismo, parece se encher de alegria quando ela toca no assunto: “O pessoal passava de carro, descia, todo mundo gritava, todo mundo se paquerava, depois subia de novo do mesmo jeito. Era difícil parar para trocar um telefone, para fazer alguma coisa assim, mas ficava esse agito. Sábado, domingo, começava tipo umas 14h, 15h da tarde, ficava a noite inteira assim”.
Na época, Ida trabalhava numa rádio em Santos e saía ansiosa da cidade litorânea, pela madrugada, para encontrar os amigos em um dos bares mais badalados da região da Augusta. A também jornalista diz que o antigo Vitória Pub, que funcionava em um barco de madeira restaurado, no qual tinha restaurante, danceteria e muita música ao vivo, era um ponto disputado para comemorações de aniversário, com direito a um convite padrão que era símbolo de status.
Recheada de lojas de luxo, restaurantes de renome e bares com música ao vivo, a rua era, nas palavras de Nuñez, o lugar da moda. A significância da rua para o comércio era tanta que Ida relembra uma ação de marketing ocorrida perto do Natal de 1973: o trecho da Rua Augusta entre a Avenida Paulista e a Rua Estados Unidos, nos Jardins, foi toda coberta por um carpete quadriculado colorido. A ação foi tão marcante que o slogan é rememorado até hoje em jornais e redes sociais: “Nosso visitante é tão ilustre, que acarpetamos a rua”.
Ilustre não é bem a palavra que Gil Riquerme, um homem gay, hoje com 52 anos, usaria para definir ele e seus amigos que visitavam a Augusta nos anos 2000 — pelo menos menos do ponto de vista da prefeitura. Naquele momento, a região era marcada pela “decadência”, frequentada por clubbers — clientes assíduos de baladas e festivais de música eletrônica —, com vários “inferninhos” — nome dado a bares e casas noturnas alternativos, de capacidade limitada —, prostíbulos e garotas de programa tentando ganhar a vida pelo asfalto mesmo. O lugar era uma pedra no sapato para a gestão do então prefeito Gilberto Kassab e era comum clubes noturnos surgirem e fecharem após um breve período.
O cenário, que tanto atentava contra a moral e os bons costumes de parte da sociedade paulistana, foi um catalisador para o também DJ, afinal, nas palavras dele, um lugar de má fama são os melhores lugares para o pessoal do underground, aqueles que produzem e/ou consomem a cultura que não está na cartilha do cidadão de bem como ideal, limpa e desejada.
Natural do interior do Paraná e apaixonado pela vida noturna desde a adolescência, ele via em São Paulo a materialização de um lugar onde não existia — ou pelo menos não deveria existir — as mesmas limitações de cidades pequenas. Formado na faculdade de Belas Artes do estado natal, com espírito de criador, foi em um bar na Rua Augusta que Gil e mais cinco amigos, unidos pela rua, criaram a PoSH, na altura do número 822-B. A ideia era criar uma festa onde tocasse música boa e qualquer um pudesse entrar, porque naquele momento, tanto ele quanto os amigos não conseguiam pagar para acessar os clubes todo fim de semana.
Na fachada, uma típica porta de enrolar de bares baratos, coberta de grafites coloridos e meio abstratos, paredes marrons, também com ilustrações à spray. No topo do térreo, um toldo preto, com o nome “Bar do Netão”, em letras brancas, acima do número, que desde 2017 é endereço de um condomínio com apartamentos à venda por mais de R$ 700 mil. É provável que quem more ali não saiba da importância histórica de uma pequena caixinha marrom, que ocupava uma parte do terreno, para a noite paulistana.
Por dentro, o Bar do Netão era um típico “pé sujo”: pequeno, com cerveja barata e uma mesa de sinuca no meio do salão que, com a popularização da festa PoSH, deu espaço a uma mini pista de dança democrática e numerosa, a ponto das calçadas serem tomadas por quem queria conhecer o famoso bar. Com entrada gratuita e DJ’s que tocavam de tudo, não demorou muito para se tornar o ponto de encontro de quem queria um ‘rolê’ cool, chegando ao nível de mixadores renomados quererem tocar no espaço só pela energia e presença de tanta gente, entre celebridades, subcelebridades, clubbers e pessoas que só queriam uma noitada, de diferentes estilos, cores, gêneros, sexualidades e classes sociais.
Inclusive, uma noite inesquecível para Gil, dentre várias do mesmo gênero, foi o encontro entre uma membra da ex-família imperial brasileira, uma verdadeira clubber, segundo o DJ, e um homem em situação de rua, que dançava animado na pista: “A gente chamava ela de princesa, porque ela é descendente da família Orleans e Bragança. Ela chamava Paola. E ela era uma menina alta, loira, muito linda. E ela era sempre doida, maluca, gostava de sair, dançar. Eu dizia assim: ‘Porra, esse lugar é muito louco, mendigo de um lado e uma princesa do outro.’ Era uma diversidade que era legal”.
Fazendo um balanço, ele acredita que o Bar do Netão foi um embrião da cultura underground em São Paulo durante o fim dos anos 2000 e a primeira metade de 2010. A partir dali, vários inferninhos tentaram copiar a fórmula, festas surgiram em pontos e espaços da cidade que eram considerados insalubres, como ex-fábricas, ex-funilarias e locações no centro “sujo”. A cidade estava vibrante para quem curtia sair à noite, e ele credita uma parte disso a uma mudança na política municipal: em 2013, Fernando Haddad é eleito, e como prefeito dá um apoio importante a diferentes manifestações culturais.
Foi nessa onda de otimismo geral que Júlia Jesus, 33, fez a passagem da adolescência à vida adulta e descobriu a Rua Augusta. Nascida e criada na Brasilândia, zona norte, e também parte da comunidade LGBTQIAPN+, ela conta que foi na Augusta onde se sentiu acolhida e pôde conviver de forma aberta com pessoas que eram como ela. Na época, lembra que a rua ainda era o hype, as pessoas ficando nas calçadas de bares e a magia acontecendo: conversas interessantes, com encontros que marcaram a vida e a ensinaram muito.
Nem tudo foi um filme coming of age -– termo utilizado para longas-metragens sobre amadurecimento — produzido pela Disney sobre uma pessoa descobrindo seu lugar no mundo ali mesmo, que parecia ter espaço para abrigar a todos. Como membra da comunidade trans, ela lembra o medo da violência naquela época, já que era comum ter coalizão entre grupos, como skinheads e punks.
Desde então, ela conheceu a Augusta de diversos modos: trabalhou em um restaurante na rua e em um hotel em uma via perpendicular, morou pela região e hoje é anfitriã no Presidenta Bar, um dos poucos lugares que sobraram desde que a especulação imobiliária voraz fechou casas antigas, como o primeiro espaço do Bar do Netão. O Presidenta é um lugar de after, ou seja, é comum que as pessoas cheguem por lá pela madrugada após curtir em outra boate ou barzinho. É em um cômodo verde, com paredes tomadas de camisetas com frases que estampam que ali é um local seguro para você que é diverso. Logo na entrada, aos fins de semana, encontra-se Júlia, sempre com um sorriso simpático, disposta a recepcionar bem e fazer o visitante se sentir no próprio lar.
Ela conheceu o Presidenta Bar antes, ainda como cliente, e o carinho pelo espaço fez ela querer ter um envolvimento maior. O toque dela no atendimento ao público do local adiciona quase que uma camada mística: “Eu tenho esse sentimento que na madrugada ou na vida noturna, muitas das pessoas que vivem ela estão acessando um outro lugar e uma sensibilidade em que o cotidiano, essa forma de viver que a gente criou, acaba cerceando a gente, podando a gente.”
A ideia deste texto veio justamente de uma conversa com ela, que reclamou sobre várias casas noturnas da Augusta e seus arredores que estavam baixando as portas. O próprio Presidenta Bar passou por isso lá em 2022 e ficou três meses sem eventos, a fachada chegou a ser tapada com painéis de concreto para impedir a circulação de pessoas. Vale ressaltar aqui o viés político do bar, que sempre acolheu a população LGBTQIAPN+.
É isso o que faz o jovem Gustavo Duarte, hoje morador de São José do Rio Preto, sentir saudade da capital. Antigo frequentador de um bar nos arredores da Augusta, ele contou o quanto passava a sensação de que tudo ali era possível e do quanto tinha abertura para ser diferente e encontrar com pessoas diversas. Uma sintetização disso é uma memória de quando estava em frente ao bar, cercado de um turista italiano e outros amigos LGBTQIAPN+, quando uma mulher trans, que lia mãos, o contou como seria o futuro dele.
Se ela tivesse contado do futuro da Rua Augusta, provavelmente seria uma visão pós-apocalíptica para os ‘rolezeiros’ e para quem, assim como Gil, Gustavo, Ida e Júlia, via naqueles mais de 3 mil metros um espaço de socialização e de diferentes formas de vivências e vidas. Espaços de teatros e cinemas fechados, inúmeros bares com alvarás cassados e antigas baladas demolidas são uma nova realidade, que se intensificou com a crise que o setor de eventos e restaurantes sofreram durante a pandemia de Covid-19.
A via, a cada dia que passa, tem um perfil mais domiciliar e elitizado, com alguns poucos sobreviventes de períodos de agitação cultural. As notícias sobre a mudança de perfil da via é celebrada na grande imprensa, que exalta a “nova cara” da rua como uma oportunidade para possíveis investidores que pretendem lucrar com o aluguel de apartamentos e kitnets de singelos km², nos quais não caberiam as histórias de nem metade de uma noite da Rua Augusta. A situação se estenderá até que o movimento de revolução, responsável pelas fases lunares, faça a lua brilhar para quem realmente gosta da cena noturna.
